InícioSaúdeOMS: mais triagem neonatal pode ajudar a prevenir mortes por anomalias congênitas

OMS: mais triagem neonatal pode ajudar a prevenir mortes por anomalias congênitas

Resumo

A Organização Mundial da Saúde destaca, num novo relatório, a importância da triagem neonatal para prevenir mortes e incapacidades em crianças, especialmente em países de baixa e média rendas. Com o aumento da mortalidade infantil devido a anomalias congénitas, a triagem neonatal torna-se essencial para detetar doenças graves logo nos primeiros dias de vida. A OMS sublinha a necessidade de integrar a triagem neonatal num sistema de cuidados contínuo e funcional, como demonstrado por países pioneiros como o Brasil, Filipinas, Índia, entre outros. A deteção precoce deve ser seguida por diagnóstico, tratamento, acompanhamento e apoio às famílias para garantir ganhos significativos em saúde e reduzir a mortalidade infantil evitável.

O novo relatório da Organização Mundial da Saúde, OMS, sobre triagem neonatal destaca que a identificação precoce e o tratamento oportuno podem ajudar crianças a atingir seu pleno potencial, reduzindo incapacidades ao longo da vida e prevenindo mortes. 

O documento “Fortalecimento da capacidade para triagem neonatal, diagnóstico e gestão de anomalias congênitas”também busca apoiar os Ministérios da Saúde, especialmente aqueles de países de baixa e média rendas, para que priorizem a triagem neonatal. 

Sistemas de saúde equitativos

Com a redução da mortalidade infantil nas últimas duas décadas, as anomalias congênitas passaram a representar uma proporção cada vez maior das mortes neonatais e de crianças menores de cinco anos, além de constituírem uma carga substancial de incapacidade ao longo da vida.

A triagem neonatal é um conjunto de exames preventivos realizados nos primeiros dias de vida do bebê para detectar doenças genéticas, metabólicas ou infecciosas graves. 

Enfrentar as anomalias congênitas já não é uma opção. Trata-se de um componente essencial de sistemas de saúde equitativos, centrados nas pessoas, e do compromisso global com a cobertura universal de saúde. É o que diz Pascale Allotey, diretora do Departamento de Saúde Sexual, Reprodutiva, Materna, Infantil e do Adolescente da OMS. 

Países pioneiros

Reconhecendo essa necessidade, a OMS promoveu uma série de consultas técnicas para examinar como os países podem fortalecer a triagem neonatal, o diagnóstico, a gestão e os cuidados de longo prazo relacionados às anomalias congênitas, integrando plenamente esses serviços à rotina da atenção à saúde. 

O relatório apresenta a experiência coletiva de países pioneiros que implementaram programas em larga escala liderados pelo Estado. O documento inclui o Brasil, a única nação de língua portuguesa na lista,  Filipinas, Índia, Sri Lanka, Uganda, Egito, Argentina, Cuba e Armênia.

Segundo a OMS, as experiências deles reforçam uma lição clara e consistente: a triagem neonatal deve ser integrada a um sistema de cuidados contínuo e funcional. 

A agência lembra que a detecção precoce precisa estar vinculada à confirmação diagnóstica feita a tempo, ao tratamento eficaz, ao acompanhamento estruturado, aos serviços de reabilitação e ao apoio contínuo às famílias. Abordagens fragmentadas ou isoladas de triagem são insuficientes para gerar ganhos significativos em saúde.

Uma enfermeira com equipamento de proteção individual está ao lado de uma incubadora com um recém-nascido em uma unidade de terapia intensiva neonatal.
Unicef/Johnny Shahan
Uma enfermeira examina um recém-nascido na unidade de terapia intensiva neonatal de um hospital na zona rural de Damasco, na Síria (arquivo)

Anomalias genéticas: integrar serviços para reduzir mortalidade

A equidade e os direitos humanos estão no centro dessa agenda porque toda criança, independentemente do local de nascimento ou da condição socioeconômica, tem o direito a um começo de vida saudável. 

“A integração dos serviços voltados às anomalias congênitas nos sistemas nacionais de saúde contribui para reduzir a mortalidade e as incapacidades evitáveis, proteger as famílias contra gastos catastróficos com saúde e promover a inclusão social ao longo de toda a vida”, afirma Pascale Allotey. 

O caso do Brasil: conquistas e desafios

Segundo o relatório, o programa nacional de triagem neonatal do Brasil inclui: triagem, rastreamento dos casos positivos, confirmação diagnóstica, tratamento e acompanhamento. Lançado em 2001, quando a taxa de mortalidade infantil era de 27 por mil nascidos vivos, o programa foi ampliado em etapas: primeiro, fenilcetonúria e hipotireoidismo congênito; depois, doença falciforme e hemoglobinopatias; em seguida, fibrose cística. Na quarta fase, entraram hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase; em 2022, a toxoplasmose congênita. Essas doenças são detectadas no “teste do pezinho”, realizado entre o segundo e o quinto dia de vida para a maioria dos recém-nascidos.

O documento revela que a cobertura do programa permaneceu elevada, alcançando entre 80% e 84% dos nascimentos (entre 2012 e 2023), com amostras coletadas em mais de 23 mil unidades de saúde. A triagem auditiva (o chamado “teste da orelhinha”) tornou-se obrigatória em 2010, embora a cobertura permaneça em torno de 43% (em 2023) e persistam desafios relacionados ao acompanhamento dos casos, especialmente em áreas remotas. 

O Brasil também realiza vigilância de defeitos congênitos visíveis e introduziu, em 2017, a triagem nacional por oximetria de pulso para cardiopatias congênitas críticas (“teste do coraçãozinho”). No entanto, segundo o relatório, a capacidade cirúrgica ainda é insuficiente, existindo lista de espera para crianças que necessitam de cirurgia cardíaca. 

Principais lições 

De acordo com o relatório da OMS, os países de baixa e média rendas com programas de grande porte priorizaram a equidade no acesso aos programas de triagem neonatal, buscando assegurar que nenhuma criança seja deixada para trás.

O documento também apresenta quais são os principais fatores que facilitam a implementação de iniciativas em países de baixa e média renda visando abordar um ou mais anomalias congênitas em larga escala nos sistemas nacionais de saúde. 

O financiamento sustentável, por meio de seguros nacionais de saúde ou pacotes financiados pelo governo, garante maior equidade e reduz os gastos diretos das famílias, como observado no Brasil e na Índia. 

Como os países fazem a triagem neonatal 

A OMS afirma que os países adotaram diferentes abordagens para selecionar as condições iniciais da triagem neonatal, mas todos começaram com um conjunto pequeno e viável de condições, em vez de tentar abranger todas as anomalias congênitas de uma só vez.

A triagem funcionou como porta de entrada para a expansão, com os programas nacionais priorizando condições para as quais já existiam tratamentos disponíveis e fluxos assistenciais bem definidos.

As discussões destacaram que a expansão normalmente ocorre de forma gradual, à medida que a capacidade do sistema aumenta, sendo orientada por evidências científicas, avaliações de especialistas e prioridades nacionais.

*Valéria Maniero é correspondente da ONU News em Genebra

Fonte: ONU

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