InícioInternacionalA América que lhes deu tudo (ou os portugueses e Donald Trump)

A América que lhes deu tudo (ou os portugueses e Donald Trump)

Resumo

Emigrantes portugueses nos EUA mostram integração na cultura americana, mas mantêm amor por Portugal. Preferem ficar nos EUA, onde construíram família e vida. Apesar de críticas a Trump, alguns consideram-no necessário. Discutem política, defendem quem trabalha e valorizam conquistas após emigração. Sentem que não têm argumentos para quem lutou tanto na vida.

Atravessaram o Atlântico quando a vida ainda lhes fugia pela algibeira rota dos calções. Tinham cinco, seis anos. Hoje, o sotaque deles é uma valsa curiosa, e fica-lhes bem. Cresceram aqui, trabalharam aqui, integraram-se de forma absoluta na cultura deste lado do Atlântico.

Trazem nos movimentos vagarosos a serenidade de quem já pagou a fatura da vida. Quando lhes pergunto se pensam voltar de vez a Portugal, a resposta é quase sempre a mesma: um sorriso nostálgico, seguido de um abanar negativo de cabeça.

Amam Portugal, adoram os almoços de cozido, bolinhos de bacalhau, pataniscas ou carne à alentejana e emocionam-se com o hino. Mas a terra deles é esta.

Têm a vida toda deste lado e têm sobretudo a família: os filhos e os netos. A pátria é um lugar sagrado, mas a casa - a verdadeira casa -, é onde os netos correm pelo quintal.

O regresso é uma miragem bonita para as férias, não é um plano de vida.

Trazem as mãos calejadas, mas as reformas são boas. Afinal de contas, a América deu-lhes tudo e eles deram tudo à América. E é nessa altura que introduzo o tema que muitos preferem não abordar.

Gosta desta América de Trump?, pergunto.

O tom de voz desce, o rosto fica mais sério. Falar de política é pisar ovos, mas a confissão acaba sempre por sair: os poucos com quem falei sobre isso mais abertamente - afinal de contas, estamos entre amigos -, inclinam-se para Trump.

Não é um apoio cego, longe disso. Fazem questão de sublinhar que não concordam com muitas das suas atitudes, torcem o nariz à forma como fala e criticam as vezes que se contradiz. Mas apesar disso tudo, dizem que era o homem que a América precisava nesta altura.

Não escondo o meu ar de surpresa: eles próprios também foram emigrantes. «Mas nunca fui ilegal», respondem.

Tento fazer de advogado do diabo e falo das guerras. «Quais guerras?», pergunta-me. No Irão, por exemplo. «Mas você falou de guerras, no plural. Que mais guerras ele fez?». Falo da operação na Venezuela, da ameaça sobre Cuba. «E já foram demasiado tarde. Deviam ter acontecido há mais tempo.»

Desisto.

Nisto de política sou apenas um observador, não julgo ninguém. Oiço, aponto e observo. Não há certo nem errado nestas mesas cheias de comida e saudade.

Mas eles têm mais alguma coisa a dizer. Falam do aproveitamento do sistema e dizem que quem trabalha não tem nada a temer. A conversa fica por ali. Sinto que não tenho argumentos para quem atravessou um oceano sem nada, para conseguir alguma coisa da vida.

 

Fonte: TVI


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