Maputo, 27 de Agosto (AIM) – As mulheres moçambicanas querem assumir um papel cada vez mais decisivo na prevenção de conflitos, reconciliação e promoção da coesão social, defendendo uma maior participação nos processos de construção da paz no país.
A posição foi reafirmada durante o Diálogo Nacional do Movimento Mulher e Paz, que reuniu, em Maputo, mais de 200 participantes sob o lema “Revigorando a Agenda do Movimento Comunitário Mulher e Paz, para uma Paz Efectiva e Sustentável”.
Promovido pela Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), em parceria com o Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD), a Fundação MASC, o ACCORD e a GIZ, o encontro juntou mais de 200 participantes, entre representantes do Governo, parceiros de cooperação, Nações Unidas, lideranças religiosas, académicos, peritos de paz, pontos focais de paz de diferentes províncias e organizações da sociedade civil.
Mais do que uma reflexão sobre o papel das mulheres, o encontro procurou colocar no centro do debate a contribuição das comunidades e, particularmente, das mulheres de base, para a prevenção de conflitos, mediação, reconciliação e consolidação da coesão social.
O diálogo marcou também os oito anos de existência do Movimento Mulher e Paz, que conta actualmente com mais de 25 mil membros, organizados em cerca de 900 núcleos de paz espalhados pelo país.
Ao longo deste percurso, os núcleos têm desempenhado um papel relevante na prevenção e mediação de conflitos comunitários, na promoção do diálogo e no fortalecimento da convivência pacífica, incluindo em comunidades afectadas por conflitos.
A experiência acumulada demonstra, segundo os participantes, que as mulheres não devem ser vistas apenas como vítimas dos conflitos, mas também como agentes activas de prevenção, mediação e construção da paz.
Representantes de Cabo Delgado, Nampula, Sofala, Zambézia, Manica e Cidade de Maputo partilharam experiências desenvolvidas nas suas comunidades. Entre as iniciativas destacadas estão a mediação comunitária de conflitos, grupos de poupança, actividades de geração de rendimento e acções de promoção da paz.
Apesar dos avanços, o encontro identificou uma série de desafios que continuam a ameaçar a estabilidade social e a segurança das comunidades.
Entre os principais problemas apontados estão o terrorismo, conflitos de terra, tensões nas zonas de mineração, violência doméstica, feminicídio, desemprego e o consumo de drogas e outros vícios que afectam particularmente a camada juvenil.
A reduzida presença das mulheres nos espaços de decisão foi igualmente apontada como um obstáculo à construção de respostas mais inclusivas e sustentáveis aos problemas que afectam as comunidades.
Para as participantes, uma paz efectiva não pode limitar-se à ausência de confrontos. Deve traduzir-se em segurança, inclusão, oportunidades económicas, justiça social e participação efectiva dos cidadãos, sobretudo das mulheres e dos jovens, na definição das soluções para os problemas que afectam as suas comunidades.
Entre as principais recomendações do diálogo está o reforço dos núcleos de paz existentes e a sua expansão para mais comunidades do país.
Os participantes defenderam igualmente uma maior inclusão de mulheres de base comunitária, jovens e mulheres deslocadas, bem como o seu empoderamento económico e acesso contínuo à formação.
A aposta na capacitação deverá permitir que mais mulheres estejam preparadas para actuar como mediadoras e lideranças comunitárias, contribuindo para a prevenção e resolução pacífica de conflitos.
Outro desafio considerado central é garantir que a participação feminina deixe de ser meramente simbólica e passe a ter impacto real nos processos de tomada de decisão.
Uma das propostas apresentadas durante o encontro foi o fortalecimento da segunda geração do Plano Nacional de Mulheres, Paz e Segurança, com a integração de novas dimensões que afectam a estabilidade e o bem-estar das comunidades.
Entre os temas sugeridos estão as mudanças climáticas, saúde mental, prevenção do consumo de drogas e inclusão de mulheres com deficiência.
A inclusão destas matérias pretende responder à transformação dos riscos que afectam a paz e a coesão social no país, reconhecendo que os conflitos comunitários têm causas cada vez mais complexas e interligadas.
A Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade apelou à expansão dos núcleos de paz, à escuta permanente das comunidades e ao fortalecimento da ligação entre os núcleos e as estruturas locais.
A organização defendeu ainda a formação de mais mediadoras de paz, como forma de fortalecer a articulação entre o Movimento Mulher e Paz, as instituições públicas e os parceiros de cooperação.
A aposta, segundo a FDC, deve contribuir para uma agenda nacional de paz, reconciliação e unidade nacional, assente numa participação mais ampla das comunidades.
Num país marcado por diferentes focos de tensão e por desafios sociais que afectam de forma diferenciada mulheres, homens e jovens, o fortalecimento destas estruturas comunitárias poderá constituir uma importante ferramenta para detectar conflitos numa fase inicial e promover soluções locais antes que as tensões se agravem.
O Diálogo Nacional do Movimento Mulher e Paz deixou uma mensagem clara: não haverá paz social efectiva e sustentável sem a participação activa das mulheres.
Com milhares de mulheres mobilizadas em centenas de núcleos comunitários, o movimento procura transformar a experiência local em força colectiva para a prevenção de conflitos e a consolidação da paz.
O desafio que se coloca agora é transformar as recomendações em acções concretas, assegurar recursos para as iniciativas comunitárias e garantir que a voz das mulheres esteja presente onde são tomadas as decisões que determinam o futuro das comunidades.
(AIM)
Fonte: aimnews







