Resumo
Os preços do petróleo caíram devido à expectativa de aumento da produção de petróleo iraniano no mercado global, após um acordo entre os EUA e o Irão. Os futuros do Brent desceram abaixo dos 80 dólares por barril, o nível mais baixo desde o início do conflito em Março. A possibilidade de suspensão das sanções ao petróleo iraniano aliviou os preços da energia e as yields das obrigações. A queda dos preços reflete a redução do prémio de risco geopolítico, embora o tráfego de petroleiros no Estreito de Hormuz ainda não tenha retomado totalmente. A normalização dos fluxos de petróleo pode prolongar-se até Setembro, mantendo a volatilidade dos preços. Apesar da reação positiva dos mercados, os detalhes do acordo EUA-Irão ainda não foram confirmados, sendo que o memorando de entendimento será assinado na sexta-feira.
A agência noticiosa refere que um alto responsável norte-americano indicou que os Estados Unidos deverão suspender sanções ao petróleo iraniano no âmbito do acordo destinado a encerrar a guerra, o que abre a possibilidade de entrada de milhões de barris adicionais no mercado internacional. Esta perspectiva retirou pressão aos preços da energia, aliviou receios inflacionistas e contribuiu para a queda das yields das obrigações em vários mercados.
De acordo com a Reuters, os futuros do Brent negociavam nos 78,80 dólares por barril, enquanto o West Texas Intermediate, referência norte-americana, descia para 75,80 dólares. Ambos os contratos já tinham recuado cerca de 5% na sessão anterior, reflectindo a expectativa de que o acordo permita a retoma gradual dos fluxos de petróleo através do Estreito de Hormuz.
Mercado Retira Prémio Geopolítico Do Petróleo
A queda dos preços reflecte, em grande medida, a retirada do chamado prémio de risco geopolítico. Priyanka Sachdeva, analista sénior da Phillip Nova, citada pela Reuters, considera que os mercados estão a eliminar parte do prémio incorporado nos preços do petróleo devido ao conflito. Ainda assim, a analista alerta que o processo de normalização está longe de ser simples, uma vez que o tráfego físico de petroleiros através do Estreito de Hormuz ainda não recuperou totalmente.
O Estreito de Hormuz é uma das rotas energéticas mais importantes do mundo. Antes do bloqueio associado ao conflito, cerca de um quinto do petróleo bruto e do gás natural liquefeito transaccionados globalmente passava por aquela via marítima, segundo a Reuters. Por isso, qualquer sinal de reabertura ou normalização tem impacto imediato nos preços internacionais da energia.
Kim Fustier, analista sénior de petróleo e gás do HSBC, citada pela Reuters, observou que os mercados parecem estar a atribuir uma probabilidade elevada à normalização completa dos fluxos através de Hormuz. No entanto, o HSBC considera que esse processo poderá prolongar-se até ao final de Setembro, o que sugere que a correcção dos preços poderá continuar sujeita a elevada volatilidade.
Acordo EUA-Irão Ainda Tem Zonas De Incerteza
Apesar da reacção positiva dos mercados, os detalhes do acordo interino ainda não foram plenamente confirmados. A Reuters refere que o entendimento deverá ser assinado na sexta-feira e que o memorando de entendimento ainda não foi tornado público.
O acordo deverá prever o levantamento do bloqueio norte-americano aos portos iranianos, enquanto Teerão permitirá a circulação de petroleiros pelo Estreito de Hormuz. A Reuters acrescenta que o entendimento prolonga por mais 60 dias o cessar-fogo acordado em Abril, dando espaço a negociações para uma trégua permanente.
A incerteza, contudo, permanece elevada. A Reuters assinala que responsáveis da indústria consideram que o regresso pleno aos níveis de produção e refinação anteriores à guerra poderá demorar semanas, meses ou mesmo anos. Além disso, Israel distanciou-se tanto do cessar-fogo de Abril como do mais recente pacto entre Washington e Teerão, factor que alimenta dúvidas sobre a durabilidade do acordo.
Hiroyuki Kikukawa, estratega-chefe da Nissan Securities Investment, citado pela Reuters, considera que os preços recuaram na expectativa de reabertura do Estreito de Hormuz, mas que os operadores evitaram vendas mais agressivas enquanto aguardam detalhes adicionais. Na sua leitura, o WTI poderá permanecer volátil, oscilando numa faixa ampla em torno dos 80 dólares por barril.
Queda Do Petróleo Alivia Pressões Inflacionistas
A descida do petróleo teve efeitos imediatos noutros segmentos do mercado. Segundo a Reuters, a perspectiva de maior oferta iraniana prometeu algum alívio à inflação e levou as yields das obrigações a recuar. No Japão, a yield a 10 anos caiu 1,5 pontos-base para 2,63%, enquanto na Austrália a taxa a 10 anos desceu quase 5 pontos-base para 4,787%.
Este movimento confirma a forte ligação entre energia, inflação e política monetária. Uma queda sustentada dos preços do petróleo pode reduzir pressões sobre os custos de transporte, produção industrial e consumo, oferecendo margem adicional aos bancos centrais para adoptarem uma postura menos restritiva. Porém, se a normalização no Médio Oriente se revelar lenta ou instável, o prémio de risco poderá regressar rapidamente aos preços.
A Reuters nota ainda que as reservas norte-americanas de crude estão no nível mais baixo desde 1983, depois de três meses de constrangimentos no Estreito de Hormuz terem pressionado os inventários. Dados do American Petroleum Institute, citados pela agência, indicaram uma queda de 8,3 milhões de barris nas reservas dos Estados Unidos na semana terminada a 12 de Junho, acima da expectativa de uma redução de 4,6 milhões de barris.
Mercados Accionistas Aguardam Pela Fed
Enquanto o petróleo recuava, os mercados accionistas mantiveram movimentos mais contidos, também devido à expectativa em torno da primeira reunião da Reserva Federal sob a liderança de Kevin Warsh. De acordo com a Reuters, os investidores reduziram posições em acções tecnológicas e de semicondutores em Wall Street, levando o Nasdaq a cair 1,15%, enquanto o Dow Jones atingiu um novo máximo, apoiado por ganhos em sectores financeiro e industrial.
Na Ásia, os futuros accionistas apresentavam ligeira valorização, embora mercados com forte peso de fabricantes de semicondutores, como Taiwan e Coreia do Sul, tenham recuado. O índice MSCI da Ásia-Pacífico, excluindo o Japão, caiu cerca de 0,3%, enquanto o Nikkei japonês avançou 0,4%, segundo a Reuters.
A prudência dos investidores reflecte a expectativa sobre a comunicação da Fed. A Reuters indica que uma alteração na taxa dos fundos federais é improvável, pelo que o foco estará na conferência de imprensa de Warsh e nas novas projecções dos membros do Comité Federal de Mercado Aberto.
Xiao Cui, economista sénior da Pictet Wealth Management, citada pela Reuters, afirmou esperar que Warsh reduza a importância de orientações futuras demasiado firmes, defendendo paciência em relação às taxas de juro e à inflação. Contudo, a mesma analista considera que, se o novo presidente da Fed aceitar a possibilidade de novas subidas de juros sem contrariar as expectativas do mercado, a mensagem poderá ser interpretada como mais restritiva.
Energia, Inflação E Política Monetária Voltam A Convergir
A queda do petróleo mostra como os mercados globais continuam dependentes da interacção entre geopolítica, energia e bancos centrais. O eventual regresso do crude iraniano pode aliviar a pressão sobre os preços, reduzir expectativas de inflação e criar condições financeiras menos apertadas. Mas a materialização desse cenário dependerá da assinatura efectiva do acordo, da reabertura operacional do Estreito de Hormuz e da estabilidade política no Médio Oriente.
Para economias importadoras de combustíveis, como Moçambique, uma descida sustentada do petróleo pode representar algum alívio sobre a factura energética, os custos logísticos e a pressão inflacionista. No entanto, enquanto persistirem dúvidas sobre Hormuz, reservas norte-americanas em níveis historicamente baixos e incerteza sobre a resposta da Fed, os mercados de energia deverão continuar sujeitos a fortes oscilações.
Fonte: O Económico






