Resumo
Chamar um amigo de "inútil" pode ser positivo, segundo um professor de Harvard. Arthur Brooks defende que ter amigos "inúteis" é essencial para a felicidade, pois são relações desinteressadas. Estas amizades não têm benefícios externos, sendo genuínas e duradouras. Brooks baseia-se em Aristóteles para explicar a importância destas relações. Muitas amizades são úteis, mas é crucial ter amigos verdadeiramente desinteressados. Brooks aconselha a rever as amizades, discutir temas profundos e fazer amigos fora do ambiente de trabalho. Cultivar relações sem esperar algo em troca é fundamental para a felicidade. A reflexão final é sobre a quantidade de amigos "inúteis" que cada um tem na vida.
Quem defende esta ideia é Arthur Brooks, professor em Harvard, numa das suas colunas para a revista The Atlantic. O ponto de partida é simples: quase todas as nossas relações têm, no fundo, um certo grau de conveniência.
Dares-te bem com os colegas facilita-te os dias no trabalho. Aquele amigo de longa data ajuda-te a manteres-te ligado a uma versão antiga de ti. No fundo, se puxares o fio à meada, muitas das amizades que tens acabam por ter alguma utilidade para ti, e isso nem é mau, é normal.
O problema é quando só tens amizades dessas. E é aqui que entra a frase polémica de Brooks: “para sermos felizes, temos de ter amigos inúteis.”
Calma, não é o que parece. Um amigo inútil, nesta lógica, é aquele de quem não tiras nenhum benefício externo. Não é por interesse, não é por conveniência, não é porque te dá jeito. É uma amizade que existe simplesmente por existir.
E atenção: o benefício não tem de ser material. Pensa, por exemplo, naquele amigo com quem só jogas à bola, com quem partilhas um passatempo, ou com quem desabafas sobre uma terceira pessoa. A amizade pode ser verdadeira, mas apoia-se numa circunstância. Quando essa circunstância desaparece, mudas de hobby, deixas de ter aquele problema em comum, a relação tende a esfriar.
O amigo inútil é outra coisa. É aquele que continua lá, faça chuva ou faça sol.
Por mais original que pareça, a teoria não é nova. Brooks vai buscá-la a Aristóteles, que há mais de dois mil anos já distinguia três tipos de amizade:
Aqui está um número que dá que pensar. Segundo Brooks, 54% dos americanos disseram que, na realidade, ninguém os conhecia verdadeiramente. Ou seja: mais de metade sentia que não tinha ninguém que reparasse se não estivessem bem.
Faz o teste a ti próprio: tirando o teu par, com quantas pessoas te sentes à vontade para partilhar coisas pessoais da tua vida? Se não consegues nomear pelo menos duas ou três, é um sinal de alerta.
Brooks deixa algumas pistas práticas para quem quer recuperar este tipo de amizades:
Revê as tuas amizades. Pode ser doloroso, mas é o primeiro passo. Pergunta-te quantos dos teus amigos são mesmo “inúteis” e quantos estão lá por alguma forma de utilidade.
Fala de coisas que importam. Brooks e a mulher passaram a orientar as conversas com amigos para temas mais profundos felicidade, amor, o sentido da vida em vez de ficarem pelas trivialidades dos planos de férias. O resultado? Algumas amizades aprofundaram-se, outras perceberam que já tinham dado o que tinham para dar.
Faz amigos fora do trabalho. A chave, diz ele, é fazer amizade com alguém que, sinceramente, não pode fazer nada por ti a não ser preocupar-se contigo e fazer-te boa companhia.
No fim, tudo se resume a uma ideia: olhar para as relações não como um meio para chegar a outra coisa, mas como um presente que vale a pena cultivar por si mesmo.
Soa bonito, mas exige prática. E talvez valha a pena. Porque, no fundo, os amigos que mais nos fazem felizes são precisamente aqueles de quem nada precisamos.
E tu, quantos amigos verdadeiramente “inúteis” tens na tua vida?
Fonte: Zero Zero






