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Uma tarde a ver a Seleção com a emigrante que se mudou por amor ao Mickey Mouse

Resumo

Na Florida, uma casa portuguesa em West Palm Beach prepara um banquete de domingo numa quarta-feira normal, em antecipação ao jogo Portugal-Nigéria. Eduarda Vassal, de 71 anos, conta a sua história de amor pela Florida, onde se mudou para ficar perto do parque da Disney e do seu "namorado" Mickey Mouse. Apesar de viver nos EUA há 48 anos, Eduarda mantém viva a sua paixão pela infância e pelas memórias de filmes da Disney. A sua decisão de se mudar para a Florida é vista com estranheza pelos outros, mas para Eduarda, é a realização de um sonho de infância.

O relógio aponta para pouco depois das duas da tarde na Florida, mas na cozinha da casa portuguesa em West Palm Beach o fuso horário mede-se pelo cheiro a refogado. Há uma azáfama de quem prepara um banquete de domingo, embora o calendário teime em dizer que é uma banal quarta-feira de trabalho para o resto da América.

Nas travessas, já se vão acumulando costeletas, bolinhos de bacalhau, rissóis, pataniscas e batatas fritas. Não chegará já?, pergunta-se. Que não, que não. A mesa quer-se farta, como manda a saudade. O pretexto para este ajuntamento é tão bom como qualquer outro, quando o que está em causa é a celebração das nossas raízes: ver o Portugal-Nigéria.

A hora do apito inicial - pouco antes das quatro da tarde em Miami - não é carne nem peixe, não serve para almoçar nem para jantar, mas na diáspora não há desculpas. Sobretudo quando a idade já permite meter a reforma e o tempo perde a pressa de outros tempos.

«Voltar definitivamente para Portugal era o meu sonho, mas não é possível. Sabe porquê? Porque tenho aqui os meus netos, tenho aqui as minhas filhas e tenho aqui a minha vida», conta Eduarda Vassal, uma senhora de óculos, língua solta e a dinâmica de uma jovem.

«Mas, meu querido Portugal, no dia 29 deste mês, estarei no avião da TAP, às cinco e meia da manhã, para aterrar no lindo aeroporto que agora é Humberto Delgado, mas que para mim será sempre da Portela. Vou passar férias, até outubro, se Deus quiser.»

A azáfama da cozinha, das frigideiras a chiar, das travessas a passar e das rolhas a saltar, só é interrompida pelo hino.

Depois disso, e entre os golos de Pedro Neto e de Chico Conceição, Eduarda tem tempo para desfiar uma história que parece saída de um guião de cinema.

É que após 48 anos a viver em Massachusetts, foi a Florida que lhe roubou o coração. E por um motivo invulgar: Eduarda não veio à procura de praias ou de impostos mais baixos.

Veio atrás de um rato.

«Eu vou contar-lhe», anuncia, como que se prepara para desvendar um segredo.

«O meu sonho era vir para perto do meu Mickey, que é outra grande paixão que tenho na vida. Sou muito apaixonada pelo Mickey Mouse. É o meu namorado, o meu amor. Por isso vim para a Florida e comprei uma casa em Melbourne, porque de Melbourne ao parque da Disney, em Orlando, era só uma hora de caminho.»

A nossa primeira reação é igual à que qualquer outro adulto teria: o que raio estou a fazer aqui?!

Mas os minutos mostram que o problema não está na Eduarda: está em nós. Afinal de contas ela é apenas uma avó que não deixou que os anos destruíssem as boas memórias da infância.

«Eu era menina de 12, 13, 14 anos e na Ericeira havia um cinema, que, entretanto, já destruíram. Hoje chama-se a Casa da Cultura. E havia muitos filmes naquele tempo, do Joselito, da Marisol, da Branca de Neve e todos os outros da Disney. Eu adorava ver aquilo tudo. E ainda hoje adoro. Sabe, eu sou muito criança. Apesar de ter 71 anos de idade, a criancice vive dentro de mim. Então todos os anos, o meu marido trazia-me, no meu aniversário, à Disney, para eu ver os meus amigos. Sobretudo o meu Mickey. Ainda hoje, já avó, com netos já quase para casar, vou à Disney e agarro-me ao Mickey. ‘I love you, Mickey, I love you’.

Foi por ele, pelo Mickey, que Eduarda Vassal e a família se mudaram para a Florida.

«Mudei-me para Melbourne e todos os anos comprava o passe mais caro para poder ir à Disney sem restrições: podia ir aos feriados, no Natal, no Ano Novo, sempre que quisesse. Então, o que é que eu fazia, juntamente com o meu marido e a minha mãe? Íamos todas as semanas ao Parque da Disney. Acabávamos de almoçar, era uma hora de viagem e dizíamos: ‘Vamos até à Disney?’ Não pagávamos nada, já tínhamos comprado o passe e então íamos.»

Foi depois de chegar a Melbourne que Eduarda e o marido descobriram a comunidade portuguesa. Primeiro através de um pequeno clube em Port St. Lucie, do qual passaram para a clube de West Palm Beach, onde as festas são maiores.

É ali, numa enorme moradia com restaurante, salão de bailes e um gigante jardim, que os portugueses matam saudades de casa. Mesmo aqueles que saíram do país com cinco ou oito anos, gostam de manter a ligação às raízes. Podem até não ter memória do tempo em que viveram em Portugal, mas não deixam morrer essa ligação ao país.

«Não, sabe porquê? Porque nós viemos com os nossos pais de um Portugal que estava sob uma ditadura. Quando viemos ainda não tinha sido o 25 de Abril, mas viemos de uma ditadura de amor e de carinho. E nós éramos tão felizes, tão felizes, que os jovens hoje deviam saber o que é que nós passamos para eles hoje serem ainda mais felizes do que nós fomos.»

Ao lado de Eduarda, Fátima Terceira sorri. A sua rota até à Florida foi diferente, embora ambas partilhem a mesma paixão por Mickey Mouse.

«Fiz a coleção das figurinhas e até tenho uma tatuagem dele numa perna.»

Definitivamente, neste calor húmido da Florida o rato é um arrebata-corações. Mas enfim, vamos em frente. Fátima nasceu em Angola, filha de mãe açoriana e pai angolano com raízes em Coimbra. O 25 de abril atirou-a para Portugal aos 13 anos, mas aos 16 já estava a cruzar o oceano rumo a Rhode Island. Não pisa Portugal continental há mais de 50 anos.

«Já fui várias vezes aos Açores, porque sou casada com um açoriano, mas a Portugal continental não vou há mais de 50 anos. Estamos sempre a dizer ‘é para o ano’, ‘é para o ano’, mas os anos passam e nada. Para o ano, se Deus quiser, vou. De certeza que já não é nada do que conheci, talvez algumas aldeias ainda mantenham os traços de antigamente, mas seja como for Portugal são as nossas raízes. Está sempre no meu coração e no meu sangue.»

 

A Florida surgiu na sua vida há cerca de 20 anos, durante umas férias.

«Lembrou-me muito a minha terra, Angola. O calor, tudo verde, as palmeiras e muitas flores trouxeram-me as memórias de África. Disse logo ao meu marido que gostava de me reformar aqui. Por isso aqui estamos e estamos à vontade.»

A necessidade de encontrar os seus fê-la cometer loucuras. Antes de se mudar definitivamente para a costa este, Fátima conduzia duas horas e meia para cada lado, todos os domingos, só para ir às festas do clube português.

«Não me importava. Aqui encontrei uma família.»

O jogo caminha para o fim, Portugal acabará por ganhar, mas a verdadeira vitória está naquela sala. Naquela paixão tão genuína pelo que nos une. Quando pergunta a Fátima se também não pensa regressar definitivamente a Portugal, a resposta é um rotundo não. A vida, os filhos, os netos, o suor de décadas de trabalho, está tudo na América.

«Gostamos de ir visitar Portugal, mas o que é que temos lá? A nossa vida está aqui.»

O árbitro apita para o final da partida. A televisão fica a dar os resumos, as travessas já sem pataniscas vão sendo recolhidas de volta à cozinha. Lá fora, o sol da Florida continua a brilhar sobre as palmeiras e, algures em Orlando, o Mickey Mouse recebe mais visitantes.

Mas aqui dentro, nesta sala em West Palm Beach, a tarde foi passada em Portugal.

 

 

Fonte: TVI


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