Resumo
A Mozambique Rovuma Venture, liderada pela Eni, lançou uma manifestação internacional de interesse para construir uma terceira unidade flutuante de produção de gás natural liquefeito na Área 4 da Bacia do Rovuma, em Cabo Delgado. A plataforma terá capacidade para liquefazer até 6 milhões de toneladas anuais de gás, seguindo a estratégia de expansão da Eni e parceiros na monetização das reservas de gás offshore. O concurso, aberto até 3 de julho, exige experiência em projetos FLNG e tecnologia para operar em águas profundas. Com a Coral Sul e Coral Norte em operação, a terceira unidade representará um aumento significativo na capacidade produtiva da Área 4, consolidando a posição de Moçambique no mercado internacional de GNL.
O processo procura identificar empresas capazes de executar um contrato integrado de engenharia, aquisição, construção, instalação e comissionamento — EPCIC, na sigla inglesa — para uma plataforma com capacidade de liquefacção de até 6 milhões de toneladas anuais de gás natural liquefeito.
A iniciativa marca um novo passo na estratégia de expansão da Eni e dos parceiros da Área 4, assente numa abordagem progressiva de monetização das vastas reservas offshore de gás. Mais do que um novo empreendimento isolado, o concurso reforça a perspectiva de que a experiência acumulada pela Coral Sul e os avanços da Coral Norte poderão servir de base para uma nova vaga de desenvolvimento no Rovuma.
Uma Plataforma de Maior Escala
Segundo os termos reportados pela Lusa, a manifestação de interesse está aberta até 3 de Julho e abrange a entrega integral da unidade: engenharia, aquisição de equipamentos, construção, transporte, amarração, comissionamento, entrada em operação e testes de desempenho.
A plataforma deverá operar em águas com cerca de dois mil metros de profundidade, o que eleva a exigência técnica do concurso e restringe o universo de empresas aptas a responder ao desafio. Os concorrentes terão de comprovar experiência recente em projectos FLNG ou em empreendimentos offshore de complexidade comparável, além de apresentar soluções tecnológicas para liquefacção, armazenamento e sistemas de amarração.
A capacidade máxima prevista — até 6 milhões de toneladas anuais — confere especial relevância à nova unidade. A Coral Sul produz cerca de 3,4 milhões de toneladas anuais, enquanto a Coral Norte foi desenhada para uma capacidade de 3,6 milhões de toneladas anuais. A terceira plataforma poderá, assim, representar um salto de escala na capacidade produtiva da Área 4.
Do Sucesso da Coral Sul à Nova Fase de Expansão
A Coral Sul foi a primeira unidade FLNG a iniciar produção na Bacia do Rovuma, em 2022, estabelecendo uma referência técnica e operacional para o desenvolvimento offshore de gás em Moçambique.
O projecto demonstrou a viabilidade de uma solução flutuante num ambiente de águas ultraprofundas e permitiu ao País entrar no circuito internacional de exportação de GNL. Segundo a Eni, a unidade já realizou mais de 135 carregamentos de gás natural liquefeito desde o início da produção.
A Coral Norte, cujo investimento ronda US$ 7,2 mil milhões, representa a segunda etapa desta estratégia. A decisão final de investimento foi tomada em Outubro de 2025, e a unidade deverá entrar em operação em 2028. Quando estiver operacional, deverá elevar a produção total de GNL associada às unidades Coral para mais de 7 milhões de toneladas anuais.
É neste contexto que a terceira FLNG ganha significado estratégico. A Eni indicou anteriormente que a oportunidade ainda está em definição, mas o lançamento do concurso sugere que o consórcio pretende começar a estruturar, com antecedência, a capacidade industrial, tecnológica e logística necessária para transformar essa possibilidade num projecto executável.
Concurso Não Substitui Decisão de Investimento
A abertura de uma manifestação de interesse não deve ser interpretada como uma decisão final para avançar com a nova plataforma. Trata-se, antes, de uma etapa de preparação do mercado, que permite ao consórcio aferir o interesse de fornecedores, testar soluções técnicas, avaliar custos, mapear riscos de execução e identificar potenciais modelos de contratação.
A decisão de investir dependerá de vários factores: a confirmação da solução de desenvolvimento mais competitiva, as condições do mercado internacional de GNL, a disponibilidade de financiamento, os compromissos de compra do gás, os requisitos regulatórios e a evolução das condições de segurança e de operação na região.
Ainda assim, o passo agora dado sinaliza que a opção de uma terceira FLNG deixou de ser apenas uma hipótese conceptual e começa a adquirir maior densidade industrial.
Nova Escala, Novas Exigências Para a Economia Nacional
Para Moçambique, o eventual avanço de uma terceira unidade poderá ampliar a relevância económica da Bacia do Rovuma, mas também elevará as exigências de preparação interna.
A oportunidade não se resume às receitas fiscais e às exportações. Um projecto desta dimensão poderá criar procura por serviços marítimos, logística, manutenção, certificação, formação técnica, fornecimento industrial, segurança, alojamento, alimentação e diversos serviços especializados.
O desafio será transformar essa procura em participação efectiva das empresas nacionais, evitando que a expansão do sector se limite à geração de riqueza offshore, com reduzida ligação à economia doméstica.
A experiência da Coral Sul e a execução da Coral Norte oferecem ao País uma janela importante para consolidar fornecedores, qualificar mão-de-obra, reforçar instituições de certificação e estruturar mecanismos que facilitem a entrada de pequenas e médias empresas na cadeia de valor do gás.
Área 4 Consolida-se Como Centro da Estratégia de Gás
A Mozambique Rovuma Venture reúne a Eni, a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos, a CNPC, a Kogas e a XRG, dos Emirados Árabes Unidos. A Área 4 integra igualmente o projecto Rovuma LNG, liderado pela ExxonMobil, que continua a avançar na preparação da sua decisão final de investimento.
Em paralelo, o Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies na Área 1, retomou a trajectória de desenvolvimento depois de vários anos de interrupção associados à insegurança em Cabo Delgado.
Com estes projectos, Moçambique procura consolidar-se como um dos grandes polos emergentes de gás natural liquefeito no continente africano. A terceira FLNG proposta pela Eni poderá reforçar essa posição, mas o seu verdadeiro impacto dependerá da capacidade de ligar a expansão do gás a uma agenda mais ampla de industrialização, conteúdo local, desenvolvimento de competências e transformação económica.
Fonte: O Económico





