Resumo
Por: Gentil Abel
Foi lançado ontem, dia 9, no Instituto Guimarães Rosa, o livro “O Rap como Arte e Filosofia”, da autoria de Daúde Amade, uma obra que propõe uma leitura profunda do rap como expressão estética e filosófica, com destaque para a análise da obra do falecido rapper Azagaia e um estudo da música “Mulher Heroína”, da cantora rapper Iveth. O evento contou com a presença da viúva de Azagaia e da própria Iveth.
A obra apresenta o rap para além da sua dimensão musical, posicionando-o como um campo legítimo de produção de conhecimento e reflexão crítica. Segundo o autor, o livro surge com o objectivo de desconstruir a ideia de que o rap é uma arte marginal, defendendo que este género possui capacidade de gerar pensamento filosófico e estético.
“Os raps são abordagens que estão ligadas à filosofia, em que tento encontrar uma série de reflexões estéticas dentro do próprio rap”, explicou Daúde Amade durante a entrevista. O autor acrescenta que a obra procura demonstrar que, dentro do rap, é possível refletir profundamente sobre a realidade e o mundo.
Baseado em pesquisas realizadas entre 2016 e 2023, o livro reúne análises de diversas músicas do rap moçambicano, sem se limitar a períodos específicos. A proposta, segundo Amade, é identificar elementos filosóficos nas letras e compreender o rap como uma forma de leitura crítica da sociedade.

Além disso, o autor destaca que optou por uma linguagem mais acessível nesta obra, de modo a alcançar não apenas especialistas, mas também leitores que não estão diretamente ligados ao universo do hip-hop. Ainda assim, defende que o livro traz contributos relevantes para o debate académico, sobretudo num contexto em que o rap ainda é pouco explorado nas universidades moçambicanas.
Durante o evento, Iveth sublinhou a importância da obra, destacando a sua estrutura assente em três pilares: as origens do hip-hop em Moçambique, a fundamentação teórica e as cartografias estéticas. Segundo a artista, o livro apresenta uma revisão bibliográfica e musicográfica significativa, reunindo diversos nomes do rap nacional.

Para Iveth, o principal mérito da obra está na valorização do rap como campo de conhecimento. “Retiramos o rótulo redutor de entretenimento passageiro e elevamo-lo ao estatuto de debate filosófico, sociológico e histórico”, afirmou.
A artista acrescentou ainda que o livro demonstra como o rap moçambicano vai além da música, afirmando-se como instrumento de intervenção social e construção de identidade. “Por detrás de cada rima há uma ontologia, uma forma de ser socializada”, concluiu.
Com este lançamento, “O Rap como Arte e Filosofia” posiciona-se como uma contribuição relevante para o reconhecimento do hip-hop como espaço legítimo de produção intelectual em Moçambique.






