O Projecto Mozambique LNG, operado pela TotalEnergies EP Mozambique Area 1 Limitada, atingiu a marca de 105 bolsas de estudo concedidas a jovens moçambicanos para frequentarem o ensino superior em França, através de um programa desenvolvido em parceria com a Embaixada de França em Moçambique.
Lançada em 2021, a iniciativa abrange estudantes dos níveis de licenciatura, mestrado e doutoramento, distribuídos por diferentes universidades francesas. Parte dos beneficiários já concluiu a formação e regressou a Moçambique, enquanto outros permanecem em França a completar os respectivos programas académicos.
O mais recente grupo é constituído por seis estudantes que partiram para França, dando continuidade a uma iniciativa que coloca a qualificação profissional e académica entre os instrumentos de ligação do projecto de gás natural liquefeito à economia nacional.
Capital Humano Como Componente do Investimento
Num projecto cuja escala é normalmente avaliada em termos de reservas de gás, capacidade de produção, investimento, receitas fiscais, exportações ou geração de divisas, o programa de bolsas introduz uma outra variável: a capacidade de converter um grande investimento extractivo em conhecimento e competências nacionais.
Mary Begg-Saffar, Directora de Assuntos Corporativos da TEPMA1, considera que o desenvolvimento de competências representa uma componente do compromisso do Mozambique LNG com o desenvolvimento sustentável do país.
Segundo a responsável, os jovens abrangidos pelo programa têm a possibilidade de adquirir conhecimentos e experiências que posteriormente poderão ser colocados ao serviço de Moçambique, considerando que o alcance dos 105 beneficiários confirma a aposta do projecto na educação e formação da juventude.
Economicamente, esta dimensão assume particular importância num sector caracterizado por elevada intensidade tecnológica e pela necessidade de recursos humanos especializados. Quanto maior for a disponibilidade interna de engenheiros, técnicos, gestores e outros profissionais qualificados, maior poderá ser a capacidade do país de participar em segmentos de maior valor acrescentado associados à cadeia energética.
Trata-se de uma questão que ultrapassa, portanto, a empregabilidade directa no próprio Mozambique LNG. Competências adquiridas em áreas como electricidade, energias renováveis, gestão ou economia podem ter aplicação transversal na indústria, infra-estruturas, serviços públicos e no tecido empresarial nacional.
Formação Orientada Para Problemas Reais da Economia
Entre os seis novos bolseiros encontra-se Rômeo de Jesus Ambrózio, natural de Barué, província de Manica, que vai frequentar um mestrado em Sistemas de Energia Eléctrica, em Toulouse.
A escolha da formação está associada à experiência profissional que já vinha desenvolvendo e, particularmente, aos desafios observados no transporte de electricidade e nas perdas existentes na rede.
O estudante espera regressar com uma preparação que lhe permita contribuir para soluções mais eficazes nestas áreas.
A relação entre formação e necessidades concretas da economia surge igualmente no percurso de Rossana Sardinha, natural de Nampula, que vai estudar Energia Solar, Gestão, Economia e Direito.
A estudante associa a escolha da formação aos défices de acesso à electricidade ainda existentes em várias comunidades da sua província, considerando que o conhecimento adquirido poderá ser aplicado na procura de soluções para esse problema.
Estes exemplos ajudam a colocar a política de bolsas numa perspectiva económica mais ampla. A qualificação de jovens em sectores directamente relacionados com alguns dos principais constrangimentos estruturais de Moçambique — energia, infra-estruturas, gestão e capacidade institucional — pode produzir efeitos para além do próprio percurso individual dos beneficiários.
Da Bolsa Ao Retorno Económico
A verdadeira dimensão económica de programas desta natureza emerge quando a formação realizada no exterior encontra condições de utilização produtiva no país.
Isso pressupõe que os graduados encontrem oportunidades compatíveis com as competências adquiridas, tanto nos grandes projectos como nas empresas nacionais, instituições públicas, universidades, centros de investigação, operadores energéticos e iniciativas empresariais.
É igualmente nesta ligação que a formação de capital humano pode contribuir para aumentar o conteúdo nacional associado aos investimentos de grande escala.
Quanto maior for a capacidade técnica existente dentro do país, menor tende a ser a necessidade de recorrer de forma permanente a determinadas competências externas e maior poderá ser a participação de profissionais e empresas moçambicanas em actividades de maior complexidade.
A política de bolsas ganha, por isso, maior relevância quando integrada num ecossistema mais amplo de formação, transferência de conhecimento, desenvolvimento de fornecedores, investigação aplicada e absorção profissional.
Um Projecto Com Escala Estruturante
O Mozambique LNG constitui o primeiro desenvolvimento terrestre de uma fábrica de gás natural liquefeito em Moçambique. O projecto inclui os campos de Golfinho e Atum, localizados na Área 1 Offshore, e prevê uma fábrica com duas unidades de liquefacção e capacidade total de 13,12 milhões de toneladas por ano.
De acordo com os dados divulgados pelo projecto, a Área 1 possui recursos de gás estimados em até 65 biliões de pés cúbicos, dos quais cerca de 18 biliões de pés cúbicos deverão ser desenvolvidos através das duas primeiras unidades de liquefacção.
A TotalEnergies EP Mozambique Area 1 Limitada detém uma participação de 26,5% e opera o empreendimento. Integram ainda o consórcio a Mitsui E&P Mozambique Area1 Limited, com 20%; ENH Rovuma Área 1, com 15%; ONGC Videsh Rovuma Limited, Beas Rovuma Energy Mozambique Limited e BPRL Ventures Mozambique B.V., cada uma com 10%; e PTTEP Mozambique Area 1 Limited, com 8,5%.
Pela sua escala, o desenvolvimento do projecto é frequentemente associado às perspectivas de transformação da estrutura exportadora, das receitas públicas e da posição de Moçambique nos mercados internacionais de energia.
Mas o potencial de transformação estrutural dependerá igualmente da extensão das ligações que forem criadas entre o investimento e o restante tecido económico nacional.
É nesse quadro que programas de formação como o agora desenvolvido com a Embaixada de França assumem relevância: as reservas de gás constituem um activo natural; as competências, conhecimento e capacidade tecnológica determinam em que medida esse activo poderá gerar efeitos económicos mais amplos e duradouros dentro do país, ou seja, transformar essa formação em engenheiros, especialistas, gestores, investigadores e empreendedores capazes de responder aos desafios produtivos do país e elevar a participação nacional numa economia progressivamente mais exigente em conhecimento e tecnologia.
Fonte: O Económico


