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Noémia de Sousa 100 anos. Nem o mural reaviva a memória dos moradores da Mafalala sobre a poeta

Cem anos após ter nascido, nem o mural com o rosto aviva a memória dos residentes da Mafalala, em Maputo, onde a poeta e jornalista Noémia de Sousa cresceu, entre pedidos de iniciativas para manter vivo o legado.

João Filipe, canalizador e eletricista, nasceu no histórico bairro da Mafalala, no coração de Maputo, e sempre viveu ali, onde a poeta Noémia de Sousa cresceu, mas, mesmo visualizando o mural com o rosto da também jornalista, não tem memórias vivas sobre o nome da também conhecida como “mãe dos poetas moçambicanos”, apesar do centenário do seu nascimento.

“Por alto já ouvi falar, mas não conheço a história dela, já vi a passar na televisão algum historial, mas nunca acompanhei”, confessa João Filipe.

Puxando pela memória, confessa ter lembranças da história de José Craveirinha, outro poeta com o rosto estampado no mural, mas de Noémia pouco sabe. Esse é também um motivo que o leva a pedir programas e iniciativas locais para divulgar o nome da poeta, sugerindo a inclusão de mais textos seus nos programas escolares para eternizar a também jornalista.

“Penso que há mais pessoas que se inspiraram nela, se pudessem usá-la como exemplo, seguir o formulário dela acerca das histórias que ela vinha contando (…) se tiver alguém com a mesma inspiração, fazendo os mesmos ideais, livros sobre a história desse passado”, disse o morador.

O “grafiteiro” moçambicano Bruno Mateus, conhecido como Shot.B, foi quem pintou o mural dos poetas, uma iniciativa do Museu Mafalala, mas para marcar o centenário de Noémia de Sousa, vai reabilitá-lo e reestruturá-lo, com o Museu a procurar fundos para materializar a iniciativa.

O mural foi pintado pela primeira vez em 2016 e restaurado em 2022 com a colocação de protetores e barreiras para evitar que os moradores ali urinassem: “com certeza vou dar um pouco mais de brilho e foco já na Noémia de Sousa, pois ela é a centenária desta vez. Os outros vão ter um tratamento ligeiramente normal, mas o dourado desta vez, a coroa passa do Craveirinha para a Noémia”, diz o artista.

Esta obra é de valor histórico para Shot.B, que encontra em Noémia a moçambicanidade, radicalismo e atitude, sentindo-se orgulhoso por trabalhar numa obra deste género.

“Este é o bairro que a viu nascer, então, muita gente, muitos não conhecem a história deste grande monstro das artes moçambicanas, então para mim é mais do que necessário, é razão mais do que suficiente para pintar a poesia criada por Noémia”, diz o artista.

Quando se fala do esquecimento de Noémia, o “grafiteiro” acredita que o mural vai manter viva a sua memória. “Acho que é eternizar o legado deixado por esses artistas conhecidos e não conhecidos por esta nova sociedade. Nós agora nos encontramos numa era digital em que as pessoas não se baseiam mais em livros, não se ensina muito a história, a nossa história propriamente dita, nas escolas, como antigamente”, diz.

E conclui: “estamos nesta era digital em que as crianças e as pessoas pegam os elementos e as ferramentas, investigam e vão para onde eles querem, atravessam limites indesejados ou desejados para o seu agrado, então esta é uma forma de eternizar, de continuar com o legado, de dar a conhecer e dar longevidade às obras feitas por essa artista”.

Junto ao mural, na habitual azáfama da Mafalala, passa também Ismael Juma, morador do bairro. Confessa ter noção de quem foi Noémia, mas reconhece que a maioria no bairro não tem muita informação sobre a poeta, admitindo pouca divulgação no seu “berço”.

“Falar de Noémia é falar de uma geração que não é esta em que estamos nós”, afirma, acrescentando: “Só nos recordamos dela quando chegamos ao ensino secundário em que está ali o poema (que) é só para um certo nível de pessoas, então acho que essa memória tem a ver mais com gerações”, aponta.

Juma elogia que se tenha pintado, há já uma década, um mural que recorda mais a literatura do que combatentes da luta de libertação, referindo que estas iniciativas devem ser replicadas em todo o bairro para avivar a memória da comunidade sobre a importância que estes nomes tiveram na libertação de Moçambique.

“São estas memórias que devem ser consciencializadas aos mais novos, mas acho que este é um trabalho que está sendo feito já e é preciso que se leve à escola secundária”, aponta.

Nascida em 20 de setembro de 1926, em Lourenço Marques, Noémia de Sousa é hoje considerada a “mãe dos poetas moçambicanos”. Trabalhou mais tarde em Lisboa na Agência Noticiosa Portuguesa (ANOP), que esteve na origem da atual agência Lusa. Iniciou-se no jornalismo em 1956 e, após a independência, regressou a Lisboa, em 1975, onde trabalhou na área noticiosa.

Faleceu em 4 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal, deixando como obra de referência o livro “Sangue Negro”.

 

Fonte: Observador

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