Resumo
O guarda-redes Orlando Gill tornou-se a estrela anónima do Mundial ao eliminar a Alemanha nos 16 avos de final, defendendo dois penáltis e influenciando um terceiro falhanço. Com apenas uma defesa anteriormente na Copa Sudamericana, Gill surpreendeu ao representar o Paraguai e o San Lorenzo da Argentina. Apesar das críticas iniciais, incluindo do lendário José Luis Chilavert, Gill destacou-se pela sua atuação atenta e decisiva, mantendo a baliza inviolada durante os 120 minutos, incluindo uma defesa crucial no prolongamento. A sua ascensão na seleção foi marcada por polémicas, mas a sua prestação no Mundial revelou-se determinante para a surpreendente vitória paraguaia sobre a Alemanha.
E nem é porque o guarda-redes do Bayern de Munique fez uma má exibição, é antes porque do outro lado emergiu uma estrela anónima. Não sabemos se Orlando Gill vai chegar aos valores de Instagram de Vozinha - nesta altura tem “apenas” 209 mil seguidores -, mas entra diretamente para a montra de histórias do Mundial.
O guarda-redes que passou a vida toda a jogar na América do Sul e só conheceu dois clubes em dois países - ainda que com o mesmo nome - é a figura da primeira grande surpresa deste Mundial, que também virou o primeiro escândalo.
A toda-poderosa Alemanha foi eliminada pelo Paraguai nos 16 avos de final, depois de um jogo pouco capaz que se arrastou até aos penáltis.
E foi aí que emergiu o guarda-redes que fez a formação no San Lorenzo do Paraguai e hoje representa o mais mítico San Lorenzo da Argentina. Um gigante de 1,99 metros a quem até já chamaram de “Courtois paraguaio” pela sua fisionomia.
Até aqui Orlando Gill tinha estado por seis vezes em cima da linha à espera de um remate a 11 metros. Até aqui tinha defendido apenas uma bola, a 27 de maio deste ano, na derrota contra o Recoleta na Copa Sudamericana.
Para trás disso tinha tentado cinco vezes, todas sem sucesso. Na madrugada desta terça-feira tentou seis vezes, defendeu duas com mestria e ainda entrou na cabeça de Jonathan Tah para o ajudar a falhar um terceiro penálti.
E não foram penáltis quaisquer. Pela frente estavam Kai Havertz e Nick Woltemade, este último responsável por um dos penáltis mais bem marcados do ano, ao serviço do Newcastle.
E não foram só os penáltis, sequer. Durante os 120 minutos não fez nenhuma defesa de grau de dificuldade máximo, mas esteve sempre atento, incluindo nos últimos segundos do prolongamento, a conseguir parar um cabeceamento à queima-roupa num canto.
Mas a história de Orlando Gill começa bem antes disso. Até há um ano não era sequer convocado para a seleção, e quando o foi a sua chamada tornou-se polémica, sobretudo com a chegada da titularidade.
As críticas vieram em primeiro lugar do mítico José Luis Chilavert, o guarda-redes mais famoso do Paraguai, em grande parte pelo que fazia a atacar, já que marcava livres quando estava em campo. Ídolo, portanto, para todos os paraguaios que jogam na baliza.
“A incerteza do treinador na hora de escolher o guarda-redes titular já demonstra a sua instabilidade emocional. O problema de [Orlando] Gill é que não fala, joga mudo e o futebol é comunicação”, afirmou o antigo guarda-redes à rádio Ñanduti à margem da goleada sofrida pelo Paraguai contra os Estados Unidos logo na primeira jornada.
Depois disso toda a seleção se recompôs e acabou a fase de grupos sem sofrer mais golos, até que chegou a Alemanha.
“Analisei cada jogador, cada forma de bater, cada detalhe, e isso foi fundamental para a qualificação”, afirmou Orlando Gill minutos depois de se tornar herói, confirmando a aposta bem feita do selecionador ao sentar o experiente Gatito Fernández para dar oportunidade a outro guarda-redes.
Apesar de ter apenas 26 anos, que curiosamente foram feitos no dia em que começou o Mundial, Orlando Gill já tem uma história pessoal para contar.
Quando o filho Lautaro nasceu teve graves problemas de saúde. O guarda-redes estava ainda no Paraguai, a dar os primeiros passos como sénior, e o dinheiro que ganhava não chegava para cobrir todas as despesas família.
O jornal O Globo refere que a mulher, Melissa Ávalos, admitiu que Orlando Gill teve mesmo de vender roupas, chuteiras e até a camisola que guardava como recordação da passagem pela seleção paraguaia de sub-20. “Vendeu tudo”, desabafou a mulher.
Passados esses problemas, o guarda-redes conseguiu dar novo rumo à vida em 2023. Foi então que chegou à Argentina, ainda sem fama, mas destinado a algo mais. Esse algo mais chegou agora.
A parede de 1,99 metros virou automaticamente figura deste Mundial com este feito, e logo contra um nome como Manuel Neuer, que já tem 17 grandes penalidades defendidas no currículo.
Fonte: CNN Portugal



