O Problema De Amanhã Já Começou
O debate mundial sobre emprego juvenil está a entrar numa nova fase.
Durante décadas, a preocupação central foi essencialmente quantitativa: criar emprego suficiente para absorver os jovens que terminavam a escola e entravam no mercado de trabalho.
Essa questão continua longe de estar resolvida.
Mas o Global Employment Trends for Youth 2026, da Organização Internacional do Trabalho, acrescenta agora uma segunda dimensão: mesmo parte dos empregos existentes poderá ser transformada pela Inteligência Artificial, digitalização e automatização.
Ao mesmo tempo, o crescimento económico mundial tornou-se menos intensivo em oportunidades para novos entrantes.
Segundo a OIT, o crescimento global deverá permanecer próximo de 3,1% em 2026, abaixo dos 3,4% registados em 2023.
A economia continua a crescer.
O problema é que esse crescimento demonstra menor capacidade para criar emprego ao ritmo necessário, particularmente para os jovens.
Inteligência Artificial Não É O Único Risco — Mas Já Não Pode Ser Ignorada
A OIT estima que 6,1% dos empregos actualmente ocupados por jovens entre 15 e 29 anos pertencem às categorias profissionais mais expostas à transformação provocada pela Inteligência Artificial.
A organização não assume que estes empregos desaparecerão.
A IA pode eliminar tarefas, transformar funções existentes, complementar trabalhadores ou criar novas profissões.
Mas o relatório apresenta um exercício ilustrativo: se apenas 10% dos empregos juvenis mais expostos fossem integralmente eliminados, aproximadamente 5,6 milhões de jovens teriam de transitar para outra ocupação, enfrentar desemprego ou abandonar o mercado de trabalho.
O impacto estaria inicialmente mais concentrado nas economias desenvolvidas, onde profissões administrativas, clericais e intensivas em informação representam maior proporção do emprego.
Ainda assim, a implicação para as economias em desenvolvimento é igualmente significativa.
À medida que procuram industrializar-se e expandir serviços modernos, podem estar a construir novos mercados de trabalho precisamente durante uma fase em que algumas das tradicionais ocupações de entrada começam a ser automatizadas.
O Primeiro Emprego Está A Tornar-Se Mais Difícil
A ameaça tecnológica surge num mercado que já mostra dificuldades para absorver novos trabalhadores.
A OIT identifica 18 países onde o desemprego dos jovens entre 20 e 24 anos — faixa etária associada à primeira entrada no mercado laboral — se encontra próximo dos níveis mais elevados da última década, excluindo a pandemia.
A proporção de desempregados entre 20 e 29 anos que procuram o primeiro emprego aumentou globalmente de 43,4% para 45,1% na última década.
Na África Subsaariana, a proporção chegou a aproximadamente 60,2%.
Isto significa que uma parte significativa do desemprego juvenil não é produzida pela perda de empregos anteriormente existentes.
Resulta da dificuldade de conseguir entrar pela primeira vez no mercado.
Esta distinção é importante para as políticas públicas.
Reciclar competências de um trabalhador desempregado é diferente de criar uma primeira oportunidade para alguém que nunca adquiriu experiência profissional.
Desaparecimento Do “Meio” Pode Alterar As Trajectórias Profissionais
Um dos sinais mais relevantes encontrados pela OIT é a redução dos empregos de qualificação intermédia.
Incluem-se aqui funções administrativas e de escritório, vendas, profissões industriais, operadores de equipamentos, determinadas actividades técnicas e ofícios especializados.
Estas ocupações desempenharam historicamente uma função económica fundamental.
Permitiram que jovens com educação secundária ou técnico-profissional entrassem numa empresa, adquirissem experiência e progredissem posteriormente para funções de maior responsabilidade e rendimento.
Quando estas oportunidades diminuem, surge um mercado mais polarizado.
De um lado, empregos altamente qualificados exigindo educação avançada.
Do outro, actividades de menor qualificação, frequentemente caracterizadas por baixa produtividade e rendimento reduzido.
Entre ambos, uma escada profissional com menos degraus.
Há Uma Oportunidade Nos Empregos Intensivos Em Conhecimento
O relatório não apresenta apenas riscos.
Uma das tendências mais encorajadoras encontra-se nos sectores técnicos baseados em conhecimento.
Entre 2023 e 2025, o emprego juvenil em actividades associadas a ciência, engenharia, saúde e tecnologias de informação e comunicação aumentou nos diferentes grupos de rendimento.
O crescimento foi particularmente forte nos países de rendimento baixo e médio-baixo, onde atingiu cerca de 11,7%.
Este dado sugere que economias em desenvolvimento não estão condenadas a permanecer apenas como fornecedoras de emprego pouco qualificado.
Há espaço para criar novas actividades de maior produtividade.
Mas essa oportunidade exige uma correspondência muito mais estreita entre educação, formação, investimento produtivo e procura empresarial.
Não basta produzir licenciados.
É necessário desenvolver sectores capazes de os empregar.
África Tem Um Problema Diferente Do Das Economias Desenvolvidas
Na Europa ou América do Norte, o debate sobre Inteligência Artificial concentra-se frequentemente no risco de substituição de empregos formais existentes.
Na África Subsaariana, a questão começa num ponto diferente.
A maioria dos jovens ainda procura simplesmente acesso a trabalho formal, produtivo e protegido.
O desemprego juvenil regional, de 8,4%, é inferior à média mundial, mas isso não significa que a absorção dos jovens seja satisfatória.
A OIT explica que muitos não podem permanecer desempregados enquanto procuram a oportunidade adequada.
Aceitam trabalho informal porque precisam de rendimento.
Por isso, o verdadeiro desafio africano não consiste apenas em evitar que a IA destrua empregos.
Consiste em criar uma base de emprego formal que ainda é insuficiente ao mesmo tempo que a tecnologia transforma as características dos empregos que estão a ser criados.
Demografia Pode Ser Activo Ou Passivo Económico
Esta equação torna-se ainda mais importante devido à trajectória populacional africana.
Quase 60% do aumento da população jovem mundial registado entre 2023 e 2025 ocorreu na África Subsaariana.
A região deverá igualmente gerar 6,4 milhões dos cerca de 10,1 milhões de novos empregos juvenis previstos mundialmente entre 2025 e 2027.
Há, portanto, criação de emprego.
Mas também há uma população que cresce rapidamente.
A diferença entre estes dois ritmos determinará se a juventude africana se converte num dividendo demográfico ou numa fonte crescente de subemprego, informalidade e exclusão económica.
O dividendo demográfico não resulta automaticamente da existência de muitos jovens.
Surge quando essa população é saudável, educada, qualificada, empregada e suficientemente produtiva para aumentar o rendimento agregado e a capacidade de poupança e investimento da economia.
Para Moçambique, A Questão É A Escala Da Criação De Emprego
A mensagem assume relevância particular para economias como a moçambicana.
Num contexto africano de rápida expansão da força de trabalho, pequenos projectos ou programas isolados de emprego têm utilidade, mas dificilmente conseguem responder à escala do desafio.
É necessário que o próprio modelo de crescimento económico produza emprego.
Isso significa avaliar sectores não apenas pelo contributo para o PIB, exportações ou receitas fiscais, mas também pela capacidade de desenvolver cadeias de valor, empresas, fornecedores, competências e postos de trabalho.
Agricultura comercial, agro-indústria, construção, turismo, logística, manufactura, energia, economia digital e serviços podem ter funções diferentes dentro desta estratégia.
A questão económica passa a ser identificar combinações sectoriais capazes de produzir simultaneamente produtividade e emprego em escala.
Formação Tem De Seguir A Economia Que Está A Surgir
A educação continua fundamental, mas o relatório mostra que educação sem transformação produtiva pode produzir outro problema: desemprego qualificado.
Na África Subsaariana, a taxa média de desemprego entre jovens com ensino superior é superior à observada entre aqueles com níveis de escolaridade mais baixos.
Isto ocorre porque o número de pessoas qualificadas pode crescer mais depressa do que a procura empresarial por essas qualificações.
A resposta não consiste em reduzir o acesso à universidade.
Consiste em aproximar política educativa e política económica.
Formação técnico-profissional, universidades, programas de aprendizagem e sistemas de certificação devem acompanhar as oportunidades que efectivamente estão a surgir nos sectores produtivos.
A própria OIT recomenda que os jovens adquiram combinações de competências — técnicas, digitais, cognitivas e sociais — que lhes permitam adaptar-se a funções em permanente transformação.
Empregabilidade Não Pode Substituir Criação De Emprego
Existe, contudo, uma distinção essencial.
Melhorar as competências de um jovem aumenta as suas possibilidades de competir por uma vaga.
Mas, se uma economia cria 100 mil candidatos qualificados para 20 mil empregos, formação adicional não resolve integralmente o problema.
Pode apenas alterar quem consegue os 20 mil lugares.
A OIT coloca, por isso, a criação de oportunidades como um dos pilares fundamentais da política de emprego juvenil.
Políticas macroeconómicas e fiscais, política industrial, desenvolvimento empresarial e expansão de sectores emergentes devem produzir procura efectiva por trabalho.
Só depois formação e políticas activas do mercado laboral podem melhorar a correspondência entre pessoas e vagas.
OIT Propõe Uma Política Integrada Em Vez De Medidas Isoladas
A abordagem apresentada no relatório organiza a resposta em várias dimensões complementares.
A primeira consiste em criar oportunidades, utilizando política macroeconómica, política industrial, desenvolvimento sectorial e apoio às empresas.
A segunda é preparar os jovens, através de educação de qualidade, formação técnico-profissional, aprendizagem profissional, ensino superior e aprendizagem ao longo da vida.
A terceira passa por facilitar a transição para o mercado, através de serviços de emprego, estágios, programas de transição escola-trabalho, incentivos à contratação e apoio ao empreendedorismo.
Finalmente, a política deve assegurar inclusão e protecção, incorporando segurança social, direitos laborais, saúde e segurança no trabalho, apoio psicossocial e medidas específicas para grupos particularmente desfavorecidos.
A mensagem é que nenhum destes instrumentos funciona suficientemente bem isoladamente.
Empreendedorismo É Parte Da Solução, Não Substituto Do Emprego
Nas economias africanas, o empreendedorismo assume frequentemente grande protagonismo nas políticas de juventude.
É importante, sobretudo onde o sector privado formal continua pequeno.
Mas existe uma diferença entre empreendedorismo produtivo e auto-emprego por necessidade.
Quando um jovem cria uma actividade porque identificou uma oportunidade, consegue financiamento, introduz inovação, aumenta produtividade e contrata trabalhadores, existe criação empresarial.
Quando vende bens ou presta pequenos serviços porque não encontra emprego, pode estar simplesmente a transferir a situação de desemprego para uma forma de sobrevivência informal.
Por isso, promover empreendedorismo deve significar criar empresas capazes de crescer, inovar, entrar em cadeias de valor e gerar empregos adicionais — e não simplesmente multiplicar actividades individuais de subsistência.
IA Deve Ser Tratada Como Tecnologia Produtiva, Não Apenas Como Ameaça
A Inteligência Artificial também pode ser parte da solução.
O desafio é evitar uma política baseada apenas em protecção contra a tecnologia.
A OIT recomenda uma abordagem centrada nas pessoas, associada a formação contínua e governação que permita utilizar a tecnologia para ampliar produtividade sem excluir trabalhadores de forma desnecessária.
Para economias em desenvolvimento, a questão é particularmente estratégica.
A IA pode reduzir determinados custos de acesso a conhecimento, serviços empresariais, educação, saúde, agricultura de precisão e soluções digitais.
Empresas pequenas podem aceder a capacidades antes reservadas a grandes organizações.
Mas os benefícios dependerão de factores básicos: electricidade fiável, conectividade, infra-estrutura digital, competências e acesso a equipamentos.
Sem essas condições, a revolução tecnológica pode aumentar a distância entre países em vez de reduzi-la.
Perspectiva Até 2027 É De Estabilidade — Não De Solução
A OIT não prevê uma explosão imediata do desemprego juvenil mundial.
A taxa deverá permanecer próxima de 12,3% a 12,4% entre 2025 e 2027.
Mas estabilidade não significa que o problema esteja resolvido.
O número absoluto de desempregados deverá aumentar ligeiramente para cerca de 68 milhões em 2027.
O número de jovens em situação NEET deverá crescer ainda mais, de 257 milhões para cerca de 264,5 milhões.
Na África Subsaariana, o número de jovens NEET deverá aproximar-se de 59 milhões.
A trajectória revela um mundo em que as taxas podem parecer relativamente estáveis enquanto o número de pessoas que necessitam de oportunidades continua a aumentar.
O Futuro Do Emprego Juvenil Será Decidido Pela Transformação Económica
A principal conclusão prospectiva do relatório da OIT é, por isso, mais ampla do que a discussão sobre desemprego.
O desafio dos próximos anos será fazer convergir demografia, educação, tecnologia e transformação produtiva.
Países que conseguirem formar jovens para sectores em expansão, criar empresas capazes de absorver essas competências e utilizar tecnologia para aumentar produtividade poderão transformar uma população jovem crescente numa vantagem económica.
Os que aumentarem a escolarização sem expandir oportunidades produtivas poderão acumular desemprego qualificado.
Os que gerarem emprego sem aumentar produtividade poderão continuar presos à informalidade e aos baixos rendimentos.
E os que adoptarem tecnologia sem investir na adaptação das competências poderão aprofundar desigualdades.
Para África — e particularmente para economias como Moçambique — a dimensão do desafio é também a dimensão da oportunidade.
A juventude pode constituir um dos maiores activos económicos das próximas décadas.
Mas apenas se a política económica deixar de tratar emprego juvenil como um programa separado e passar a tratá-lo como um resultado central da transformação estrutural da economia.
Fonte: O Económico




