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ENERGIA RENOVÁVEL ENTRE PROMESSAS DE SUSTENTABILIDADE E GANHOS QUESTIONÁVEIS

Resumo

O setor de energia renovável em Moçambique tem-se destacado nos últimos anos, com investimentos significativos, como a construção de uma central solar de 110 milhões de dólares em Gaza. O país pretende instalar cinco centrais solares até 2030, totalizando 1.000 MW na rede, numa estratégia de transição energética. Atualmente, mais de 70% da eletricidade consumida em Moçambique provém de hidroelétricas, mas o governo planeia expandir a energia solar e eólica, com investimentos previstos de 80 mil milhões de dólares até 2050. A energia solar pode ajudar a reduzir o défice energético, fortalecer a rede e levar eletricidade a zonas rurais, contribuindo para a diminuição da dependência de combustíveis fósseis e dos custos de geração de energia a longo prazo.

Por: Lurdes Almeida

Em Moçambique, nos últimos anos, o sector de energia renovável destaca-se na diversificação energética e atração de investimentos. Entre os projectos de grande escala está o investimento de cerca de 110 milhões de dólares (aproximadamente 7 mil milhões de meticais) para construir uma central solar na província de Gaza, realizado pela empresa Sal Energia, em parceria com a Electricidade de Moçambique (EDM), com vista a reforçar a rede nacional e expandir o acesso à energia elétrica em zonas rurais e urbanas, contando com 95 MW de capacidade instalada. Além disso, a aquisição da participação na Central Solar de Mocuba pela Globeleq evidencia que o mercado moçambicano atrai investidores internacionais.

Inequivocamente, até 2030, Moçambique pretende instalar cinco centrais solares, somando 1.000 MW de capacidade na rede, prometendo uma “verdadeira revolução solar”. Nesta vertente, segundo a Estratégia de Transição Energética (ETS, 2018-2028): “acelerar este tipo de projectos para uma escala maior é a forma mais simples de resolver o dilema estratégico de Moçambique após 2030: ter de escolher entre energia verde para exportação ou fornecer energia aos consumidores industriais”.

Em 2022, Moçambique contava com projectos de centrais solares totalizando 125 MW, dos quais 80 MW já estavam ligados à rede. Actualmente, mais de 70% da eletricidade consumida vem de aproveitamentos hidroelétricos, tendência que o Governo pretende manter nas próximas décadas, mesmo com a implementação da ETS.

Com investimentos previstos de US$ 80 mil milhões até 2050, a estratégia estabelece que, até 2030, Moçambique implemente pelo menos 1.000 MW de energia solar fotovoltaica em Dondo, Lichinga, Manje, Cuamba, Zitundo e outros locais “a identificar”, e 200 a 500 MW de energia eólica “onshore”, destacando Inhambane e Lagoa Pathi. Até 2050, a meta é alcançar pelo menos 7,5 GW de capacidade solar fotovoltaica e até 2,5 GW de energia eólica em Moçambique.

No período 2024 a 2030, o Governo moçambicano, no seu plano ambicioso, prevê adicionar 3,5 GigaWatts (GW) de nova capacidade hidroeléctrica através da modernização das centrais existentes e conclusão do projecto hidroeléctrico Mphanda Nkuwa, como também, impulsionar a energia solar e eólica através de um programa de leilões de energia renovável, bem como avançar com a construção de “parques industriais verdes e corredores habilitados por energia limpa, confiável e acessível”.

Não há dúvida que a energia solar pode aliviar o défice energético, reforçar a rede e levar eletricidade a zonas rurais que ainda dependem de fontes caras e poluentes. Operações como a ligação de mais de 220 mil famílias a sistemas solares fora da rede, com apoio da Engie Energy Access, expõem efeitos sociais perceptíveis, embora modesto frente à população total. Além dos benefícios sociais, a energia solar no país pode reduzir a dependência de combustíveis fósseis, diminuir os custos de geração de energia a longo prazo, atrair capital estrangeiro e gerar empregos, ao mesmo tempo em que promove a capacitação técnica local. No entanto, muitos desses empregos são altamente técnicos e especializados, exigindo formação que não está amplamente disponível localmente.

Outro factor crucial é que a energia solar não actua isoladamente da situação macroeconómica do país. Embora o sector atraia investimentos específicos, persistem desafios estruturais, como desigualdade de acesso à energia, limitações logísticas e questões regulatórias que ainda dificultam a expansão de infraestruturas energéticas de forma integrada com a economia. Ademais, os custos de integração e armazenamento, bem como a dependência de grandes investimentos iniciais, podem retardar sua implementação. Quando tecnologia, financiamento e gestão permanecem externos, parte substancial dos ganhos económicos pode sair do país, reduzindo o impacto sobre a economia nacional. Um exemplo claro é o projecto do plantel solar de Gaza, que promete grande capacidade instalada. Contudo, a produção energética depende da integração eficaz na rede e soluções de armazenamento ainda pouco implementadas. De forma complementar, sem o desenvolvimento de competências técnicas locais, a dependência de técnicos estrangeiros pode reduzir os benefícios em termos de criação de empregos e transferência de know-how.

Apesar desses desafios, o sector solar em Moçambique tem, sem dúvida, uma trajectória promissora. A combinação de investimentos públicos e privados, a participação de empresas internacionais e o aumento da procura por energia limpa criam um ambiente favorável para transformar a matriz energética do país. Porém, para que os ganhos económicos sejam sustentáveis, é essencial alinhar interesses, superar desafios técnicos e capacitar a força produtiva local. Caso contrário, corremos o risco de ter um sector solar brilhante aos olhos dos investidores internacionais, mas com impactos limitados na vida económica da maioria dos moçambicanos, uma situação em que muitos veem luz, mas poucos realmente sentem calor.

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