InícioSaúdeFRAGILIDADES NA ASSISTÊNCIA MATERNO-INFANTIL EM UNIDADE SANITÁRIA DE LICHINGA

FRAGILIDADES NA ASSISTÊNCIA MATERNO-INFANTIL EM UNIDADE SANITÁRIA DE LICHINGA

Resumo

O caso chocante ocorrido numa unidade sanitária em Lichinga, onde uma jovem deu à luz no chão do hospital com a ajuda de uma estagiária enquanto as parteiras dormiam, levanta questões sobre a falta de cuidado e dignidade no sistema de saúde. A jovem deu à luz num cenário de abandono e sofrimento, evidenciando a negligência das enfermeiras e parteiras. A falta de pessoal, medicamentos e infraestruturas nos hospitais públicos não justifica a falta de assistência num momento tão crucial. A suspensão das parteiras envolvidas pela Direcção da Saúde mostra a gravidade do ocorrido e a necessidade de responsabilização individual perante situações de negligência médica.

Por: Gentil Abel

Há acontecimentos que chocam não apenas pela sua gravidade, mas porque expõem feridas profundas de um sistema que deveria existir para proteger vidas. O caso ocorrido na semana passada numa unidade sanitária em Lichinga, onde uma jovem deu à luz no chão do hospital com a ajuda de uma estagiária, enquanto parteiras escaladas para o turno dormiam em camas destinadas aos pacientes, é um desses episódios que obrigam a sociedade a fazer perguntas difíceis e urgentes.

Neste contexto, o nascimento de uma criança deveria ser um momento de cuidado, dignidade e segurança. No entanto, para esta jovem mulher, o parto aconteceu num cenário de abandono, vulnerabilidade e sofrimento desnecessário. Enquanto enfrentava as dores intensas do trabalho de parto, sem assistência adequada, quem assumiu a responsabilidade de ajudar no nascimento foi uma estagiária, demonstrando coragem e sentido de dever num momento em que profissionais experientes deveriam estar na linha da frente a cumprir a sua missão.

Perante esta realidade, é impossível analisar este caso sem questionar a actuação das enfermeiras e parteiras envolvidas. A profissão de enfermagem é uma das mais nobres da sociedade porque está directamente ligada ao cuidado humano. Exige competência técnica, mas também sensibilidade, empatia e compromisso com a vida. Por isso, causa indignação saber que mulheres encarregadas de assistir outra mulher num dos momentos mais delicados da sua existência não estavam disponíveis quando foram mais necessárias.

Por conseguinte, a questão que muitos cidadãos colocam é simples: como é possível que profissionais de saúde, muitas delas mães e mulheres que conhecem os desafios e os riscos associados ao parto, tenham permanecido indiferentes perante uma parturiente em sofrimento? Como é possível que uma mulher tenha sido deixada à sua sorte dentro de uma unidade sanitária? Estas perguntas não podem ser ignoradas porque tocam na dimensão humana da profissão, tornando o problema moral e falta de empatia.

Por outro lado, a realidade dos hospitais públicos é conhecida: falta de pessoal, escassez de medicamentos, equipamentos limitados e infra-estruturas degradadas. Estas dificuldades afectam a qualidade do atendimento e contribuem para o desgaste físico e psicológico dos trabalhadores.

Ainda assim, reconhecer os problemas do sistema não pode servir de justificação para situações de negligência. Nenhuma dificuldade estrutural explica o abandono de uma mulher em trabalho de parto. Nenhuma carência de recursos justifica que profissionais escalados para prestar assistência estejam a dormir enquanto uma paciente necessita de cuidados urgentes. Há circunstâncias em que a responsabilidade individual não pode ser diluída nos problemas do sistema.

Neste sentido, a decisão da Direcção da Saúde de suspender as parteiras envolvidas e reter os respectivos salários até à conclusão das investigações demonstra que as autoridades compreenderam a gravidade do ocorrido.

Mais do que isso, este episódio reacende o debate sobre a humanização dos serviços de saúde em Moçambique. Humanizar não significa apenas melhorar edifícios ou adquirir equipamentos. Significa garantir que cada paciente seja tratado com respeito, atenção e dignidade. Significa colocar o ser humano no centro dos cuidados. E isso é particularmente importante nas maternidades, onde estão em causa duas vidas ao mesmo tempo: a da mãe e a do recém-nascido.

Além disso, o caso também evidencia a necessidade urgente de reforçar os mecanismos de fiscalização nas unidades sanitárias, sobretudo durante os turnos nocturnos, quando a supervisão tende a ser mais reduzida. A existência de equipas de monitoria permanentes, sistemas de controlo mais rigorosos e mecanismos eficazes de denúncia pode contribuir para prevenir comportamentos incompatíveis com os deveres profissionais.

Paralelamente, é fundamental que o Estado invista na melhoria das condições de trabalho dos profissionais de saúde. Não se pode exigir excelência num ambiente marcado pela falta de recursos. A valorização dos trabalhadores e a responsabilização pelos seus actos devem caminhar juntas. Uma não substitui a outra.

Em suma, o que aconteceu em Lichinga trata-se de um alerta sobre as fragilidades que ainda persistem no sistema de saúde e sobre a necessidade de reformas que coloquem a dignidade dos utentes no centro das prioridades. Quando uma mulher dá à luz no chão de um hospital, não é apenas uma paciente que falha no sistema. É o próprio sistema que falha com ela.

Por fim, quando essa falha acontece diante de profissionais que tinham o dever de cuidar, a sociedade tem o direito de exigir respostas, responsabilização e mudanças concretas. Porque nenhuma mulher deve enfrentar o parto sozinha dentro de uma maternidade. E porque nenhum cidadão deve entrar num hospital público com medo de não encontrar assistência quando mais precisa dela.

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