Brent Recupera Mais de 5% Numa Sessão
Os preços internacionais do petróleo mantiveram-se esta terça-feira, 11 de Agosto, próximos dos níveis mais elevados em mais de uma semana, depois de a deterioração das perspectivas para um entendimento entre os Estados Unidos e o Irão ter devolvido ao mercado parte significativa do prémio geopolítico perdido nos últimos dias.
O Brent chegou aos US$88 por barril durante as negociações asiáticas, enquanto o West Texas Intermediate avançou até cerca de US$82,45, depois de ambos os contratos terem valorizado aproximadamente 5% na sessão de segunda-feira.
Mais tarde, os preços estabilizaram ligeiramente abaixo desses máximos, com o Brent próximo de US$87,8 e o WTI em torno de US$82,2.
A recuperação é expressiva quando comparada com a semana passada. Na quarta-feira, 5 de Agosto, o Brent tinha encerrado nos US$79,45 por barril, enquanto o WTI terminou nos US$75,22, num momento em que os investidores atribuíam maior probabilidade a uma descompressão do conflito e recuperação dos fluxos através de Hormuz.
Em menos de uma semana, o Brent recuperou, assim, cerca de 10%.
Negociações Voltam a Perder Impulso
A mudança de direcção resulta sobretudo da percepção de que continua distante um entendimento capaz de assegurar uma reabertura estável do Estreito de Hormuz.
Segundo a Reuters, o Presidente norte-americano, Donald Trump, respondeu às condições apresentadas pelo Irão para um acordo com novas exigências de compensação, complicando as negociações entre Washington e Teerão.
A reacção do mercado mostra a sensibilidade dos preços a qualquer alteração nas perspectivas de circulação pelo estreito.
Na semana passada, as expectativas de um possível entendimento tinham contribuído para levar o Brent para menos de US$80. A reversão dessas expectativas permitiu que o petróleo recuperasse rapidamente a zona dos US$88.
A amplitude das oscilações demonstra que, neste momento, uma parcela importante da formação do preço não resulta apenas das condições tradicionais de procura e oferta, mas da avaliação diária da probabilidade de normalização das rotas energéticas do Médio Oriente.
Fluxos Por Hormuz Voltam a Diminuir
O elemento físico por detrás dessa percepção permanece relevante.
Analistas do Barclays estimaram que as exportações líquidas de crude e produtos refinados através do Estreito de Hormuz atingiram apenas 3 milhões de barris por dia na semana terminada a 7 de Agosto, contra 4,4 milhões de barris por dia na semana anterior.
Trata-se de uma redução próxima de um terço em apenas uma semana.
Antes do conflito, Hormuz constituía uma das artérias mais importantes do sistema energético mundial, por onde circulava aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados internacionalmente.
Por isso, o mercado reage não apenas à possibilidade de uma interrupção total, mas também à velocidade e regularidade com que os navios conseguem atravessar a região.
Outro Risco Surge em Bab el-Mandeb
A vulnerabilidade energética não se limita a Hormuz.
A Saudi Aramco adiou para 30 de Agosto o reinício da sua refinaria de Jazan, com capacidade de cerca de 400 mil barris por dia, depois de ataques reivindicados pelos Houthis.
O desenvolvimento acrescenta Bab el-Mandeb à equação logística.
Para o mercado petrolífero, a ocorrência simultânea de riscos em Hormuz e Bab el-Mandeb aumenta a importância dos custos de seguros marítimos, segurança das embarcações, disponibilidade de navios e eventual necessidade de utilização de trajectos alternativos mais longos.
Mesmo quando o crude continua a chegar aos compradores, portanto, a perturbação pode manifestar-se através de custos logísticos superiores em vez de uma interrupção absoluta da oferta.
Mercado Entre Oferta Física e Prémio Geopolítico
A actual valorização ocorre, porém, num contexto em que os fundamentos globais não apontavam necessariamente para preços tão elevados durante o terceiro trimestre.
Na sua previsão de Julho, a Energy Information Administration dos Estados Unidos projectava um preço médio do Brent de cerca de US$74 por barril no terceiro trimestre de 2026, apoiada na expectativa de recuperação da produção mundial e normalização progressiva dos fluxos petrolíferos.
O retorno para perto de US$88 mostra que a variável geopolítica voltou a criar uma diferença significativa face à trajectória anteriormente antecipada.
A EIA estima igualmente que o consumo global de petróleo deverá diminuir, em média, cerca de 1,2 milhões de barris por dia em 2026, em parte devido aos efeitos económicos das perturbações no Médio Oriente.
Forma-se, assim, uma tensão entre dois conjuntos de forças: de um lado, uma procura mundial menos dinâmica e perspectivas de recuperação da produção; do outro, limitações físicas ao transporte e um prémio de risco associado à segurança das principais rotas petrolíferas.
Petróleo Volta a Entrar na Equação da Fed
A subida ocorre também num momento particularmente sensível para os mercados financeiros internacionais.
Os Estados Unidos divulgam esta quarta-feira os dados da inflação de Julho, numa altura em que os investidores reduziram substancialmente a convicção de que a Reserva Federal voltará a aumentar os juros em Setembro.
O mercado espera uma subida mensal próxima de 0,1% no índice geral e 0,2% no núcleo da inflação, segundo as expectativas citadas pela Reuters.
Uma leitura acima das previsões poderia recolocar no mercado a possibilidade de maior aperto monetário, sobretudo se a energia continuar a subir.
O petróleo passa, desta forma, a funcionar simultaneamente como commodity e variável macroeconómica: quanto mais prolongado for o aumento dos custos energéticos, maior poderá ser o efeito sobre inflação, expectativas de juros, dólar e condições financeiras.
Faixa de US$75 a US$95 Reflecte Incerteza
Tony Sycamore, analista da IG citado pela Reuters, considera que o impasse pode manter o petróleo dentro de uma faixa bastante ampla, entre aproximadamente US$75 e US$95 por barril, enquanto o mercado procura perceber qual das partes poderá ceder primeiro nas negociações.
A amplitude desse intervalo é, por si só, reveladora.
Uma diferença de US$20 por barril entre os extremos significa condições muito diferentes para países importadores, refinarias, transportadoras, companhias aéreas e economias dependentes de combustíveis fósseis, assim como para produtores e exportadores.
O comportamento recente confirma igualmente essa volatilidade: em apenas poucos dias, o Brent passou de menos de US$80 para perto de US$88, respondendo sobretudo às alterações nas expectativas em torno de Hormuz.
Para Moçambique, Energia Continua Entre os Principais Riscos Externos
Para uma economia importadora líquida de produtos petrolíferos como Moçambique, a evolução internacional do crude permanece relevante porque influencia o custo de aquisição dos combustíveis e, através destes, diferentes componentes da estrutura de custos da economia.
Quando uma subida internacional do petróleo é acompanhada por custos superiores de transporte marítimo e seguros, a transmissão pode ultrapassar o preço da própria matéria-prima e alcançar cadeias logísticas, transporte de mercadorias e importações.
A actual conjuntura exige, por isso, acompanhar não apenas a cotação diária do Brent, mas três variáveis em conjunto: o volume efectivo de petróleo que consegue atravessar Hormuz, a segurança das rotas marítimas e a evolução das negociações entre Estados Unidos e Irão.
Enquanto estes três elementos permanecerem indefinidos, o mercado deverá continuar susceptível a oscilações pronunciadas.
E é precisamente essa incerteza que explica por que razão, apesar de perspectivas de procura mundial mais moderadas, o Brent regressou novamente à proximidade dos US$88 por barril.
Fonte: O Económico



