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ESCASSEZ DE COMBUSTÍVEIS LEVA TRANSPORTADORES A ADERIREM AO GÁS NATURAL EM MOÇAMBIQUE

Resumo

A crise de combustíveis em Moçambique está a impulsionar a adesão ao Gás Natural Veicular (GNV) no setor dos transportes, devido a problemas de abastecimento e aumento de custos. A escassez de combustíveis líquidos afetou o transporte rodoviário, levando operadores públicos e privados a converterem veículos para GNV em Maputo e Matola. Esta mudança já poupou ao Estado cerca de 100 milhões de dólares em importações de combustíveis e aos utilizadores aproximadamente quatro mil milhões de meticais. Com cerca de quatro mil veículos a GNV na região do Grande Maputo, a preferência pelo gás natural deve-se aos preços mais baixos em comparação com gasolina e gasóleo, que são afetados pela volatilidade internacional. Apesar das vastas reservas de gás natural em Moçambique, o país continua dependente da importação de combustíveis refinados, tornando-o vulnerável a flutuações e dificuldades logísticas. O ministro da Economia defende a diversificação energética e o aproveitamento do gás natural nacional para reduzir a exposição do país às oscilações do mercado internacional de combustíveis fósseis.

Por: Alfredo Júnior

A crise recorrente de combustíveis em Moçambique está a acelerar uma mudança gradual no sector dos transportes: cada vez mais operadores públicos e privados estão a aderir ao Gás Natural Veicular (GNV) como alternativa à gasolina e ao gasóleo. A tendência surge num contexto de dificuldades de abastecimento, aumento dos custos operacionais e pressão sobre a mobilidade urbana.

Nos últimos meses, várias cidades moçambicanas registaram longas filas nos postos de abastecimento, rupturas temporárias e dificuldades logísticas na distribuição de combustíveis líquidos. O Governo reconheceu a existência de constrangimentos relacionados com logística, dependência externa e exigências bancárias para libertação de combustível nos terminais de armazenamento.

A situação afectou directamente o sector dos transportes rodoviários. A Federação Moçambicana das Associações dos Transportadores Rodoviários (FEMATRO) alertou recentemente que a escassez já compromete operações de transporte público e poderá pressionar as tarifas, devido aos custos acrescidos e às dificuldades de abastecimento.

Perante este cenário, o gás natural veicular começa a consolidar-se como solução económica e operacional. Em Maputo e Matola, centenas de operadores de táxis, “chapas” e viaturas empresariais têm convertido motores para funcionamento a gás natural, reduzindo a dependência dos combustíveis importados.

Segundo dados divulgados pela empresa Autogás e reportados pela Agência de Informação de Moçambique, o uso de GNV já permitiu ao Estado poupar cerca de 100 milhões de dólares em importações de combustíveis líquidos. Os utilizadores de viaturas movidas a gás também terão poupado aproximadamente quatro mil milhões de meticais em custos de combustível.

Actualmente, estima-se que existam cerca de quatro mil veículos movidos a gás natural apenas na região do Grande Maputo, incluindo transportes semicolectivos de passageiros.

O diferencial de preços ajuda a explicar o interesse crescente. Enquanto a gasolina e o gasóleo continuam sujeitos à volatilidade internacional, o GNV mantém preços significativamente inferiores. Em Junho de 2025, o preço do litro equivalente de GNV situava-se em cerca de 41 meticais, abaixo dos mais de 79 meticais do gasóleo e dos mais de 83 meticais da gasolina.

Embora Moçambique possua enormes reservas de gás natural, sobretudo na bacia do Rovuma, o país continua altamente dependente da importação de combustíveis refinados. Essa dependência torna a economia vulnerável às flutuações internacionais, dificuldades cambiais e problemas logísticos internos.

O ministro da Economia, Basílio Muhate, defendeu recentemente a necessidade de diversificar as fontes energéticas e acelerar o aproveitamento do gás natural nacional como forma de reduzir a exposição do país à volatilidade do mercado internacional de combustíveis fósseis.

Paradoxalmente, Moçambique é um dos maiores projectos emergentes de gás natural liquefeito (LNG) em África, liderado por multinacionais com TotalEnergies. Contudo, os megaprojectos continuam fortemente orientados para exportação, enquanto o mercado doméstico ainda enfrenta limitações de infra-estrutura e distribuição.

Especialistas defendem que a expansão do GNV no transporte urbano pode representar uma ponte entre a actual dependência de combustíveis importados e uma futura transição energética mais sustentável. Além de reduzir custos operacionais, o gás natural produz menos emissões poluentes em comparação com gasolina e gasóleo.

Apesar do crescimento da procura, o GNV ainda enfrenta desafios importantes em Moçambique. O principal é a limitada rede de abastecimento, concentrada essencialmente na região sul do país. A conversão de viaturas também exige investimento inicial relativamente elevado para muitos operadores informais de transporte.

Outro desafio é a necessidade de maior estabilidade regulatória e incentivos públicos para acelerar a adopção da tecnologia. Transportadores defendem linhas de financiamento, redução de impostos sobre kits de conversão e expansão da rede de postos de abastecimento.

Analistas económicos alertam ainda que a actual crise de combustíveis não pode ser vista apenas como um problema conjuntural. A fragilidade logística, a dependência externa e a vulnerabilidade cambial revelam problemas estruturais do sector energético moçambicano.

A adesão crescente ao gás natural veicular poderá transformar gradualmente o panorama do transporte urbano em Moçambique. Se houver investimento em infra-estruturas e políticas de incentivo, o país poderá aproveitar melhor os seus recursos naturais internos para reduzir custos de mobilidade e aumentar a segurança energética.

Para muitos transportadores, a mudança já deixou de ser apenas uma questão ambiental ou tecnológica. Tornou-se sobretudo uma questão de sobrevivência operacional num contexto de incerteza no abastecimento de combustíveis tradicionais.

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