InícioRevistaPolíticaESTAMOS A FORMAR MILITANTES OU A FORMAR CIDADÃOS?

ESTAMOS A FORMAR MILITANTES OU A FORMAR CIDADÃOS?

Por: Gentil Abel

Em Moçambique, falar de política é, muitas vezes, falar também de paixões, lealdades e divisões. Nas épocas eleitorais, essas diferenças tornam-se mais visíveis: cartazes são arrancados, símbolos partidários tornam-se motivo de discussão e, em alguns casos, apoiantes de forças políticas diferentes deixam de se olhar como concidadãos para se tratarem como adversários irreconciliáveis. Nas redes sociais, o fenómeno ganha outra dimensão, com insultos, acusações e discursos que rapidamente transformam uma divergência de opiniões numa disputa pessoal. É neste ambiente que surge uma pergunta: Estamos a formar militantes ou a formar cidadãos?

A questão não significa que a militância política seja, por si só, um problema. Os partidos são parte importante de qualquer democracia e a participação política é um direito. O problema começa quando a defesa de uma organização passa a exigir a rejeição de quem pensa diferente. Nesse momento, a política deixa de ser um espaço de disputa de ideias e começa a transformar-se num terreno de confrontos pessoais.

Ser militante significa defender uma causa ou uma organização política. Ser cidadão, porém, exige algo mais amplo. Significa reconhecer direitos, cumprir deveres, respeitar as diferenças e compreender que nenhuma força política possui o monopólio da verdade. Um cidadão pode apoiar um partido e, ainda assim, discordar de algumas das suas decisões. Pode votar numa determinada força política e continuar a respeitar quem escolheu outra. Esta capacidade de separar a preferência política do respeito pelo outro é uma das bases da convivência democrática.

No entanto, a realidade mostra que esta separação nem sempre é fácil. Durante os períodos eleitorais, e não só, surgem relatos de confrontos entre apoiantes, destruição de material de campanha, impedimento de actividades políticas e agressões relacionadas com símbolos ou vestuário partidário. Quando um cartaz passa a ser visto como uma provocação e uma camisola partidária como motivo para hostilidade, alguma coisa está errada na forma como estamos a viver a política.

O problema também se manifesta nas palavras. Nas redes sociais, sobretudo, tornou-se comum classificar o adversário como traidor, inimigo ou ameaça. A crítica a uma proposta é rapidamente confundida com ataque pessoal. Em vez de se discutir o que um candidato ou partido propõe para resolver determinado problema, a conversa passa para a vida pessoal, a origem, a família ou a suposta intenção de quem pensa de maneira diferente.

Esta linguagem não é inofensiva. As palavras ajudam a construir comportamentos. Quando o adversário político é constantemente apresentado como alguém que deve ser eliminado, silenciado ou humilhado, cria-se um ambiente em que a violência verbal pode facilmente abrir espaço para outras formas de violência.

A intolerância política também não nasce apenas da paixão partidária. Há factores sociais que ajudam a explicar o fenómeno. O medo, a desinformação, a falta de diálogo e a dificuldade de conviver com opiniões diferentes podem transformar uma simples divergência numa ameaça. Para algumas pessoas, reconhecer que o adversário pode ter razão em determinado assunto parece significar abandonar a própria identidade política.

É justamente aqui que a cidadania precisa de se sobrepor à militância cega. Uma sociedade democrática não pode depender da existência de pessoas que concordam umas com as outras em tudo. Pelo contrário, a democracia pressupõe desacordo. O desafio está em aprender a discordar sem transformar a diferença numa guerra.

No país, esta questão ganha ainda maior importância quando se olha para os episódios de tensão e violência associados às questões políticas e a períodos eleitorais. As crises pós-eleitorais não afectam apenas os partidos envolvidos. Atingem famílias, comerciantes, trabalhadores, transportadores e comunidades inteiras.

Por isso, combater a intolerância política não pode ser responsabilidade exclusiva das instituições. Os partidos têm um papel importante, sobretudo através da linguagem utilizada pelos seus dirigentes e apoiantes. Um líder que modera o discurso e reconhece a legitimidade do adversário contribui para reduzir tensões. Da mesma forma, um líder que transforma qualquer crítica numa ameaça pode alimentar divisões que depois são difíceis de controlar.

As instituições também precisam de desempenhar o seu papel. Órgãos eleitorais, polícia e justiça devem actuar com imparcialidade e dentro da lei. Quando actos de violência, vandalismo ou intimidação ficam sem resposta, transmite-se a ideia de que a violência pode ser utilizada como instrumento político. A responsabilização deve, por isso, aplicar-se independentemente da cor partidária de quem comete a infracção.

Mas existe igualmente uma responsabilidade individual. Cada cidadão precisa de perguntar a si próprio até onde vai a sua lealdade política. Defender uma ideia não significa insultar quem discorda. Apoiar um partido não obriga a aceitar todos os seus actos. E criticar uma organização política não transforma automaticamente o crítico num inimigo.

E as redes sociais tornaram esta responsabilidade ainda mais necessária. Uma informação falsa pode alcançar milhares de pessoas em poucos minutos e uma mensagem ofensiva pode provocar reacções muito para além do seu autor. Por isso, antes de partilhar uma acusação ou um conteúdo político, é importante verificar a informação e perguntar se aquilo contribui para o debate ou apenas aumenta a tensão.

Talvez a questão central não seja escolher entre militantes e cidadãos. Uma democracia precisa de pessoas politicamente activas, mas precisa, sobretudo, de militantes que também sejam cidadãos. Desta feita, o país não precisa de cidadãos sem opiniões políticas. Precisa de cidadãos capazes de defender as suas opiniões sem negar ao outro o direito de pensar de forma diferente. Precisa de partidos fortes, mas também de instituições respeitadas. Precisa de líderes capazes de mobilizar os seus apoiantes sem os ensinar a odiar os adversários.

No fim, a democracia não é testada quando todos concordam. É precisamente no momento em que surgem opiniões diferentes que se percebe se uma sociedade aprendeu a conviver com a diversidade. Se queremos reduzir a intolerância política, talvez seja necessário começar por uma mudança simples: deixar de ensinar que o adversário é um inimigo e começar a mostrar que, apesar das diferenças políticas, continua a ser nosso concidadão.

É nessa diferença entre combater ideias e combater pessoas que se encontra uma das fronteiras mais importantes entre a militância e a cidadania.

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