Resumo
A agricultura mundial deverá crescer moderadamente até 2035, impulsionada por ganhos de produtividade e aumento da procura em países de rendimento médio e baixo. O relatório da OCDE e da FAO prevê um aumento de 13,3% no valor global da produção agrícola, atingindo 4,01 biliões de dólares em 2035, com destaque para a produção pecuária. A África Subsaariana deverá contribuir mais para este crescimento, mas enfrenta desafios como vulnerabilidade alimentar e falta de infraestruturas. A região precisa de melhorar a produtividade agrícola, investir em mecanização e infraestruturas, e fortalecer a ligação entre produtores e mercados para garantir um crescimento sustentável e melhorar as condições de vida rurais.
A agricultura mundial deverá entrar numa fase de crescimento moderado até 2035, assente sobretudo em ganhos de produtividade, melhoria dos rendimentos agrícolas, maior eficiência dos sistemas pecuários e expansão da procura nos países de rendimento médio e baixo. Contudo, a trajectória projectada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura revela uma realidade desigual: enquanto algumas regiões avançam com maior capacidade tecnológica, logística e financeira, a África Subsaariana continuará a combinar forte potencial produtivo com elevada vulnerabilidade alimentar e comercial.
O novo relatório OECD-FAO Agricultural Outlook 2026-2035 estima que o valor global da produção agrícola deverá aumentar 13,3% ao longo da próxima década, atingindo cerca de 4,01 biliões de dólares em 2035. A produção pecuária deverá liderar esse crescimento, seguida pelas culturas agrícolas e pelos produtos da pesca e aquacultura. A África Subsaariana deverá assumir uma participação mais relevante, contribuindo com 15,6% do incremento da produção agrícola mundial, acima dos 11,2% registados na década anterior.
A leitura mais importante para Moçambique e para a região não reside apenas na perspectiva de crescimento. Está, sobretudo, na pergunta sobre a qualidade desse crescimento: se será capaz de elevar o rendimento dos produtores, reduzir a dependência de importações, diversificar a dieta alimentar, gerar emprego produtivo e criar novas cadeias de valor ligadas à agro-indústria.
Produzir Mais Será Insuficiente Sem Aumentar o Valor Gerado
O relatório da OCDE e da FAO sustenta que cerca de 73% do crescimento mundial da produção vegetal deverá resultar de aumentos de produtividade, enquanto apenas uma parcela menor virá da expansão das áreas cultivadas. A tendência confirma que o futuro da agricultura dependerá menos da ocupação extensiva de novas terras e mais da capacidade de produzir melhor por hectare, por animal e por trabalhador.
Nos países de menor rendimento, onde se enquadra uma parte significativa da África Subsaariana, esse desafio é particularmente exigente. A região dispõe de margem importante para elevar rendimentos agrícolas, mas parte de uma base baixa de mecanização, acesso limitado a insumos, fraca capacidade de armazenamento, reduzida disponibilidade de crédito e insuficiente ligação entre produtores e mercados.
Segundo o relatório, a produtividade do trabalho agrícola nos países de baixo rendimento deverá aumentar cerca de 17% até 2035. Ainda assim, o rendimento agrícola médio por trabalhador poderá situar-se próximo de 1.100 dólares por ano, muito abaixo dos níveis observados nas economias de rendimento elevado. A diferença evidencia que o aumento da produção não garante, por si só, uma melhoria substancial das condições de vida rurais.
Para Moçambique, a questão central é criar condições para que o agricultor familiar e o produtor comercial possam transformar maior produção em rendimento sustentável. Isso exige sementes melhoradas, extensão rural, irrigação, acesso a fertilizantes, serviços veterinários, mecanização adequada à escala produtiva e, principalmente, mercados capazes de absorver a produção em condições previsíveis.
A produtividade deve ser entendida como uma agenda económica ampla. Não se limita à produção no campo. Inclui a redução das perdas pós-colheita, a melhoria da armazenagem, a disponibilidade de transporte, o processamento local, a qualidade, a certificação e a ligação a compradores institucionais, supermercados, exportadores e indústrias transformadoras.
Crescimento da Produção Não Elimina Risco de Maior Dependência Externa
O relatório apresenta uma advertência particularmente relevante para a África Subsaariana: apesar da expansão da produção, a região deverá aumentar em 55% as suas importações líquidas de alimentos básicos até 2035.
A projecção mostra que o crescimento demográfico e a rápida urbanização poderão avançar mais depressa do que a capacidade interna de produção, distribuição e transformação. A população regional continuará a crescer a um ritmo estimado em 2,2% por ano, o mais elevado entre as grandes regiões mundiais, intensificando a procura por cereais, proteína animal, óleos, produtos lácteos, peixe e outros alimentos.
Este cenário não significa que o comércio seja negativo. O comércio regional e internacional é essencial para compensar défices locais, estabilizar mercados e assegurar acesso a produtos que não podem ser produzidos em quantidade suficiente em todos os países. O problema surge quando a dependência das importações ocorre num contexto de fraca capacidade exportadora, elevada exposição cambial e insuficiente produção interna de bens estratégicos.
Para Moçambique, a resposta não passa por uma lógica de auto-suficiência absoluta. Passa por definir prioridades produtivas, aumentar a oferta nacional de alimentos essenciais, reforçar a substituição competitiva de importações e identificar produtos com condições reais para abastecer mercados regionais.
A localização do País, a ligação aos corredores de Maputo, Beira e Nacala, a proximidade com mercados da África Austral e Oriental, bem como a disponibilidade de recursos agrícolas, colocam Moçambique numa posição potencialmente favorável. Mas essa vantagem geográfica continuará subaproveitada enquanto persistirem custos logísticos elevados, baixa integração entre zonas produtoras e centros de consumo, e insuficiente capacidade de processamento local.
Fertilizantes, Energia e Logística: A Nova Linha de Vulnerabilidade
A estabilidade projectada para os preços agrícolas internacionais não deve ser confundida com ausência de risco. A OCDE e a FAO antecipam que os preços reais globais das matérias-primas agrícolas poderão manter-se estáveis ou abaixo dos níveis actuais no médio prazo, graças aos ganhos de produtividade. Mas alertam que conflitos geopolíticos, custos de energia, interrupções nas rotas marítimas, doenças animais e eventos climáticos extremos podem provocar picos temporários de preços e deteriorar rapidamente a segurança alimentar.
O relatório inclui um cenário adverso para 2026 e 2027, marcado por preços de energia cerca de 33% acima do cenário-base em 2026 e por um aumento estimado de 29% nos preços reais dos fertilizantes. Nesse quadro, a utilização de fertilizantes nos países de baixo rendimento cairia 5,1% em 2026, enquanto a produção de cereais poderia diminuir cerca de 2,3%.
O impacto para os agregados familiares mais vulneráveis seria ainda mais profundo. Menor rendimento e preços alimentares mais elevados conduzem a uma redução do consumo e à substituição de alimentos mais nutritivos por produtos básicos de menor custo. Em outras palavras, o choque não afecta apenas o volume de alimentos disponível; afecta igualmente a diversidade e a qualidade da dieta.
Esta é uma mensagem de grande importância para Moçambique. A dependência de fertilizantes importados, a sensibilidade aos preços dos combustíveis, a exposição às oscilações do metical e os custos de transporte tornam o sector agrícola particularmente vulnerável a choques externos. Daí a necessidade de investir em soluções que reduzam essa exposição: uso mais eficiente de fertilizantes, aumento da produção de sementes adaptadas, agricultura de conservação, sistemas de irrigação mais eficientes, valorização de biofertilizantes e reforço da capacidade nacional de armazenagem.
Infra-Estrutura é Política Agrícola
Um dos pontos mais fortes do relatório é a ligação directa entre desempenho agrícola e qualidade da infra-estrutura. A OCDE e a FAO observam que a África Subsaariana se encontra numa faixa baixa de intensidade comercial e desempenho logístico, devido a redes de transporte insuficientes, fraca capacidade de armazenamento e sistemas de facilitação do comércio ainda pouco eficientes.
A consequência é dupla. Por um lado, os produtores rurais têm dificuldade em chegar aos mercados mais rentáveis. Por outro, os consumidores urbanos pagam mais caro pelos alimentos, porque os custos de transporte, perdas, intermediação e risco são incorporados no preço final.
A agricultura competitiva, portanto, não se constrói apenas com programas de apoio à produção. Exige estradas rurais transitáveis, pontes, energia, sistemas de frio, armazéns, mercados grossistas organizados, informação de preços, plataformas de comercialização, laboratórios de certificação e processos aduaneiros mais eficientes.
Num país de grandes distâncias e com uma agricultura fortemente dispersa, a articulação entre produção, logística e agro-indústria é determinante. Sem ela, os excedentes de uma província podem coexistir com escassez e preços elevados noutra.
Agro-Indústria Como Ponte Entre o Campo e o Mercado
A oportunidade para Moçambique está em evitar que a agricultura permaneça predominantemente um sector de produção primária de baixo valor. A expansão da procura regional por alimentos, proteína animal, produtos processados e matérias-primas industriais pode criar espaço para novas cadeias de valor em cereais, oleaginosas, hortícolas, frutas tropicais, aves, lacticínios, pescas, mandioca, feijões e produtos florestais.
A tendência mundial de diversificação alimentar, sobretudo nas economias de rendimento médio, deverá aumentar a procura por carne, leite, peixe e alimentos processados. Ao mesmo tempo, a utilização de produtos agrícolas para biocombustíveis, biomateriais e outras aplicações industriais deverá crescer. A OCDE e a FAO projectam que a utilização de produtos agrícolas para biocombustíveis aumente 13,6% até 2035, enquanto os demais usos industriais poderão crescer 26%.
Para Moçambique, esse quadro reforça a importância de uma política de transformação local. A produção agrícola precisa de estar ligada à indústria de alimentos, embalagens, rações, óleos vegetais, processamento de frutas, produção de amidos, fibras, bioenergia e outros segmentos capazes de gerar emprego, conhecimento e maior valor acrescentado.
A transformação local também pode reduzir perdas, melhorar a conservação, permitir o acesso a mercados mais distantes e criar procura mais estável para os produtores. Uma agricultura ligada à indústria não significa substituir o pequeno produtor; significa criar condições para que ele participe em cadeias mais organizadas, com contratos, assistência técnica, padrões de qualidade e compradores previsíveis.
Resiliência Será Tão Importante Quanto Produtividade
A agricultura moçambicana enfrenta, simultaneamente, riscos climáticos, choques de preços, eventos sanitários, fragilidade de infra-estruturas e reduzida capacidade financeira dos produtores. Por isso, a produtividade não pode ser tratada isoladamente da resiliência.
O relatório defende que os sistemas agrícolas de baixo rendimento precisam de combinar inovação tecnológica com diversificação de culturas, gestão de água, sementes melhoradas, bancos comunitários de sementes, conhecimento local, seguros e mecanismos de gestão de risco. A ideia é simples: produzir mais só será sustentável se os produtores tiverem capacidade para resistir a secas, cheias, pragas, doenças animais e oscilações de preços.
Para Moçambique, isto implica dar maior centralidade à agricultura de conservação, à irrigação de pequena e média escala, aos sistemas de aviso prévio, ao seguro agrícola, à diversificação de fontes de rendimento e à expansão de actividades não agrícolas nas zonas rurais.
A transformação estrutural desejável não deve resultar apenas na saída de trabalhadores da agricultura. Deve resultar em maior valor gerado no campo, melhor integração entre agricultura e serviços, e expansão de oportunidades em transporte, comercialização, transformação, manutenção de equipamentos, assistência técnica e tecnologias digitais.
Uma Oportunidade Que Exige Escolhas Estratégicas
O cenário traçado pela OCDE e pela FAO confirma que a África Subsaariana continuará a ganhar importância na produção e no consumo alimentar mundial. Mas esse crescimento poderá coexistir com maior dependência de importações, baixa produtividade e pressão sobre a segurança alimentar, caso os investimentos em tecnologia, mercados e logística não acompanhem a procura.
Para Moçambique, a mensagem é clara: o potencial agrícola não pode continuar a ser avaliado apenas pela extensão de terra arável, diversidade climática ou abundância de recursos. O verdadeiro potencial será medido pela capacidade de gerar rendimento rural, assegurar alimentos acessíveis, reduzir perdas, transformar matérias-primas localmente e posicionar empresas moçambicanas nos mercados regionais.
A agricultura pode ser um dos pilares mais importantes da transformação económica do País. Mas para cumprir esse papel terá de ser tratada como uma cadeia completa — da produção à logística, da armazenagem à indústria, do financiamento à exportação — e não apenas como actividade de subsistência ou sector de emergência.
Fonte: O Económico



