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De rapaz magro em Bryne a estrela mundial: como os treinadores perceberam cedo que Haaland era especial

Espen Undheim sorri ao recordar os primeiros treinos em que conheceu Erling Haaland. O avançado que hoje é uma superestrela estava longe de ser o impressionante atleta que é atualmente, mas o seu antigo treinador recorda ter visto sinais de potencial naquele rapaz “magro”, que demonstrava uma enorme paixão pelo futebol.

Os dois conheceram-se no Bryne FK, um clube situado no sul da Noruega. Undheim era, e continua a ser, treinador das camadas jovens da equipa, e Haaland, então com cerca de oito anos, era uma das milhares de crianças da região ansiosas por aprender o jogo.

“O que o tornava especial era o facto de estar sempre à procura do golo. Mesmo quando não estava numa posição favorável, movimentava-se e tentava colocar-se em situações em que pudesse marcar”, conta Undheim à CNN Sports.

“E quando marcava, festejava muito, correndo por todo o campo. Mesmo em criança, conseguia perceber que tinha um instinto natural para fazer golos.”

Na altura, talvez não parecesse provável, mas essa capacidade para marcar acabaria por levar Haaland ao topo do futebol mundial, tornando-o num dos melhores jogadores do planeta.

Os números falam por si. Nas quatro épocas ao serviço do Manchester City, Haaland foi o melhor marcador da Premier League em três ocasiões. Precisou também de apenas 111 jogos no campeonato para atingir os 100 golos, tornando-se no jogador mais rápido de sempre a alcançar essa marca.

O jogador de 25 anos também ajudou a Noruega a qualificar-se para o Mundial deste verão — a primeira presença da seleção na competição desde 1998 — e é esperado como uma das figuras em destaque no maior palco do futebol.

Mas antes da fama e dos contratos multimilionários, Haaland era apenas mais uma criança a crescer numa pequena localidade norueguesa.

Undheim recorda que Haaland e os amigos praticamente viviam num campo de futebol coberto da cidade. Se não estivesse a comer, a dormir ou na escola, podia ser encontrado ali, a jogar à bola com um grupo de rapazes um ano mais velhos.

Mais tarde começou a treinar três vezes por semana depois das aulas, num programa orientado por Undheim. Passados alguns anos, integrou a equipa jovem do Bryne.

“Nessa altura, era praticamente apenas esquerdino”, recorda Undheim. “Por isso teve de trabalhar muito o pé direito para melhorar.”

“Mas tudo girava em torno da sua mentalidade. Se não recebesse a bola, ficava muito zangado com os colegas. E se falhasse um golo numa situação evidente, também ficava muito irritado consigo próprio. Isso era algo especial nele.”

Essa raiva continua a fazer parte do seu jogo. Mesmo ao conquistar a Taça de Inglaterra pelo clube esta temporada, Haaland ficou furioso por um colega não lhe ter passado a bola na última jogada da partida. É essa ambição e esse desejo constante que o ajudaram a transformar-se na máquina de golos que é hoje.

O importante, porém, é que Haaland sabe controlar essa intensidade — utilizando-a em benefício da equipa e não como uma força destrutiva.

A origem dessa mentalidade não é totalmente clara, mas, segundo o antigo treinador, houve duas influências principais.

Por um lado, Undheim acredita que o ambiente da sua infância em Bryne, uma orgulhosa comunidade agrícola, contribuiu para desenvolver a sua resistência e dureza mental. Por outro, recebia conselhos importantes do pai, Alf-Inge Haaland, que também foi futebolista profissional e jogou no Manchester City.

Apesar da fama do pai, Undheim garante que Haaland nunca sentiu uma pressão extra. Em criança, jogava apenas por prazer.

“Era um típico rapaz da terra”, diz Undheim, sorrindo. “Era divertido. Respondia sempre muito depressa. Antes e depois dos jogos gostava de brincar.”

“Quando o ouço nas entrevistas agora, continuo a reconhecer o rapaz que conheci em Bryne… ele não mudou.”

Mas as coisas começaram a tornar-se mais sérias à medida que foi subindo de escalão. Aos 15 anos já jogava pela equipa sub-18 do Bryne e despertava o interesse de outros clubes noruegueses.

Em 2017 assinou pelo Molde, um dos maiores clubes do país. Depois de começar na equipa de reservas, rapidamente chegou à equipa principal graças a uma sucessão de golos que chamou a atenção de alguns dos maiores clubes da Europa.

Foi também nessa altura que começou a despertar o interesse da seleção nacional. Leif Gunnar Smerud é atualmente treinador-adjunto da equipa Angel City, da NWSL. Mas o técnico de 49 anos iniciou a carreira na Noruega.

Ao longo do percurso, que incluiu também trabalho como psicólogo, Smerud foi treinador das seleções jovens norueguesas, orientando os sub-18 e sub-21, além de passagens pelas seleções principais masculina e feminina.

Durante esse período, recorda que já existia algum entusiasmo em torno de um jovem chamado Erling, embora nada de muito diferente do habitual.

“Vi-o bastante cedo”, conta. “Na Noruega organizamos estágios para jogadores de 14 e 15 anos.”

“Era possível perceber que tinha uma paixão especial. Procurávamos atletas com verdadeira paixão, quase mais do que talento, e ele tinha isso. Adorava futebol e isso era evidente.”

“Mas a sua evolução foi interessante e acelerou mais tarde. Era bom, claro, mas não era aquele jogador por quem todos estávamos à espera.”

Foi também nesta fase que Haaland começou a desenvolver-se fisicamente. Durante anos teve de encontrar diferentes formas de ultrapassar os defesas, enfrentando muitas vezes adversários mais fortes.

Já na adolescência, começou a crescer e a ganhar massa muscular. Essa componente física continuou a evoluir até ao ponto em que hoje consegue dominar os defesas graças à combinação de tamanho e velocidade.

Smerud acredita que o facto de não ter tido essa vantagem física quando era criança acabou por beneficiar o seu desenvolvimento.

“Acho que isso ajuda muito, porque os jogadores que não têm grande porte quando são pequenos têm de ser inteligentes”, explica.

“Se fores muito grande quando és jovem e tiveres vantagem física, por vezes ganhas maus hábitos e habituas-te a que tudo funcione apenas porque és maior.”

“Ele não tinha isso, por isso teve de trabalhar o timing, o posicionamento, os movimentos e a técnica. Acho que isso acabou por ajudá-lo.”

“Também acho que agora o beneficia ter o físico que tem, porque o futebol ao mais alto nível é um jogo muito físico.”

Haaland representou a Noruega em vários escalões jovens, mas foi no Mundial de Sub-20 de 2019 que realmente chamou a atenção.

Apesar de a Noruega ter sido eliminada na fase de grupos, Haaland terminou como melhor marcador da competição — graças aos nove golos apontados na vitória por 12-0 frente às Honduras.

Smerud era treinador dos sub-21 nessa altura e recorda que as exibições no torneio aceleraram diretamente a sua chegada à seleção principal.

Foi também nessa fase que assinou pelo RB Salzburg, da Áustria, onde continuou a destacar-se.

Marcou 28 golos em 22 jogos na primeira temporada no futebol austríaco, incluindo oito golos em seis partidas da Liga dos Campeões. Esse rendimento colocou-o no radar dos maiores clubes europeus, incluindo o Manchester United.

Mas foi o Borussia Dortmund quem venceu a corrida pela contratação do jovem, concluindo uma transferência superior a 20 milhões de dólares em 2019. Na Bundesliga, Haaland exibiu uma forma impressionante e tornou-se rapidamente num dos jogadores mais cobiçados do futebol mundial.

Seguiu-se a mudança para o Manchester City em 2022 e quatro épocas repletas de troféus, mas aqueles que o conheceram em criança continuam a ver nele o mesmo rapaz de Bryne.

“Acho que a sua maior qualidade é continuar a ser a mesma pessoa. É um bom colega de equipa, uma boa pessoa, e não acredito que isso possa mudar”, afirma Smerud.

“Os perigos do sucesso estarão sempre presentes, mas ficaria muito surpreendido se ele não lidasse bem com isso. Ele vem de uma região onde as pessoas lhe dirão se estiver a mudar demasiado. Adora a sua terra, adora as pessoas de lá, e se perder o respeito delas, não acredito que exista algo mais importante para ele.”

E embora Haaland já tenha conquistado a imaginação dos adeptos de futebol em todo o mundo, poderá tornar-se ainda maior se conseguir brilhar no Mundial deste verão.

A Noruega integra um grupo difícil com França, Senegal e Iraque, mas possui qualidade suficiente para lutar por um lugar na fase a eliminar.

Os noruegueses defrontam o Iraque no primeiro jogo do grupo, a 16 de junho, numa partida que marcará a estreia de Haaland em Campeonatos do Mundo.

Aconteça o que acontecer, terá o apoio da sua terra natal. Undheim revela que existem planos para convidar mil jovens jogadores para assistirem ao jogo da Noruega contra a França no mesmo recinto coberto onde Haaland costumava jogar.

“Estamos muito orgulhosos dele. Na nossa arena coberta temos uma pintura sua com 50 metros de altura e 15 metros de largura”, conta Undheim.

“É extremamente popular, claro, e as pessoas estão ansiosas por vê-lo no Mundial.”

Fonte: CNN Portugal

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