Mais de 1,19 milhões de pessoas receberam assistência alimentar ou apoio à produção agrícola em Moçambique no primeiro semestre de 2026, segundo um relatório do Food Security Cluster, que aponta persistentes necessidades humanitárias.
O Food Security Cluster, mecanismo de coordenação da resposta à insegurança alimentar liderado pelo Programa Mundial de Alimentação e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, indica que 1.194.281 pessoas foram assistidas no país entre janeiro e junho, num contexto de múltiplas crises.
Acrescenta que a intervenção envolveu um quadro em que 1,71 milhões de pessoas necessitavam de assistência humanitária urgente e proteção em 2026, incluindo 977.110 afetadas pelo conflito armado no norte, sobretudo em distritos de Cabo Delgado, e 733.518 pelas cheias no sul, essencialmente na província de Gaza.
Refere que a insegurança alimentar continua a ser uma preocupação crítica em Moçambique, com 2,09 milhões de pessoas a enfrentarem níveis elevados de insegurança alimentar aguda, classificados na Fase 3 (Crise) ou superior da Escala Integrada de Classificação da Segurança Alimentar, incluindo 148 mil moçambicanos já na Fase 4 (Emergência).
Na assistência alimentar de emergência, os parceiros humanitários apoiaram 586.123 beneficiários únicos, sendo 93,87% da meta definida de 624.397 pessoas, segundo o relatório.
Contudo, assinala limitações na resposta prestada, salientando que, “em termos das quantidades distribuídas, os parceiros cobriram apenas 16,16% das necessidades das pessoas-alvo e apenas 13,91% das necessidades das pessoas efetivamente alcançadas”.
Só em junho, a assistência alimentar chegou a 420.185 pessoas, através de operações conduzidas por oito organizações em resposta simultânea ao conflito armado no norte e às inundações. Desse apoio, 44,37% foi fornecido em géneros alimentares e 55,63% através de transferências monetárias e vales.
Na área da agricultura e meios de subsistência, 130.152 pessoas receberam apoio no primeiro semestre, correspondendo a 17,33% da meta anual de 751.232 beneficiários.
“A componente de Agricultura e Meios de Subsistência está muito abaixo da meta, tendo alcançado apenas 17,33% desde o início do ano. Esperamos que os resultados da época agrícola contribuam para melhorar a cobertura nos próximos meses“, assinala o relatório.
Entre janeiro e junho, os parceiros distribuíram 35,42 toneladas de sementes de milho, feijão e culturas hortícolas, 8.826 utensílios agrícolas, incluindo regadores e enxadas, e prestaram formação a 21.440 pessoas em boas práticas agrícolas e gestão pós-colheita, entre outras áreas.
O relatório destaca igualmente o recurso crescente a transferências monetárias, que beneficiaram 668.095 pessoas no primeiro semestre, através da distribuição de 9,57 milhões de dólares (8,2 milhões de euros), sobretudo nas províncias de Cabo Delgado, Nampula, Sofala e Gaza.
Segundo o documento, 589.305 pessoas receberam apoio monetário no âmbito da assistência alimentar e outras 78.790 através de programas de agricultura e meios de subsistência.
O documento atribui parte das dificuldades de resposta ao défice de financiamento da operação humanitária, com o Food Security Cluster a estimar necessidades de 223,25 milhões de dólares (191 milhões de euros) em 2026, tendo garantido apenas 17% desse valor até junho.
Apesar de os parceiros terem alcançado quase 94% da meta de beneficiários na assistência alimentar, o Food Security Cluster alerta que as necessidades continuam muito superiores aos recursos disponíveis, num contexto em que milhões de pessoas permanecem afetadas pela insegurança alimentar, pelo conflito armado e pelos impactos das cheias.
O documento alerta que as necessidades deverão manter-se elevadas nos próximos meses, recordando que as projeções mais recentes apontavam para até 2,67 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda, incluindo cerca de 170 mil em risco de atingir a fase de emergência.
Fonte: Observador





