A entrada em operação da nova refinaria de Cabinda, em Angola, surge num momento particularmente crítico para os mercados energéticos africanos, marcado por volatilidade internacional e pressões crescentes sobre o abastecimento de combustíveis.De acordo com a , a refinaria — uma das primeiras a ser construída no continente nas últimas décadas — já iniciou o fornecimento de diesel ao mercado interno angolano, ao mesmo tempo que exporta derivados como fuelóleo pesado e nafta para mercados internacionais.Com um investimento superior a 470 milhões de dólares, o projecto representa um passo relevante no esforço de Angola para reforçar a sua segurança energética e reduzir a dependência de combustíveis importados, uma vulnerabilidade que se tornou ainda mais evidente no actual contexto geopolítico.O caso angolano evidencia um paradoxo estrutural que continua a caracterizar o sector energético africano. Apesar de ser um dos principais produtores globais de petróleo, o continente exporta cerca de três quartos do crude que produz, mas importa aproximadamente 70% dos combustíveis refinados que consome.Este desequilíbrio traduz-se numa perda significativa de valor económico. Estimativas indicam que África perde cerca de 50 mil milhões de dólares anuais devido à exportação de matéria-prima sem transformação local, reforçando a urgência de uma estratégia de industrialização assente na agregação de valor.Neste contexto, a refinaria de Cabinda surge como um exemplo concreto de tentativa de inversão deste modelo, ao internalizar parte da cadeia de valor e reduzir a exposição a choques externos.A conjuntura internacional tem desempenhado um papel catalisador neste processo. A crise no Médio Oriente, com impactos nas rotas de abastecimento e nos preços globais, tem vindo a expor as fragilidades dos países africanos altamente dependentes de importações de combustíveis.Segundo a , o actual contexto geopolítico reforça a validade da tese de investimento da refinaria de Cabinda, centrada na segurança energética . A unidade, com capacidade inicial de 30 mil barris por dia, deverá duplicar a sua produção numa segunda fase, atingindo 60 mil barris diários.Embora relativamente modesta em escala global, a refinaria permitirá suprir cerca de 10% da procura interna angolana, com potencial de expansão futura, incluindo o desenvolvimento de um complexo petroquímico.O desenvolvimento de capacidade de refinação em África insere-se num debate mais amplo sobre política industrial e transformação económica. A produção local de combustíveis não só reduz a dependência externa, como também cria oportunidades para o desenvolvimento de cadeias de valor associadas, incluindo petroquímica, logística e serviços industriais.Neste domínio, Angola junta-se a iniciativas como a refinaria de Dangote, na Nigéria, que recentemente atingiu capacidade total, sinalizando uma mudança gradual na abordagem do continente ao sector energético.Contudo, o caminho não é isento de desafios. África continua marcada por um histórico de refinarias inoperacionais ou subutilizadas, o que levanta questões sobre viabilidade económica, governação e sustentabilidade dos investimentos.Para países como Moçambique, que enfrentam actualmente pressões no abastecimento e subida dos preços dos combustíveis, o exemplo angolano oferece importantes lições estratégicas.A ausência de capacidade significativa de refinação no país reforça a dependência de importações e expõe a economia a choques externos, como os actualmente observados. Neste sentido, a articulação entre política energética e política industrial torna-se um imperativo estratégico.O desenvolvimento de infra-estruturas energéticas associadas ao gás natural, bem como a eventual aposta em capacidade de refinação regional, poderá constituir uma via para reduzir vulnerabilidades e reforçar a resiliência económica.A nova refinaria de Cabinda representa mais do que um investimento industrial isolado. Trata-se de um sinal de mudança numa narrativa que tem mantido África na posição de fornecedora de matérias-primas e consumidora de produtos refinados.Num contexto global marcado por incerteza e volatilidade, a capacidade de internalizar valor e garantir segurança energética poderá tornar-se um dos principais determinantes do desenvolvimento económico sustentável no continente.
Fonte: O Económico






