Por: Gentil Abel
A qualificação inédita para o Campeonato do Mundo Sub-17 de 2026 colocou os Mambinhas diante de um palco que, durante muitos anos, parecia distante do futebol moçambicano. A chegada ao Mundial do Qatar representa o resultado de um processo de crescimento das selecções jovens e, em particular, do trabalho desenvolvido por Luís Guerreiro desde que assumiu o comando técnico dos Sub-17, em 2024.
O percurso da equipa mostra que a qualificação não surgiu por acaso. No Campeonato Africano das Nações Sub-17, disputado em Marrocos, os Mambinhas conseguiram alcançar um feito inédito para o futebol moçambicano de onze: garantir a presença numa fase final de um Campeonato do Mundo. É uma conquista que ultrapassa o resultado de uma determinada competição, porque abre uma nova perspectiva sobre a capacidade de Moçambique formar jogadores capazes de competir para além das fronteiras nacionais e regionais.
Sob orientação de Guerreiro, a selecção tem apresentado sinais de consistência que ajudam a explicar esta evolução. Antes mesmo da qualificação mundial, a equipa já tinha conquistado a medalha de bronze na Taça COSAFA Sub-17, em 2025. No mesmo ano, venceu a Cascais Luso Cup, em Portugal, e voltou a levantar o troféu em 2026. Na edição mais recente, disputada em Julho, os Mambinhas chegaram a vencer Portugal por expressivos 4-1, um resultado que, embora não possa ser utilizado isoladamente para medir a qualidade de uma selecção, demonstra a capacidade competitiva que a equipa tem vindo a adquirir.
É justamente nesta sequência de resultados que se pode perceber a principal marca do trabalho de Luís Guerreiro. Os Mambinhas deixaram de ser apenas uma selecção jovem convocada para disputar torneios e passaram a apresentar um percurso competitivo com resultados concretos. A diferença está na continuidade. Ganhar uma competição pode ser um momento de inspiração; repetir boas campanhas em diferentes contextos exige organização, preparação e uma ideia de jogo que consiga acompanhar a evolução dos jogadores.
No entanto, seria precipitado transformar estes resultados numa garantia de sucesso no Mundial. O futebol é particularmente imprevisível. Jogadores que hoje se destacam podem encontrar dificuldades diante de adversários mais experientes, enquanto equipas que chegam ao torneio sem grande exposição mediática podem surpreender. O Mundial será, por isso, um teste completamente diferente daquele encontrado nas competições africanas ou nos torneios de preparação realizados na Europa.
A tarefa que espera os Mambinhas no Qatar é significativa. Lembrando que os Mambinhas integram o Grupo C, ao lado da Argentina, Austrália e Dinamarca. A estreia acontece diante da Dinamarca, a 19 de Novembro, seguindo-se o confronto com a Argentina, no dia 22, antes do encerramento da fase de grupos frente à Austrália, a 25. São adversários com diferentes escolas e tradições de formação, o que obrigará a equipa moçambicana a adaptar-se a diferentes modelos de jogo e níveis de exigência.
O encontro com a Argentina, em particular, será um dos momentos de maior exposição para esta geração. O futebol argentino possui uma longa tradição na formação de jogadores e apresenta uma estrutura competitiva que torna qualquer confronto com uma selecção das suas categorias num desafio de elevada dificuldade. Mas é precisamente nestes jogos que os Mambinhas poderão perceber até onde chegou a sua evolução.
Outro aspecto que merece atenção é a promoção de Luís Guerreiro aos Sub-20, anunciada pela Federação Moçambicana de Futebol em Junho de 2026. A decisão pode ser interpretada como reconhecimento do trabalho desenvolvido nos escalões de formação, mas também coloca sobre o treinador uma responsabilidade acrescida. Guerreiro passa a liderar, de forma acumulada, os Sub-17 e os Sub-20, enquanto prepara a geração que irá representar Moçambique no Mundial e, simultaneamente, assume um novo ciclo competitivo no escalão superior.
Esta acumulação de funções pode trazer vantagens, sobretudo pela possibilidade de existir continuidade entre os diferentes escalões. Um treinador que acompanha os jogadores desde cedo conhece melhor as suas características, limitações e potencial de crescimento. Porém, também exige capacidade de gestão, porque os dois escalões possuem objectivos e calendários diferentes.
É aqui que o caso dos Mambinhas deve ser analisado para além da euforia provocada pela qualificação. O Mundial, nesse caso, deve ser visto como uma oportunidade para consolidar uma política de formação em Moçambique. Se esta geração conseguir manter-se competitiva e alguns dos seus jogadores alcançarem o futebol profissional, o impacto poderá ser muito maior do que os resultados obtidos no Qatar.
A verdade é que o país já teve momentos de entusiasmo em torno das suas selecções. O desafio sempre esteve em transformar esses momentos em processos duradouros. A actual geração, contudo, chega ao Mundial com argumentos diferentes: uma qualificação histórica, resultados positivos em competições regionais e internacionais e um treinador que conhece o grupo e tem participado directamente no seu desenvolvimento.
Por isso, a presença no Qatar deve ser encarada com ambição, mas também com equilíbrio. Não se pode exigir aos Mambinhas que regressem do Mundial como campeões para considerar a campanha um sucesso. Mas a forma como a equipa vai competir, na capacidade de enfrentar adversários de maior dimensão e, sobretudo, no que acontecerá com estes jogadores depois da competição, será, provavelmente, ás consequências dessa histórica classificação
Por fim, Luís Guerreiro já colocou esta geração numa posição inédita. Agora, a responsabilidade deixa de ser apenas conquistar resultados e passa por garantir que o salto dado pelos Mambinhas não seja um episódio isolado. O Mundial pode ser o início de uma nova etapa para o futebol de formação moçambicano, desde que a qualificação histórica seja acompanhada por investimento e acompanhamento dos jogadores.
Os Mambinhas já fizeram história ao chegar onde nenhuma selecção moçambicana de futebol de onze tinha chegado antes. No Qatar, terão a oportunidade de escrever o capítulo seguinte. E, independentemente dos resultados, a maior vitória poderá ser conseguir transformar esta geração numa referência para as que vierem depois.






