Moçambique está a dar passos concretos para negociar um novo programa de apoio com o International Monetary Fund, numa fase que sucede à liquidação integral e antecipada da sua dívida junto da instituição.O valor pago ascende a cerca de , correspondentes a 630 milhões de euros, referentes a financiamentos no âmbito do Fundo para a Redução da Pobreza e o Crescimento (PRGT).A decisão, tomada em Março, é apresentada pelo Governo como um sinal de compromisso e credibilidade, abrindo espaço para uma nova etapa de cooperação com o Fundo.O Executivo moçambicano reconhece explicitamente que pretende regressar a um quadro formal de apoio com o FMI.“Estamos na bitola de voltar a ter um acordo com o FMI”, afirmou Salim Valá, sublinhando que ambas as partes mantêm alinhamento quanto à necessidade de um novo programa.A posição é reforçada ao nível técnico. Segundo o director nacional das Análises Fiscais e Financeiras, Alfredo Mutombene, o pagamento da dívida não representa um afastamento, mas sim o início de uma nova fase de relacionamento.As negociações estão a decorrer no quadro das reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial, em Washington, onde a delegação moçambicana, liderada pela ministra das Finanças, Carla Loveira, mantém encontros técnicos com responsáveis das instituições financeiras internacionais.O objectivo passa por definir os contornos de um novo programa de cooperação, num contexto em que o anterior acordo foi interrompido antes da sua conclusão, em 2025.O Presidente da República, Daniel Chapo, classificou a decisão de liquidar antecipadamente a dívida como “corajosa”, enquadrando-a como um sinal de responsabilidade macroeconómica e de reforço da credibilidade internacional do país.A utilização de reservas internacionais para este efeito traduz uma escolha estratégica: sacrificar liquidez de curto prazo para ganhar margem de negociação e confiança junto de parceiros multilaterais.Neste sentido, o pagamento não deve ser lido apenas como uma operação financeira, mas como um instrumento de política económica e diplomacia financeira.Apesar do sinal positivo, a abertura de um novo ciclo com o FMI coloca desafios relevantes.A negociação de um novo programa implicará, à semelhança de experiências anteriores, a definição de compromissos em matéria de política fiscal, monetária e reformas estruturais.Estes compromissos poderão incluir medidas de consolidação fiscal, reformas institucionais e reforço da disciplina macroeconómica, com impactos directos sobre a economia doméstica.Do lado do sector privado, a leitura é simultaneamente positiva e cautelosa.Os empresários reconhecem que a liquidação da dívida contribui para reforçar a confiança dos parceiros externos e criar condições para aprofundar a cooperação económica e financeira.No entanto, sublinham que este ganho de credibilidade deve ser acompanhado por medidas internas consistentes, orientadas para a promoção de um crescimento inclusivo e sustentável .A mensagem é clara: a confiança externa só se consolida se for sustentada por reformas internas eficazes.O movimento de Moçambique coloca em evidência um equilíbrio delicado.Por um lado, o país reforça a sua posição junto das instituições financeiras internacionais, criando condições para novos acordos e financiamento.Por outro, a utilização de reservas e a eventual entrada num novo programa com o FMI levantam questões sobre sustentabilidade macroeconómica, espaço fiscal e capacidade de implementação de reformas.A negociação de um novo programa com o FMI representa mais do que uma continuidade institucional.Trata-se da definição de um novo enquadramento para a política económica do país, num contexto global mais exigente e marcado por maior selectividade no acesso a financiamento.O sucesso deste novo ciclo dependerá da capacidade de alinhar três dimensões críticas: credibilidade externa, disciplina interna e dinamismo económico.
Fonte: O Económico





