InícioRevistaSociedadeAPROVADO PLANO DE RECUPERAÇÃO PÓS-CHEIAS

APROVADO PLANO DE RECUPERAÇÃO PÓS-CHEIAS

Por: Gentil Abel

Todos os anos, quando chega a época chuvosa, o país volta a enfrentar o mesmo cenário: rios a transbordar, estradas interrompidas, casas destruídas, campos agrícolas submersos e milhares de famílias obrigadas a abandonar tudo o que construíram. É um ciclo que se repete com demasiada frequência e que deixa a sensação de que o país continua a reagir às tragédias, em vez de conseguir antecipá-las.

No início de 2026, praticamente em fevereiro, as cheias voltaram a mostrar a dimensão dessa vulnerabilidade. As províncias de Maputo, Gaza e Sofala foram as mais afectadas e, em fevereiro, a situação agravou-se com a passagem do ciclone Gezani por Inhambane. O resultado foi devastador: mais de 869 mil pessoas afectadas, 230 mortes, milhares de deslocados acolhidos em centros de acomodação, infra-estruturas danificadas, estradas intransitáveis e extensas áreas agrícolas destruídas.

Perante este cenário, o Conselho de Ministros aprovou, recentemente, um conjunto de medidas destinadas à recuperação das zonas afectadas. Entre elas está o Plano de Recuperação e Reconstrução Pós-Cheias, que prevê assistência humanitária, reposição de serviços essenciais, reconstrução de infraestruturas resilientes, recuperação económica e redução do risco de desastres. São medidas necessárias e que demonstram a preocupação do Governo em responder aos impactos da calamidade.

Para além da recuperação das zonas afectadas, o momento também convida à reflexão sobre o papel da prevenção na gestão das cheias. A reconstrução permite repor infraestruturas e serviços essenciais, mas o investimento duradouro em medidas de mitigação, planeamento territorial e redução do risco pode fortalecer a capacidade de resposta do país perante fenómenos semelhantes.

E uma das prioridades deve passar pelo ordenamento do território. Em várias regiões do país continuam a surgir habitações em zonas de risco, muitas delas próximas de rios ou em áreas historicamente inundáveis, e se esse fenômeno continuar o número de pessoas expostas às cheias continuará a aumentar.

Ao mesmo tempo, é necessário investir na manutenção e ampliação dos sistemas de drenagem, sobretudo nos centros urbanos. Em várias cidades, bastam poucas horas de chuva intensa para que ruas, bairros e infraestruturas fiquem inundados. A limpeza regular de valas de drenagem, a construção de novos canais e o planeamento urbano adaptado às alterações climáticas podem reduzir significativamente os impactos das chuvas.

Diante desse cenário, torna-se necessário reconhecer que a destruição de florestas, a ocupação desordenada das margens dos rios e a degradação de ecossistemas naturais reduzem a capacidade do território de absorver o excesso de água durante períodos de chuva intensa. Preservar esses espaços é igualmente uma forma de reduzir o risco de desastres.

Importa ainda reforçar a preparação das comunidades. Muitas pessoas vivem em zonas vulneráveis e nem sempre sabem como agir antes, durante ou depois de uma cheia. Campanhas permanentes de educação para a gestão do risco, realizadas em escolas, comunidades e instituições locais, podem aumentar a capacidade de resposta da população e diminuir as perdas humanas.

Por outro lado, a recuperação económica das famílias afectadas não deve limitar-se à entrega de apoio de emergência. Agricultores que perderam as suas colheitas, pequenos comerciantes que ficaram sem os seus bens e trabalhadores que perderam as suas fontes de rendimento precisam de programas que lhes permitam reconstruir a sua actividade económica e recuperar a autonomia.

Por fim, as alterações climáticas indicam que fenómenos extremos poderão tornar-se mais frequentes e intensos. Isso significa que as cheias deixarão de ser acontecimentos excepcionais para se tornarem desafios permanentes da gestão pública. Perante esta realidade, o país precisa de transformar a prevenção numa prioridade estratégica e não apenas numa resposta ocasional após cada desastre.

O Plano de Recuperação e Reconstrução Pós-Cheias constitui um passo importante para apoiar as populações afectadas e restabelecer os serviços essenciais.

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