As Nações Unidas alertam que o financiamento da resposta humanitária em Moçambique garante apenas 30% das necessidades de 2026, quando o conflito armado provocou 28.163 deslocados este ano e perante riscos acrescidos de seca pelo El Niño.
No mais recente retrato da situação humanitária em Moçambique, divulgado pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), a organização refere que o país continua confrontado com múltiplas crises simultâneas, incluindo os efeitos persistentes das cheias registadas este ano, os deslocamentos causados pela violência armada de grupos insurgentes no norte e a ameaça de agravamento da insegurança alimentar.
“Moçambique continuou a enfrentar desafios humanitários sobrepostos em julho de 2026, impulsionados pelos deslocamentos relacionados com o conflito no norte, pelas necessidades contínuas de recuperação após cheias severas e pelo aumento dos riscos de seca associados ao El Niño”, refere o documento.
Rica em gás natural, a província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, é palco de uma insurgência armada por grupos terroristas que, desde 2017, já provocaram mais de 6.600 mortos.
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Segundo o OCHA, cerca de 1.979 pessoas foram deslocadas só em julho devido ao conflito armado, elevando para 28.163 o número de deslocados registados desde o início do ano.
“Os deslocamentos relacionados com o conflito continuaram, com novos e recorrentes movimentos populacionais reportados ao longo do mês”, indica o relatório, acrescentando que “as mulheres e crianças representaram 65% das pessoas deslocadas”.
Refere ainda que os parceiros humanitários registaram várias preocupações de proteção entre as populações afetadas, incluindo separação familiar, violência baseada no género, perda de documentação e elevados níveis de sofrimento psicossocial.
A resposta humanitária alcançou 580 mil pessoas no país, face a uma meta de 1,1 milhão de beneficiários prevista para este ano, com a capacidade de assistência a permanecer condicionada pela falta de recursos.
De acordo com o OCHA, o Plano de Necessidades e Resposta Humanitária de 2026 requer 534 milhões de dólares (462,9 milhões de euros), mas apenas cerca de 160 milhões de dólares (138,7 milhões de euros) tinham sido mobilizados até julho, encontrando-se assim financiado em apenas “30% face às necessidades totais de 534 milhões de dólares para as respostas ao conflito e às cheias”.
O relatório alerta igualmente para um novo risco climático relacionado com o fenómeno El Niño, que pode comprometer a produção agrícola e agravar a insegurança alimentar durante a próxima época chuvosa, de outubro a abril.
“O El Niño deverá agravar a insegurança alimentar durante a época chuvosa de 2026/27″, indica o OCHA.
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“As previsões apontam para precipitação abaixo da média e aumento do risco de seca, particularmente no sul e centro de Moçambique”, lê-se no relatório.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inam) identificou, em julho, 12 distritos do sul e centro do país com elevado risco de seca severa e necessidade de medidas de preparação e resposta antecipada. Outros 16 distritos das províncias de Cabo Delgado, Gaza, Inhambane, Sofala, Tete, Manica e Maputo permanecem sob monitorização.
Embora tenha terminado em julho, o plano humanitário específico para responder às cheias de janeiro permitiu assistir mais de 516 mil pessoas, de uma meta de cerca de 600 mil, após inundações que afetaram mais de 724 mil pessoas em seis províncias, tendo a assistência sido prestada por 55 organizações em 38 distritos.
O OCHA assinala ainda que persistem preocupações sanitárias nas zonas afetadas pelas cheias, destacando que a província de Gaza registava níveis de malária 176% superiores aos observados no mesmo período de 2025, enquanto vários outros distritos do país continuam a reportar níveis elevados de doenças diarreicas.
Fonte: Observador



