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"Alguém tem de o fazer, as pessoas têm o direito de saber o que aconteceu": Luís, 19 anos, tornou-se no portador da notícia da morte em Catia La Mar

Resumo

Luís, um jovem de 19 anos de Catia La Mar, cidade venezuelana devastada por terramotos, tornou-se o mensageiro das más notícias para as famílias das vítimas. Na cidade destruída, Luís coordena operações de resgate, recuperando sobreviventes e anunciando as trágicas descobertas. Enquanto as autoridades parecem ausentes, voluntários como Luís enfrentam o caos e a dor, procurando incansavelmente por sobreviventes entre os escombros. Com calma e determinação, Luís informa as famílias sobre o destino dos seus entes queridos, oferecendo um vislumbre de esperança num cenário de desolação.

Luís tem 19 anos, é filho de Catia La Mar, cidade venezuelana à beira-mar e a mais fustigada pelos terramotos de 24 de junho, e converteu-se no portador das más notícias para as famílias das vítimas.

São quase 20:00 de segunda-feira em Catia La Mar, a cidade que se ergueu no areal de uma praia e que foi 'apagada' pelos dois sismos de há quase uma semana, deixando apenas um rastro de escombros e desespero.

Na Avenida de la Playa havia edifícios de dez andares com vista privilegiada para o oceano. Agora, o mar é quase indistinguível perante o cenário de destruição e a altura dos escombros.

Nesta avenida convergiu tudo: os desalojados que ocuparam jardins e as estradas com tendas e sacos de cama, as filas que atravessam quarteirões de pessoas a aguardar pela distribuição de comida da noite, e os que aguardam sentados no separador que divide as duas vias da Avenida de la Playa, enquanto decorrem as operações de resgate.

“Já não há nada para resgatar, abandonaram-nos”, gritou um homem, visivelmente consternado, enquanto retira as luvas, já perfuradas nos dedos polegar e indicativo da mão direita.

Luís aproximou-se e pediu-lhe que tivesse calma. É um homem jovem, de 19 anos, calças negras e umas sapatilhas da mesma cor, uma t-shirt cinzenta coberta de pó das escavações, um boné verde de tom escuro, virado ao contrário e um par de óculos de sol a recair sobre a chapéu.

Luís cresceu em Catia La Mar, é filho da terra, conhecia as ruas de trás para a frente, cada edifício. E viu tudo ruir à sua frente.

O complexo residencial à sua frente continha sete edifícios. Ficaram as paredes de dois e continuam a cair pedaços do que outrora foi uma cozinha de um dos apartamentos.

“Já recuperámos 11 pessoas com vida, a última há 62 horas, precisamente”, disse à Lusa Luís, que se intitulou o coordenador das operações naquela área, “abandonada pelas autoridades”.

“Não está aqui ninguém, nem um bombeiro, e os militares estão ali em cima a distribuir comida e a levá-la para eles”, criticou.

À sua volta um tumulto, cidadãos de Catia La Mar e de outras partes da Venezuela, perguntavam pelos familiares. Queriam saber se os socorristas, todos voluntários, já tinham chegado a um determinado andar, se já tinham vasculhado todos os apartamentos, o que tinham encontrado.  

O momento para conversar é escasso, aproximaram-se duas mulheres, que tinham sido chamadas ao local. Procuravam-nas há quase duas horas.

Luís aproximou-se e com a mão no ombro de uma das mulheres anunciou que tinham encontrado o pai sem vida entre os escombros. O tumulto cessa, permanece o silêncio.

Com calma, Luís diz a todas as pessoas que permaneçam sentadas e que vão continuar a procurar até encontrar todas as pessoas.

“Faço-o porque alguém tem de o fazer, as pessoas têm o direito de saber o que aconteceu, para bem e para mal”, disse à Lusa o jovem que nos últimos cinco dias se encarregou de anunciar o resgate de cada pessoa daquele mar de escombros e de dar “a dura notícia” da morte das vítimas dos terramotos de 24 de junho.

“Não o quero fazer, mas se o fizer eu poupo os que já estão exaustos de os procurar e não têm forças para comunicar às famílias estas notícias”, prosseguiu.

“Eles acham que há uma pessoa presa num elevador no terceiro andar, mas não entraram porque se o tentarem abrir, o prédio inteiro pode cair”, disse à Lusa Mariana, que veio “de longe” para ajudar a distribuir comida. 

“Arranjei 100 colchões para as pessoas, mas não os posso trazer, os militares não deixam, dizem que tenho de os entregar para que os distribuam”, comentou, acrescentando que não o vai fazer porque “todos sabem que assim que chegam às mãos deles as pessoas não recebem nada”.

A noite avança e já sob a luz de lanternas prosseguem as operações de resgate: “As câmaras térmicas ontem [domingo] não detetaram sinais de vida debaixo daquele estacionamento, mas nós ouvimos a voz de uma pessoa”, revelou Mariana, enquanto, apressada, escreve no telemóvel, pedindo apoio a pessoas que possam juntar-se para trazer os colchões que tem “à espera em Caracas”.

O som das marretas e das pás mistura-se com o das pessoas que exigem mais comida, os murmúrios na rua e a conversa para tentar distrair o pensamento, enquanto cerca de 40 pessoas continuam a procurar sobreviventes.

 

Fonte: TVI

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