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“No futebol, a preparação psicológica é crucial”. O trabalho mental pode ganhar campeonatos e ajudar os jogadores mais experientes

Resumo

Jogadores experientes têm sido destaque no Mundial, como Vozinha que garantiu um ponto para Cabo Verde contra a Espanha e Ronaldo que marcou dois golos contra o Uzbequistão. A preparação mental é crucial para manter o desempenho, como evidenciado por Roberto Martínez após o empate de Portugal. António Rosado destaca a importância da preparação psicológica no futebol, especialmente para jogadores mais experientes, abordando as dificuldades específicas que enfrentam, como o "estigma do 'prazo de validade'" e a necessidade de adaptar o jogo à condição física. Atletas como Messi, Neuer e Cristiano Ronaldo continuam a brilhar em idades avançadas, desafiando a ideia de que jogadores com mais de 30 anos estão em declínio.

Os jogadores experientes têm rendido algumas das principais histórias deste Mundial. Na primeira jornada, Vozinha impediu os ímpetos espanhóis e garantiu um ponto para Cabo Verde contra a atual campeã europeia. Ronaldo, por sua vez, teve um desempenho aquém contra a República Democrática do Congo, mas marcou dois golos diante do Uzbequistão. Para manter a boa fase, ou recuperar-se após um jogo menos conseguido, a preparação mental é fundamental. 

Após o empate português na sua estreia no Campeonato do Mundo de 2026, o treinador Roberto Martínez falou reiteradas vezes da “emoção do Mundial” e como o ânimo do plantel mudou após marcar o primeiro golo. O fator psicológico parece, assim, ter sido um fator fundamental que impediu a vitória da equipa nacional.

“No futebol, a preparação psicológica é crucial devido à natureza coletiva, imprevisível e altamente mediática do jogo”, explica António Rosado, especialista em psicologia do desporto e professor catedrático da Universidade de Lisboa, à CNN Portugal. “A mente do jogador dita a velocidade de decisão num desporto onde frações de segundo mudam o resultado”. Para o académico, uma capacidade mental forte otimiza o foco, elimina distrações internas e externas e “fortalece a autoconfiança, blindando a motivação durante as rotinas exaustivas de treino e as exigências da competição”.

Diferentes atletas podem exigir trabalhos diferentes, uma vez que cada um enfrenta dificuldades particulares na sua vida pessoal e profissional. No entanto, no caso de jogadores mais experientes, existem algumas questões específicas que precisam de ser abordadas pelos profissionais da saúde.

Durante décadas no futebol, jogadores com mais de 30 anos eram tidos como ‘velhos’, em fim de carreira. Pelé jogou o seu último Mundial em 1970, quando já estava com três décadas de vida. Beckembauer, ícone da seleção alemã, disputou o torneio pela última vez em 1974, com 29 anos. No entanto isso já não é a realidade. Messi lidera a Argentina aos 38, Neuer voltou da reforma para defender a Alemanha aos 40 e Cristiano Ronaldo, com 41, segue como titular de Portugal.

Para António Rosado, existem quatro dificuldades principais que podem prejudicar a capacidade psicológica de atletas com idades avançadas, e a primeira é justamente o “estigma do ‘prazo de validade’”, em que o jogador precisa de um “esforço mental redobrado” para não “interiorizar a narrativa de que está ‘velho’ ou ‘acabado’.” Além disso, é necessário, aceitar a condição física, entendendo que o corpo não tem as mesmas capacidades que tinha em anos anteriores e, por isso, é preciso compensar “através do posicionamento e da inteligência tática.” O futuro incerto, com a proximidade do final da carreira, também contribui para que o foco do atleta seja desviado dos relvados para questões pessoais como a sua situação financeira; e por fim, para muitos nomes importantes do futebol mundial, os últimos anos em atividade são vividos sem o estatuto de titular absoluto, situação que, para Rosado, é um “desafio mental complexo” que “exige uma enorme resiliência”.

Para desenvolver uma condição mental resiliente, é necessário um “treino continuado e bem-estruturado ao longo de toda a carreira desportiva do jogador”, explica Rosado. Cada trabalho realizado pelos profissionais da saúde procura preparar os atletas para as diferentes adversidades que serão vividas dentro dos relvados.

Segundo o professor da Universidade de Lisboa, é necessário que o futebolista seja capaz de lidar corretamente com os seus erros, assim como os dos seus companheiros de equipa e da arbitragem. Além disso, gerir o ego individual de cada atleta e garantir que todos sejam capazes de comunicar de maneira clara e positiva, mesmo em situações de adversidade, é fundamental.

Por outro lado, para trabalhar com veteranos, é necessário afastar-se “do treino mental básico” e, assim, focar-se “numa abordagem estratégica e de mentoria”. “O fator psicólogo no desporto atua como um facilitador para que o atleta ressignifique o seu papel e consiga blindar a sua mente contra o ruído externo”, sublinha António Rosado.

Nesta situação, o psicólogo garante que é necessário “procurar bloquear as críticas da opinião pública”. Para isso, o jogador é aconselhado a focar-se nas variáveis que estão sob o seu controlo, como o rendimento, o treino e a recuperação entre as partidas. As alterações na capacidade física também obrigam o atleta a alterar o seu objetivo principal em cada jogo para a “eficácia tática e mental”, em vez da intensidade física.

Outro aspeto fundamental para estes atletas é conseguir adaptar-se à possibilidade de iniciar jogos como suplente com maior frequência. Para isso, é necessário compreender o banco e o balneário como “espaços de alta influência e utilidade”. Planear o futuro fora dos relvados e “utilizar o histórico de superação do atleta como combustível motivacional” também pode ajudar a melhorar o desempenho destes jogadores.

Na primeira partida de Cabo Verde no Mundial 2026, foi justamente um jogador mais experiente que ganhou o carinho dos adeptos no mundo inteiro. Vozinha, guarda-redes cabo-verdiano, teve uma grande exibição e fez defesas que foram fundamentais para garantir o empate em 0-0 diante da Espanha. Além de render mais de 16 milhões de seguidores nas redes sociais, o desempenho pode servir como uma importante motivação para o que resta do campeonato.

“Uma boa atuação num jogo crucial funciona como um poderoso catalisador psicológico”, analisa António Rosado. “Ela gera um fenómeno que em psicologia do desporto chamamos de reforço de autoeficácia, transformando a perceção do atleta e blindando a sua mente contra as críticas”.

Bons jogos também influenciam a opinião pública, seja nas redes sociais ou nos media, que passam a exaltar a capacidade técnica, tática ou até mental destes jogadores. Isso faz com que a pressão sobre eles seja menor, “eliminando fontes crónicas de stresse mental”. “Ao mesmo tempo, o jogo torna-se uma "âncora positiva" na memória do jogador, servindo de lembrança mental de que ele ainda consegue competir ao mais alto nível quando a dúvida surgir no futuro”.

Por outro lado, há momentos em que os jogadores não estão tão bem e as críticas públicas intensificam-se. Isso ocorreu com Cristiano Ronaldo após a estreia de Portugal no Mundial 2026. O avançado teve apenas 25 participações com a bola e três remates que não acertaram na baliza adversária. Com isso, o desempenho do jogador passou a ser questionado por analistas e adeptos, que criticam a sua posição como titular absoluto da equipa.

“A perda de unanimidade de Cristiano Ronaldo como titular indiscutível na seleção nacional introduz uma dinâmica de altíssima complexidade psicológica, capaz de afetar o desempenho tanto do jogador quanto do grupo”, explica Rosado. O número 7 conseguiu uma rápida recuperação na competição e marcou duas vezes na goleada por 5-0 contra o Uzbequistão. Depois da partida, celebrou o resultado, mas mencionou uma "semana negra" em que, com base na opinião pública, parecia que ele se havia "retirado do futebol". 

Muitos defenderam que o avançado deveria perder o lugar na equipa titular. Isso, para António Rosado, pode ser visto como uma “ameaça ao seu legado”, devido ao histórico de sucesso de Ronaldo na seleção nacional. No entanto, a motivação de “provar que os críticos estão errados” pode fazer com que “o seu nível de ansiedade cognitiva dispare”, resultando em “decisões precipitadas, passes forçados e remates em posições desfavoráveis”.

Um caminho indicado pelo professor é o atleta reconhecer que o seu rendimento pode ser potenciado caso deixe de ser titular. Nesta situação, participando da partida apenas durante a segunda parte, há uma redução da exigência física e um aumento da sua “capacidade de posicionamento e finalização”. Este cenário também contribuiria para o desempenho da equipa como um todo. Isso porque não haveria a obrigação de “canalizar todas as jogadas para uma única referência”, o que tornaria o jogo da seleção mais fluido e imprevisível.

A liderança de Ronaldo no balneário também pode resultar num “efeito de contágio psicológico altamente benéfico”. Para isso, é fundamental que o número 7 mantenha uma atitude positiva mesmo sem jogar os 90 minutos. “Os mais jovens veriam o maior símbolo da seleção submeter o ego ao objetivo coletivo, o que eleva exponencialmente a coesão da equipa”.

Fonte: CNN Portugal

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