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LNG Entre Oferta Imponente e Geopolítica: As Incidências Que Redesenham o Mercado

Num Gastech marcado por salas cheias e negociações ao milímetro, Milão tornou-se o barómetro da próxima fase do gás: Europa a comprar flexibilidade, Ásia a ancorar a procura, e uma onda de nova oferta a aproximar-se. Entre contratos plurianuais, alianças estratégicas e prudência sobre o risco de sobre-oferta já em 2026, a conferência sinalizou que o valor estará menos no spot e mais na segurança contratual – com cláusulas de destino e logística a ganhar peso.

Mercado: entre o “muro de oferta” e a âncora asiática

A organização do Gastech destacou que cerca de 200 MTPA de capacidade poderão entrar entre 2025 e 2030, mantendo viva a discussão sobre o equilíbrio do mercado na segunda metade desta década. Analistas e participantes alertaram que 2026 poderá revelar-se um ano mais fraco do que 2025, embora o rótulo de “sobre-oferta” dependa do ritmo real de entrada dos mega-projectos no Qatar e nos EUA, bem como do pulso da procura asiática.

A ExxonMobil fez o contraponto ao enfatizar a força da procura. A multinacional continua confiante no mercado chinês, em particular no transporte e no bunkering a gás, e já olha para novas geografias como Vietname, Tailândia, Filipinas, África do Sul e Colômbia. O arranque do projecto Golden Pass, nos EUA, ainda este ano, foi apontado como um marco de curto prazo que poderá balizar o equilíbrio da oferta e da procura.

Europa compra flexibilidade

A estratégia europeia foi claramente ilustrada pela Edison, que vê expirar dois contratos de gasoduto com a Argélia e parte da Líbia e decidiu substituir esses volumes por gás natural liquefeito. O objectivo é garantir maior flexibilidade, gerir a sazonalidade e adaptar-se às incertezas da procura. O novo contrato de 15 anos com a Shell, que prevê 0,7 milhões de toneladas por ano a partir de 2028, soma-se a acordos com a Venture Global e insere-se numa carteira pensada para dar mais autonomia. Em pano de fundo, continuam em vigor arbitragens herdadas da crise de 2022, que moldam a arquitectura das futuras cláusulas contratuais.

Negócios e alianças fechados em Milão

Entre os negócios firmados em Milão, destacou-se o acordo da BOTAS, da Turquia, que assegurou aproximadamente 15 mil milhões de metros cúbicos de LNG para o período de 2026 a 2028, reforçando a diversificação de fontes e o papel do país como hub regional. Outro destaque foi a parceria entre a Glenfarne e a POSCO, que envolve um contrato de 20 anos para fornecimento de 1 MTPA de LNG do projecto do Alasca, além de um entendimento industrial para o fornecimento de aço destinado ao gasoduto de 807 milhas associado ao projecto. O FID é esperado até ao final de 2025, e este contrato representa a segunda âncora comercial, depois do acordo preliminar com a japonesa JERA.

Também foi anunciada a joint-venture entre a Eni e a Petronas, que visa capturar o prémio asiático, integrando activos na Indonésia e na Malásia e aumentando a produção dos actuais 300 kbpd para mais de 500 kbpd em três anos. O mercado indiano surge também como destino prioritário desta nova estrutura. Outro sinal regulatório e de mercado foi o acordo entre a Argent LNG e a EPIAS, a bolsa turca, para facilitar a participação no mercado, reforçando a interligação logística euro-atlântica.

O que isto diz sobre “preço” e “risco”

A conferência deixou três leituras centrais sobre preços e riscos. A primeira é que os contratos de longo prazo, com cláusulas de flexibilidade, tornaram-se o seguro mais eficaz contra a volatilidade. A segunda é que o destino e a logística voltaram a ocupar o centro da agenda, seja no alinhamento com gasodutos, seja na gestão de terminais e portfólios. A terceira é que a Ásia, sobretudo China e Índia, continuará a definir o ponto de equilíbrio: se acelerarem a substituição do carvão pelo gás, a nova capacidade será absorvida; se não, o mercado poderá enfrentar pressão baixista já a partir de 2026.

África: oportunidades e dilemas

A Gastech 2025 também lançou luz sobre a posição africana no novo tabuleiro global do gás. Vários painéis destacaram o continente como fornecedor emergente e, simultaneamente, como mercado de crescimento. Países como Moçambique, Tanzânia, Nigéria, Senegal e Mauritânia foram citados como pilares de uma futura expansão de oferta, especialmente a partir da próxima década.

Moçambique, com os projectos Rovuma LNG e Coral Sul FLNG, foi mencionado como um dos casos emblemáticos de como a estabilidade contratual e a atração de financiamento internacional são determinantes para converter reservas em fluxos de mercado. A Nigéria, por sua vez, continua a consolidar a sua posição, mas enfrenta desafios de segurança e de financiamento. Senegal e Mauritânia apostam no hub de GTA (Grand Tortue Ahmeyim), enquanto a Tanzânia regressa à agenda com planos de desenvolvimento em fase de negociação.

Se, por um lado, a África oferece volumes que podem equilibrar o mercado, por outro enfrenta dilemas estruturais: garantir que os contratos internacionais não releguem o conteúdo local a segundo plano, assegurar benefícios fiscais duradouros e mitigar o risco de “excesso de dependência” num mercado global altamente volátil. O grande desafio, sublinhado em Milão, é transformar riqueza geológica em desenvolvimento sustentável, num contexto em que compradores procuram flexibilidade e produtores africanos necessitam de previsibilidade.

O que observar nos próximos 6–12 meses

Nos próximos meses, a atenção estará voltada para o arranque físico de projectos como o Golden Pass, nos EUA, e a primeira fase de expansão do Qatar. Também se aguardam anúncios de FID e expansões adicionais em terminais norte-americanos e do Médio Oriente, assim como a execução prática dos contratos firmados em Milão. Na Europa, os próximos concursos para fornecimentos flexíveis pós-2026 vão testar até onde os compradores estão dispostos a ir em termos de cláusulas de destino. Na Turquia, a implementação dos 15 bcm contratados e a integração com a bolsa EPIAS serão observadas como ensaio de um hub energético euro-asiático.

Fonte: O Económico

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