Por: Virgílio Timana
O Teatro do Oprimido assinalou, na quinta-feira, 16 de Julho, os 25 anos da sua introdução em Moçambique com a realização do Colóquio Internacional "Teatro como Arte Marcial" e o lançamento do livro Teatro do Oprimido, em Democracia, Governação, Transparência e Tributação. Promovidas pelo Centro do Teatro do Oprimido de Maputo (CTO-Maputo), as iniciativas decorreram no Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (INICC, IP), em Maputo, reunindo artistas, investigadores e agentes culturais para uma reflexão sobre o papel das artes na construção de uma sociedade mais justa, participativa e inclusiva.

Na abertura do colóquio, o coordenador-geral e fundador do CTO-Maputo, Alvim Cossa, explicou que o principal objectivo da iniciativa foi submeter o percurso da instituição a uma análise externa, através da contribuição de parceiros, académicos e comunidades que acompanharam o desenvolvimento do Teatro do Oprimido em Moçambique.

Segundo o coordenador-geral, depois de um exercício interno de avaliação, tornou-se necessário ouvir diferentes perspectivas sobre o impacto do trabalho realizado ao longo dos últimos 25 anos, procurando compreender até que ponto a metodologia continua a responder às necessidades das comunidades e a contribuir para os processos de mudança social.
Ao justificar o tema do colóquio, Cossa explicou que a expressão "arte marcial" não remete para a violência, mas para uma prática baseada no respeito mútuo, no diálogo e na partilha de experiências. Nessa perspectiva, defendeu que o teatro representa um espaço de encontro entre diferentes realidades, onde o confronto de ideias se transforma em aprendizagem colectiva. "O teatro é um lugar de partilha de vida e de experiências. Pretendemos olhar para as artes e para a cultura como elementos fundamentais na construção do Moçambique que todos desejamos", afirmou.
Durante o encontro foram igualmente debatidos temas relacionados com o papel das artes na promoção da justiça social, a importância do corpo enquanto espaço de diálogo e o teatro como ferramenta de aprendizagem e participação comunitária.
As comemorações dos 25 anos do Teatro do Oprimido tiveram início em Janeiro, com actividades realizadas em diferentes pontos do país, incluindo Mecula, Memba e Metuge. De acordo com Alvim Cossa, oficinas, apresentações e acções comunitárias continuam a decorrer em várias províncias, integrando um programa comemorativo que se prolonga ao longo do ano.
À margem do colóquio, o fundador do CTO-Maputo apresentou o livro "Teatro do Oprimido, em Democracia, Governação, Transparência e Tributação", obra que sistematiza experiências desenvolvidas pela organização em diversas comunidades moçambicanas.
O autor explicou que a publicação reúne peças teatrais, metodologias de intervenção comunitária e reflexões produzidas ao longo de um quarto de século de trabalho, funcionando como um manual destinado a facilitar a utilização do Teatro do Oprimido por artistas, educadores e organizações comunitárias.
Segundo Alvim Cossa, a obra procura demonstrar como o teatro pode aproximar comunidades e decisores públicos, promovendo debates sobre cidadania, direitos, deveres, participação democrática, tributação e transparência, ao mesmo tempo que oferece instrumentos práticos para a criação de processos de reflexão colectiva.
O responsável destacou ainda que o Teatro do Oprimido ultrapassou o universo artístico e passou a ser utilizado em diferentes contextos sociais, incluindo estabelecimentos prisionais, programas de reabilitação psicossocial e comunidades afectadas pelo conflito armado no norte do país. "Nós estamos muito felizes porque o Teatro do Oprimido conquistou o seu espaço. Hoje é utilizado por diferentes sectores da sociedade e tornou-se uma ferramenta de reconstrução comunitária e de fortalecimento da cidadania", afirmou.
Criado pelo dramaturgo brasileiro Augusto Boal na década de 1970, o Teatro do Oprimido foi introduzido em Moçambique em 2001 e formalmente constituído por escritura pública a 16 de Julho de 2003. Desde então, tem sido utilizado como instrumento de participação cidadã, educação comunitária, inclusão social, reconciliação e promoção do diálogo entre instituições e comunidades, consolidando-se como uma das metodologias de intervenção sociocultural mais reconhecidas no país.






