A final Espanha-Argentina não é um jogo de ténis, um combate de boxe, ou um duelo de mestres de xadrez. Por mais que muitos e muitas o repitam, por mais televisões e jornais que insistam, o mundial não vai ser ganho por Lionel Messi ou Lamine Yamal.
O futebol é um desporto coletivo, um jogo de equipa — mais parecido, portanto, à batalha entre peças negras e brancas do xadrez, com peões e cavalos, bispos e monarcas. O jogo é dirigido por dois treinadores, que — tal como Kasparov ou Carlsen — são os que pensam a estratégia e mexem as peças (22 no futebol e 32 no xadrez).
Se quisermos reduzir a final a um confronto entre dois indivíduos, teríamos de interpretar o Espanha-Argentina como um duelo entre mestres ou treinadores, Luis de la Fuente contra Lionel Scaloni. A Argentina gira em torno de uma estrela, é um sistema solar ‘messino’ ou ‘lionelino’. Ao contrário de Portugal — que não soube, não pôde ou não quis orbitar em torno de Cristiano Ronaldo — conseguiu armar o jogo e as vitórias à volta do goleador argentino, sem apenas debates ou hesitações.
Vale a pena esmiuçar o êxito do sistema ‘messino’ e o fracasso do ‘ronaldiano’ ou ‘cristiano’. Para não fugir à esfera cristã, digamos que a culpa da má prestação das quinas foi da Santíssima Trindade formada por Roberto Martínez, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e CR7. A tentação óbvia foi pôr as culpas no selecionador, que ainda por cima era espanhol; mas quem escolheu Martínez foi a FPF, e a escolha foi tudo menos inocente.
Depois do fracasso no Euro (ganho pela Espanha há dois anos contra a Inglaterra, apenas uns dias depois das lágrimas de Cristiano), a federação destituiu Fernando Santos, o homem que teve a ousadia de prescindir de Ronaldo. Martínez foi contratado com a premissa de não contrariar o verdadeiro chefe daquilo tudo, a eminência parda CR7. A responsabilidade máxima dos fracassos de Portugal nas duas últimas grandes competições é, portanto, do capitão.
Poderá argumentar-se, como fez o próprio, que antes dele Portugal não tinha conseguido títulos, e no ‘ronaldato’ conseguiu três (na última década); mas não é menos verdade que duas ligas das nações, ou mesmo quatro ou 16, não valem o mesmo que um mundial. E, já agora, Portugal ganhou a final contra a França em 2016 sem o capitão em campo. E não é verdade que um título europeu seja tão valioso quanto um mundial, por mais que Cristiano tenha dito isso depois da derrota nos oitavos em Dallas, provavelmente para se consolar.
Esta pequena mentira, em aparência inocente, é uma das chaves para entender o emperramento de CR7, a ânsia por esgotar todos os minutos e jogar mesmo quando era gritante que Portugal precisava de outras armas, de alternativas ao sistema ‘cristiano’ — às tantas, tão previsível para os rivais quanto a rota elíptica dos planetas. A questão é esta: sem conquistar um mundial, Ronaldo não pode ser o GOAT (‘Greatest of All Time’, uma verdadeira ambição digna do seu muito admirado Donald Trump). As lágrimas de CR7 em Dallas são as lágrimas de alguém que conseguiu quase tudo na vida, exceto a meta mais ambiciosa: ser o “maior de todos os tempos”, algo tão subjetivo quanto inalcançável.
Infelizmente, não bastava ser o futebolista com mais recordes, com mais dinheiro, com mais golos da história. Faltava, e continua a faltar, aquilo que a sua némesis tem desde 2022, o troféu dourado da FIFA, o campeonato do mundo. Ronaldo disse sempre que os títulos com a Seleção sabem melhor e têm mais peso do que os títulos clubísticos. Depois de uma etapa gloriosa no Real Madrid, de protagonizar a melhor década de sempre de um jogador (e do clube) no melhor clube da história, com 450 golos marcados (em 438 jogos), Cristiano saiu do Bernabéu pela porta de trás, sem pestanejar. Em vez de agradecer a oportunidade e mostrar tristeza pelo fim da épica aventura, bateu com a porta e foi parar à Juventus, o clube cujos adeptos aplaudiram um golo marcado por ele enquanto rival — um pontapé de bicicleta escolhido como Melhor Golo da Champions League em 2017/8.
Ronaldo achou que o amor e a admiração do Real Madrid por ele não eram suficientes, e por isso rumou a Turim, depois a Manchester e, finalmente, a Riad, onde ainda hoje é o astro-rei do Al-Nassr.
Entretanto, também tinha recuperado o estatuto de indiscutível e ‘primus inter pares’ na Seleção. A culpa desta assimetria insuportável é, como já foi apontado, da Santíssima Trindade; mas há um quarto culpado que não pode ser esquecido: o balneário. Nem o melhor jogador da Premier League (Bruno Fernandes), nem os três bicampeões da Champions (Nuno Mendes, Vitinha, João Neves), foram capazes de contestar a liderança absolutista do devorador de recordes e campeão da liga saudita (ao fim de três anos e meio). Se os melhores jogadores da Seleção, muito mais em forma do que Ronaldo, não foram capazes, os melhores amigos (ou os mais bajuladores: João Cancelo, Rúben Dias e Diogo Dalot) não pouparam nos elogios que alimentaram ainda mais a vaidade do capitão.
Ninguém foi capaz de dar um murro nos cacifos e dizer: “F-d-s, meu, não podes pôr a tua ambição à frente da Seleção”. É o mantra de qualquer balneário (“ninguem está acima da equipa”), mas o visado, em vez de assumir quem é ou deveria ser — de longe, o jogador mais veterano, curtido em mil batalhas e, também por isso, o mais sábio de todos — agiu como uma criança birrenta, incapaz de entender que não pode fazer tudo o que quer, não pode jogar sempre nem impor o seu critério a todo o custo. Em vez de praticar um jogo coral, entre iguais, Portugal foi maniatado por um narcisista em declínio, um emperador sem cortesãos capazes de denunciar a sua nudez.
Martínez podia ter corrigido isso, mas não soube, não quis ou não o deixaram. Consta que houve tímidas tentativas de nivelar o estatuto do capitão, protagonizadas por Neves, Fernandes, e tal vez algum outro jogador no passado, mas não funcionaram. Os 25 jogadores subordinados podiam ter aproveitado alguma ausência do chefe para revoltar-se e acabar com a tirania, mas acabaram por manter a mentira até ao fim.
O maior apoiante da Espanha
Portugal ficou atrás da Colômbia na fase de grupos e acabou perdendo com a Espanha. Se tivesse ganho o Grupo K, teria enfrentado a Argentina, e o duelo entre sistemas solares teria apurado a melhor seleção (e ainda o astro mais decisivo, Ronaldo ou Messi).
Do outro lado do quadro, a Espanha sublimou uma equipa em que todos contam: os 26 jogadores e o treinador, mas também a equipa técnica. Em vez de um sistema solar, ‘La Roja’ é uma família, uma constelação feliz onde o astro principal é o jogador mais novo, não o mais velho. Os que não costumam ser titulares, como Merino, podem ser mais importantes até (ou marcar mais golos e mais decisivos) do que as alegadas estrelas.
A verdade é que De la Fuente evitar falar em ‘titulares’, embora não esconda a preferência por alguns jogadores que conhece, em muitos casos, desde que eram adolescentes. Os critérios são o estado de forma e o encaixe num sistema com poucas fissuras, muito trabalhado e solidário. Se Pedri, cérebro do Barcelona e campeão de La Liga, não está nos melhores dias, é substituído. Morata, campeão europeu e capitão em 2024, não foi convocado. Se os extremos não desequilibram (Williams e Yamal), os laterais (Cucurella e Porro) redobram a voracidade ofensiva
A aposta da Espanha pela adaptação e a preeminência dos estados de forma é crucial e dá resultados. Mais importante ainda é a ausência de egos e de jatos privados, o sentimento de comunidade e família. França tem talento para dar e vender, mas por momentos foi uma coleção de estrelas, onde o poder de fogo disfarçava fraquezas no meio-campo e na defesa. A Argentina apostou tudo ao ‘Messi-centrismo’, ao passo que Portugal perdia a fé no capitão à medida que aumentava a dificuldade dos rivais.
O duelo Espanha-Argentina não decide só o campeão. Decide o modelo vencedor: ou comunidade de vizinhos, ou tribu ao serviço do jogador que muitos apontam como GOAT. Se a Argentina vencer de novo o mundial, Messi receberá a Bola de Ouro e CR perderá, para todo o sempre, o debate sobre o “melhor de todos os tempos”.
Para já, é o melhor marcador do mundial, com oito golos e quatro assistências antes da final (Mbappé tinha 8 e 3 quando foi eliminado pela Espanha). Seria a derradeira pedra no túmulo das ambições do capitão português — e, quem sabe, a gota de água que permitiria a necessária renovação das quinas.
Até ver, a revolução está no banco: de termos o selecionador mais diplomático e contido, passámos a ter o mais impulsivo e desbragado. Tudo, até o aspeto físico do novo selecionador — cabelo, idade, pose — é radicalmente diferente. Esperamos que o jogo da seleção também o seja, mas se há alguem que espera alguma coisa é CR7, que na final do mundial vai ser o maior torcedor de ‘La Roja’ fora de Espanha (ou talvez dentro, uma vez que a família é “quase espanhola”, como ele diz, e costuma passar férias em Ibiza). Se Messi perder a final, e Ronaldo chegar aos mil golos e vencer um novo titulo europeu com Jorge Jesus... tudo pode acontecer. Pelo menos, na cabeça da eminência parda, o capitão mais longevo da centenária história da Seleção.
Fonte: CNN Portugal




