África enfrenta um risco crescente de exclusão da economia global baseada em dados e inteligência artificial, caso não acelere o investimento em infra-estruturas digitais e energéticas. O alerta consta de um relatório recente da Comissão Económica das Nações Unidas para África, citado pela Reuters.Com menos de 1% dos centros de dados mundiais localizados no continente, a lacuna não é apenas tecnológica — é também económica e estratégica. Num contexto em que a competitividade depende da capacidade de gerar, governar e aplicar dados, esta limitação coloca África numa posição vulnerável na nova arquitectura económica global.O relatório é claro ao afirmar que os orçamentos públicos africanos são insuficientes para financiar a infra-estrutura necessária à economia digital. Nesse sentido, recomenda-se a mobilização de múltiplas fontes de financiamento, incluindo mercados financeiros, fundos de pensões, fundos soberanos e instrumentos de financiamento misto.A recomendação inclui, de forma explícita, o recurso ao endividamento — não como um fim em si mesmo, mas como instrumento para viabilizar investimentos estruturais em tecnologia e energia.A lógica subjacente é que, sem investimento significativo, África corre o risco de perder uma janela histórica de transformação económica.É neste ponto que emerge o principal eixo crítico do relatório — e o elemento que exige maior clarificação para uma leitura rigorosa.A proposta da ONU não pode ser interpretada como um apelo ao endividamento indiscriminado. Trata-se, antes, de uma defesa de dívida orientada para investimento produtivo, com potencial de gerar crescimento, aumentar produtividade e expandir a base fiscal.Contudo, esta abordagem confronta-se com uma realidade incontornável: vários países africanos já enfrentam níveis elevados de endividamento, com espaço fiscal limitado e custos de financiamento elevados.Assim, o continente encontra-se perante um trade-off estrutural:investir para não ficar para trás na revolução tecnológica, ou preservar a sustentabilidade fiscal num contexto de vulnerabilidade.Este dilema não é teórico. Ele traduz-se numa tensão concreta entre necessidade de transformação e capacidade de financiamento.O relatório sublinha ainda que o investimento em tecnologia não pode ser dissociado do investimento em energia. A inteligência artificial e os sistemas digitais exigem infra-estruturas energéticas robustas, capazes de garantir fiabilidade e escala.Neste sentido, a estratégia proposta assenta numa abordagem integrada, em que o desenvolvimento digital reforça a procura de energia e, simultaneamente, beneficia de sistemas energéticos mais eficientes.Para além da dimensão tecnológica, a inteligência artificial surge como um vector estratégico de transformação económica. A sua adopção pode permitir ao continente diversificar a sua base produtiva e reduzir a dependência de exportações de matérias-primas.O relatório aponta, em particular, para a possibilidade de África utilizar os seus recursos minerais críticos para desenvolver cadeias de valor industriais, incluindo a produção de baterias, processadores e outros bens de elevado valor acrescentado.Mesmo no cenário de dívida produtiva, persistem riscos significativos. A eficácia desta estratégia dependerá da capacidade de execução, da qualidade da governação e da selecção criteriosa dos projectos.Num contexto de taxas de juro globais ainda relativamente elevadas, o custo do financiamento aumenta a exigência sobre o retorno dos investimentos. Sem disciplina e eficiência, o risco é que o aumento do endividamento não se traduza em transformação económica efectiva.O relatório enfatiza ainda a importância da implementação efectiva da Zona de Comércio Livre Continental Africana como forma de criar escala e viabilizar investimentos tecnológicos.Simultaneamente, destaca-se a necessidade de investir em competências e formação, condição indispensável para assegurar que a adopção tecnológica seja acompanhada de capacidade interna de inovação.A leitura integrada do relatório revela que África se encontra num ponto de inflexão. A revolução da inteligência artificial representa uma oportunidade única de transformação, mas exige decisões económicas complexas.O desafio não é apenas mobilizar recursos, mas fazê-lo de forma estratégica, equilibrando investimento e sustentabilidade.Em última análise, a questão central não é se África deve endividar-se para investir, mas sim:como investir de forma inteligente, garantindo que a dívida contraída hoje se traduza em crescimento sustentável amanhã.
Fonte: O Económico





