InícioRevistaTecnologiaA água está mais quente no Norte do que no Algarve. Sabes...

A água está mais quente no Norte do que no Algarve. Sabes porquê?

Se foste à praia no Porto ou em Viana nos últimos dias e entraste na água sem aquele grito habitual, não foi impressão tua. Está a acontecer uma coisa rara na costa portuguesa: a água do mar no Norte está mais quente do que no Algarve. Esta quinta-feira, o litoral norte rondava os 20 graus, enquanto a costa algarvia não passava dos 19, uma inversão do que qualquer português dá como garantido no verão. A explicação não está no sol nem no calor que se tem sentido em terra. Está no vento que não apareceu. Já deste conta da água mais quente no Norte?

Em anos normais, a costa ocidental portuguesa é varrida durante o verão por ventos persistentes de norte, a nortada. Como explicou o chefe da Divisão de Meteorologia e Vigilância do IPMA, Jorge Ponte, esse vento empurra a água superficial, mais quente, para o largo, permitindo que as águas frias do fundo do mar subam até junto à costa.

Chama-se afloramento costeiro, ou upwelling, e é este processo que faz com que a água que te bate nas pernas em agosto tenha estado, dias antes, a dezenas de metros de profundidade, a uns gélidos 12 a 15 graus. É ele, e não a latitude, o verdadeiro responsável pela fama do Atlântico português.

O que se está a passar é simples de perceber quando conheces o mecanismo: sem nortada, não há afloramento. E sem afloramento, a água aquecida pelo sol fica onde está, junto à costa, em vez de ser empurrada para fora e substituída por água fria das profundezas.

O fenómeno não é apenas desta semana. Ao longo de boa parte deste verão têm predominado fluxos de oeste em vez das nortadas habituais, e em várias praias da costa ocidental a temperatura da água tem chegado aos 22 ou 23 graus, valores muito acima do normal para julho. Para quem está habituado a entrar no mar aos poucos e a arrepender-se a meio, é quase irreconhecível.

Aqui está a chave da inversão. O afloramento é muito mais eficaz no litoral norte e centro, onde o vento e a orientação da costa se conjugam na perfeição. É por isso que Viana, Matosinhos ou a Figueira da Foz têm tradicionalmente a água mais fria do país.

No Algarve virado a sul, o mecanismo é bastante mais fraco, porque o vento deixa de soprar paralelo à costa da mesma maneira. Resultado: o Sul não tinha grande arrefecimento para perder, enquanto o Norte perdeu o seu por completo. Daí a ultrapassagem.

O IPMA admite que a nortada possa regressar, o que faria o afloramento voltar e a temperatura descer outra vez. Mas trata-se de uma oscilação de dias: basta o vento mudar de intensidade para o mar voltar a arrefecer ou a aquecer. Se apanhares uma janela destas, aproveita-a, porque ela fecha tão depressa quanto abriu.

Há um lado menos simpático nesta história, e vale a pena conhecê-lo. A água profunda que o afloramento traz à superfície é rica em nutrientes, e é ela que alimenta a cadeia alimentar que faz da costa portuguesa uma das mais produtivas da Europa, a sardinha, o carapau, a cavala.

Sem esse mecanismo, a água costeira fica mais quente mas também mais pobre. E o episódio insere-se num quadro maior: têm sido registadas ondas de calor marinho no Atlântico e no Mediterrâneo, com anomalias térmicas significativas ao longo de várias costas europeias.

Ou seja, esse banho invulgarmente agradável no Norte é bem-vindo para quem está de férias mas é também o sintoma de um oceano a comportar-se fora do seu padrão.

 

Fonte: Zero Zero

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu nome aqui
Por favor digite seu comentário!

- Advertisment -spot_img

Últimas Postagens

Assembleia Geral do V. Guimarães (FOTO: Twitter V. Guimarães)

V. Guimarães: sócios aprovam orçamento para a época 2026/27

0
Os sócios do V. Guimarães aprovaram esta sexta-feira, por maioria, o orçamento do clube para a temporada de 2026/27. No Pavilhão Unidade Vimaranense marcaram presença...
- Advertisment -spot_img