InícioEducaçãoENSINO TÉCNICO IMPULSIONA A FORMAÇÃO DE MÃO-DE-OBRA QUALIFICADA

ENSINO TÉCNICO IMPULSIONA A FORMAÇÃO DE MÃO-DE-OBRA QUALIFICADA

Por: Gentil Abel

Formar técnicos é, hoje, uma das decisões mais estratégicas que Moçambique pode tomar para acelerar o seu desenvolvimento económico e social. Durante muitos anos, consolidou-se a ideia de que o sucesso profissional passava, obrigatoriamente, por uma licenciatura. Contudo, os números mais recentes do mercado de trabalho mostram uma realidade diferente: o país precisa, acima de tudo, de profissionais tecnicamente qualificados para responder às exigências dos sectores que impulsionam a economia.

Os dados do Ministério do Trabalho, Género e Acção Social, referentes ao terceiro trimestre de 2025, deixam pouca margem para dúvidas. Das 5.559 vagas de emprego anunciadas no período, cerca de 74,6% destinavam-se a candidatos com formação técnica média. Em contraste, apenas 0,4% exigiam licenciatura, enquanto 11,6% pediam bacharelato, 9,5% mestrado e somente 0,6% doutoramento. Em termos práticos, três em cada quatro oportunidades de emprego procuravam um técnico médio, enquanto apenas uma em cada 250 estava reservada a um licenciado.

Esta realidade desmonta a ideia de que o ensino técnico representa uma alternativa de menor valor. Pelo contrário, demonstra que este é, actualmente, um dos percursos mais rápidos e eficazes para a inserção no mercado de trabalho. Em apenas dois ou três anos, um jovem pode adquirir competências específicas, altamente procuradas pelas empresas, sem necessitar de longos percursos académicos para alcançar uma oportunidade profissional.

Felizmente, começam a surgir sinais de que o país está a reconhecer esta realidade. Um dos mais importantes foi a integração do Instituto de Formação Profissional e Estudos Laborais Alberto Cassimo (IFPELAC) na tutela do Ministério da Juventude e Desporto. Esta decisão representa o reconhecimento de que a formação profissional e a empregabilidade juvenil fazem parte da mesma agenda e devem caminhar lado a lado, com políticas públicas articuladas e orientadas para resultados concretos.

Os primeiros indicadores mostram que esse alinhamento institucional já produz efeitos positivos. No terceiro trimestre de 2025, o IFPELAC formou 4.634 candidatos, um crescimento homólogo de 45,7%. Trata-se de uma evolução significativa, sobretudo num contexto económico ainda marcado pelos efeitos da instabilidade registada após o processo eleitoral.

Ao mesmo tempo, verifica-se uma expansão da formação profissional em várias províncias. Nampula transformou-se no maior centro formativo do país, ao passar de 235 para 1.100 formandos. Niassa registou um crescimento de 148,2%, Cabo Delgado aumentou 145,1% e Tete expandiu a sua capacidade em 32,4%. Estes números mostram que o sistema está a crescer, a adaptar-se às necessidades do mercado e a chegar a mais jovens em diferentes regiões do país.

As metas definidas para 2026 reforçam esta tendência. Na cidade de Maputo, os centros do IFPELAC pretendem formar mais de duas mil pessoas, com especial atenção ao empoderamento feminino. Na Zambézia, o objectivo anunciado ultrapassa os 800 jovens. Estes compromissos revelam que já existe uma estrutura em funcionamento. O desafio deixa de ser construir um sistema de raiz e passa a ser acelerar a sua expansão, melhorar a qualidade da formação e garantir que responde às necessidades reais da economia.

O próprio contexto macroeconómico reforça esta urgência. Depois de um período particularmente difícil, o Produto Interno Bruto cresceu 4,7% no quarto trimestre de 2025. Em Fevereiro de 2026, a inflação anual situou-se em 3,2%, enquanto o Banco de Moçambique decidiu manter a taxa MIMO em 9,25%, procurando preservar a estabilidade perante os riscos externos. Paralelamente, o Plano Económico e Social e Orçamento do Estado para 2026 prevê um crescimento de 3,2%, sustentado pela recuperação do investimento e pela expansão da agricultura, da indústria e da energia.

Não é por acaso que estes sectores são precisamente aqueles que mais recorrem a técnicos médios. Pela primeira vez em muitos anos, a política económica e a política de formação profissional parecem caminhar na mesma direcção, criando condições para que o crescimento económico seja acompanhado pelo aumento da qualificação da mão-de-obra nacional.

É verdade que existem projecções menos optimistas. O Banco Mundial reviu em baixa as suas previsões, apontando para um crescimento de apenas 0,9% e uma inflação de 7,5% em 2026. No entanto, essa diferença entre projecções nacionais e internacionais não altera o essencial. Pelo contrário, reforça a necessidade de investir em capital humano. Num contexto económico mais moderado, cada trabalhador qualificado representa um contributo ainda mais importante para a produtividade e para a competitividade da economia.

Apesar dos progressos registados, persistem desafios que exigem respostas rápidas. Um deles está relacionado com a dependência de mão-de-obra estrangeira. No mesmo trimestre em que o país formou 4.634 técnicos, foram contratados 5.761 trabalhadores estrangeiros, sobretudo para a indústria extractiva e para grandes projectos de investimento. A diferença entre os dois números não é intransponível. Com um reforço da capacidade formativa e uma melhor orientação dos cursos para áreas como soldadura certificada, manutenção industrial, instrumentação e logística, Moçambique poderá reduzir significativamente esta dependência.

Outro problema prende-se com a exigência de experiência profissional. Todas as vagas publicadas no terceiro trimestre de 2025 pediam experiência prévia, enquanto quase metade dos 198.652 desempregados inscritos nos centros de emprego procurava o primeiro trabalho. Este desencontro entre a formação e as exigências das empresas cria uma barreira que pode ser ultrapassada com soluções relativamente simples, como estágios curriculares obrigatórios, sistemas de aprendizagem dual e maior integração entre os centros de formação e o sector privado.

Neste aspecto, o próprio IFPELAC já deu um passo importante ao reconhecer e certificar competências adquiridas em centros de formação não formal. Esta medida aumenta a credibilidade dos formandos e facilita a sua integração no mercado de trabalho, reduzindo uma desigualdade que durante anos limitou milhares de jovens.

Também do ponto de vista económico, investir na formação técnica revela-se altamente vantajoso. Estima-se que formar cerca de dez mil técnicos especializados ao longo de uma década custaria aproximadamente 180 milhões de dólares. Em contrapartida, a substituição gradual de trabalhadores estrangeiros permitiria reter cerca de 530 milhões de dólares por ano na economia nacional. Na prática, o investimento seria recuperado em menos de cinco meses.

Mas os benefícios vão muito além desse cálculo financeiro. Quando o rendimento fica nas mãos de trabalhadores moçambicanos, esse dinheiro continua a circular dentro do país, gera consumo, aumenta a arrecadação do IVA, reforça a cobrança do IRPS, alimenta as contribuições para o INSS e dinamiza o comércio e os serviços locais. Um salário pago a um trabalhador nacional multiplica os seus efeitos na economia; um salário enviado para o exterior termina o seu ciclo económico fora das fronteiras do país.

O montante necessário para alcançar este objectivo corresponde a menos de 0,74% do Produto Interno Bruto de um único ano, o que demonstra que se trata de uma meta perfeitamente exequível. Com incentivos fiscais para empresas que invistam em formação, apoio dos parceiros de desenvolvimento e compromissos assumidos pelos próprios megaprojectos, o país dispõe de condições para financiar esta transformação.

Entretanto, é igualmente necessário mudar a percepção social sobre o ensino técnico. Enquanto esta modalidade continuar a ser vista como uma alternativa destinada a quem não conseguiu ingressar na universidade, o país continuará a desperdiçar talento. Valorizar a formação técnica significa reconhecer que o desenvolvimento económico depende tanto de engenheiros e gestores como de soldadores, electricistas, instrumentistas, mecânicos industriais e operadores especializados.

Ao mesmo tempo, a definição dos cursos deve resultar de uma auscultação permanente das necessidades das empresas. Os 89 projectos de investimento aprovados no terceiro trimestre de 2025, responsáveis pela previsão de quase 19 mil empregos, constituem uma fonte valiosa para identificar as competências que o mercado efectivamente procura. Formar sem ouvir quem emprega significa correr o risco de preparar profissionais para funções que já não existem.

A distribuição geográfica da formação também merece maior atenção. Cabo Delgado, onde se concentram os maiores projectos de gás natural, continua a necessitar de um reforço significativo da capacidade formativa. Aproximar os centros de formação das zonas onde surgem os investimentos aumenta as oportunidades de emprego local e reduz os custos associados à contratação de mão-de-obra externa.

O tempo disponível para preparar esta mudança é limitado, mas suficiente. Mais de metade da população moçambicana tem menos de 20 anos e o Fundo Monetário Internacional tem insistido que a criação de emprego e a diversificação da economia são condições indispensáveis para transformar este crescimento demográfico numa vantagem económica. O chamado dividendo demográfico não acontece automaticamente; depende das decisões tomadas hoje.

Neste contexto, o calendário dos grandes investimentos cria uma oportunidade que dificilmente voltará a repetir-se. Depois do levantamento do force majeure pela TotalEnergies, em Outubro de 2025, e da aprovação do projecto Coral Norte da ENI, a produção de gás natural liquefeito deverá intensificar-se a partir de 2030. Até lá, Moçambique dispõe de cerca de quatro anos, tempo suficiente para formar duas gerações completas de técnicos médios preparados para ocupar os postos de trabalho que esses projectos irão gerar.

A decisão que o país tomar agora determinará quem ocupará essas vagas no futuro. Se houver investimento consistente na qualificação da juventude, os empregos poderão ser preenchidos por moçambicanos. Caso contrário, continuarão a ser ocupados maioritariamente por trabalhadores vindos do exterior.

Importa recordar que cerca de 36,8% das empresas moçambicanas afirmam enfrentar dificuldades devido à escassez de trabalhadores qualificados. Não se trata de uma percepção, mas de um diagnóstico apresentado pelo próprio sector empresarial. Num país com quase duzentos mil desempregados registados, esta realidade revela um problema de correspondência entre as competências disponíveis e aquelas que a economia realmente necessita.

Poucas vezes um desafio de desenvolvimento surge com um diagnóstico tão claro, custos relativamente modestos, uma estrutura institucional já instalada e benefícios económicos tão evidentes. O país já conhece o caminho, dispõe dos instrumentos essenciais e começa a colher resultados. O que falta é ampliar a escala, manter a continuidade das políticas e assegurar que a formação técnica continue no centro da estratégia nacional de desenvolvimento.

Moçambique dará um passo decisivo rumo ao desenvolvimento quando deixar de ser notícia que um técnico formado no país assegura o funcionamento de uma fábrica, de uma central eléctrica ou de uma plataforma industrial. Nesse dia, a competência nacional terá deixado de ser uma excepção para se tornar a regra. E, olhando para os sinais actuais, esse objectivo está mais próximo do que estava há um ano e poderá estar ainda mais próximo em 2030.

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