InícioRevistaInternacionalBispo admite "penas duras" para Fraternidade que ameaça desobedecer ao Papa

Bispo admite "penas duras" para Fraternidade que ameaça desobedecer ao Papa

Resumo

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X planeia consagrar quatro bispos sem autorização do Papa, levantando questões sobre a unidade da Igreja Católica. Esta ação desafia a autoridade papal e pode agravar divisões já existentes. O problema com a Fraternidade é antigo, remontando ao Concílio Vaticano II, e agora sob o Papa Leão a situação agravou-se. A possibilidade de um cisma surge, com a Fraternidade a desafiar abertamente a autoridade papal. Este episódio destaca um dos muitos desafios que o Papa enfrenta, incluindo questões como a relação com a Inteligência Artificial, a política e a missão da Igreja. A resolução deste conflito é crucial para a unidade e comunhão da Igreja Católica.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X anunciou que na próxima quarta-feira, dia 1 de julho, vai consagrar quatro bispos à revelia do Papa. O que é que, na sua opinião, este gesto vai significar para a Igreja Católica? 

A ordenação de bispos é, ao longo da história da Igreja, um gesto, uma celebração, um momento da vida eclesial sempre muito importante. Esse momento sempre teve um grande foco na questão da unidade. Até a tradição antiga, por exemplo, de haver vários bispos na ordenação do novo bispo, como sinal, de alguma maneira, dessa comunhão e dessa unidade. E, portanto, gostava de associar a ordenação do novo bispo também como uma expressão da unidade da Igreja, que, no caso da Igreja Católica, tem, evidentemente, a pessoa do Papa o sacramento visível dessa unidade. Dito isto, evidentemente que qualquer ordenação episcopal que, de alguma maneira, aconteça por mecanismos paralelos a esta expressão visível da unidade com o Santo Padre, é um enorme desafio, é uma ferida, é uma dor para a Igreja. A Igreja sente-a como uma ferida da sua própria unidade. 

Cria divisão...

Este é o grande problema; o problema de uma divisão, ou o cavar de uma divisão. Ou numa perspetiva mais positiva é o desafio de caminhar na unidade que está aqui em casa.

Esta divisão será o primeiro grande desafio deste novo Papa?

Creio que o Santo Padre tem vários desafios, alguns dos quais têm tido, até, bastante expressão mediática, nos últimos tempos, como a relação com a Inteligência Artificial, na relação da política, e sobretudo, na forma como é que a Igreja continua a ser testemunho vivo do Evangelho. E há ainda outros desafios como a sinodalidade, a construção da comunhão entre as Igrejas. 

Este problema com a Fraternidade já é, aliás, antigo.

É uma questão que está, digamos, há 50 anos, talvez um pouco mais, sem uma resolução evidente. Já se deram passos de maior rutura, já se deram passos de maior proximidade com algumas destas comunidades, que têm dificuldade, ou mesmo se recusam, a acolher a grande visão de Igreja que se materializou no Concílio Vaticano II.

Mas agora com o Papa Leão a situação agravou-se.

Este problema não começa com o Papa Leão, pois é um dossiê que vem, ao limite, desde Paulo VI, pois a Fraternidade foi instituída em 1970. Sabíamos que este sendo um dossiê aberto, era um dossiê que, a algum momento, migraria também para as mãos do Papa Leão. Neste caso, não foi por ação do Papa, mas da própria fraternidade, que se perspetiva chegar a este ponto de maior tensão. 

E esse ponto de maior tensão pode provocar um cisma?

À data em que falamos, mais do que falar do que é que o Papa ou a Santa Ceia vão fazer, a grande questão é saber o que é que a Fraternidade quer fazer. Este é o ponto. Porque falamos antes das anunciadas consagrações, mas elas ainda não aconteceram.

Mas os responsáveis da Fraternidade já anunciaram até os nomes dos quatro bispos que pretende consagrar mesmo sem permissão do Papa. Se avançarem com esta pretensão, criam, de facto, um problema dentro da Igreja Católica?

A essa resposta, obviamente, o Santo Papa é sempre soberano e os conselheiros que mais próximo dele trabalham neste dossiê. Cá estaremos para acompanhar e suportar o Papa no que quer que ele venha a decidir. Posso apenas, por analogia, voltar ao que aconteceu em 1988, quando quatro bispos foram ordenados sem mandato apostólico do Papa da altura, João II. De facto, ao abrigo do Direito Canónico, a definição de Cisma decorre de um ato de desobediência ao Papa. E, portanto, aqueles que participam, quer ordenando, quer sendo ordenados, incorrem em penas canónicas de excomunhão. 

É uma pena dura que reflete a gravidade da situação?

No Direito Canónico estas penas têm uma ação terapêutica. Isto é, não querem ser, por si, punitivas. São penas duras, e que ferem muito a Igreja. É uma perturbação, uma tristeza na comunhão inclusiva, mas não querem ser a última palavra. Tendo de ser aplicadas, querem ser uma espécie de convite a regressar a uma certa normalidade. E creio que este é um horizonte que devemos sempre conservar, que é, com muitos percalços, o horizonte é sempre da unidade, na comunhão, na Igreja, sob um só sucessor de Pedro, que é o Papa.

E isso é aquilo que a Igreja sempre procura, às vezes com medidas mais, às vezes assim, assertivas, outras vezes com medidas mais brandas, mas este é sempre o fim, veremos o que é que acontecerá.

A Fraternidade rejeita os princípios do Concílio do Vaticano II, incluindo a liberdade religiosa, o diálogo inter-religioso e a missa nova. Acha que vai ser possível sanar todas estas diferenças?

A questão litúrgica, que é normalmente aquela que aparece de forma mais evidente, parece-me ser a expressão de uma dissidência; de formas diferentes de ver e de situar a Igreja no mundo contemporâneo. A liturgia é algo importante, mas é também a expressão visível de diferentes perspetivas, sobre o que é que é a Igreja, a forma da presença da Igreja no mundo, nomeadamente na relação com a política e também da liberdade religiosa e na forma como se convive com outros cristãos e até crentes de outras religiões. Ou seja, a forma da Igreja se posicionar no mundo contemporâneo é o eixo deste debate e desta tensão.

Na sua opinião será possível uma aproximação?

Olhando para o que foram estes 30, 40, 50 anos, foi possível em alguns momentos aproximar posições em alguns destes dossiês. Também reconheço que não em todos. Mas, depois, por outras dinâmicas tende-se a extremar outras vezes as posições. E andamos um bocadinho neste movimento quase de fole que nos diz que alguma aproximação é possível, mas depois são tomadas decisões como esta que tendem, outra vez, a causar afastamento.

Há aqui uma grande questão que é a questão da visão tradicionalista da Igreja. Na Fraternidade as missas são em latim, o padre está de costas para os fiéis, as mulheres usam véu. E este tipo de missa está a ganhar adeptos pelo mundo, nomeadamente em França e nos EUA.  Esta corrente tradicionalista está a ganhar força?

Bom, não sei dizer se está a ganhar força, sinceramente. Provavelmente, em nalguns campos estará, noutros não estará. Mas é importante dizer que a missa em latim nunca foi abolida na igreja. Aqui não está em causa a questão da missa em latim, mas sim uma diferente perspetiva do que é que a Igreja deve ser, como é que ela deve estar, o é que ela deve assumir... 

Mas isso não se reflete, também, na forma como é dada a missa? 

Claro.

Esta missa não é o símbolo desta divisão? 

É o símbolo, sem dúvida. Mas há grupos que celebram com Vetus Ordo (missa tridentina) e estão em plena comunhão com Roma. O espaço da Igreja Católica é um espaço de uma imensa diversidade. A Igreja é uma mãe que tem filhos muito diferentes na maneira de rezar, mas tem-nos com seus filhos. Existe uma banda larga das possibilidades de ser católico e há alguma expressão litúrgica mais ligada a costumes tradicionais ou antigos, que dentro de determinadas balizas estão em plena comunhão com a Santa Sé, com o Papa e com o Roma. 

Mas no caso da Fraternidade não estão nessa comunhão plena como o Papa?

No caso, em particular, desta comunidade, não. Por isso digo que a questão não é apenas litúrgica e vai além. Há limites de tolerância, como uma desobediência explícita ao Papa, numa questão de grande gravidade sacramental, como é uma ordenação de bispos. 

Como é que é, ou tem sido, a relação do patriarcado com a Fraternidade, que acaba de inaugurar uma nova capela em Lisboa?

Tanto quanto eu saiba, do ponto de vista institucional, não existe nenhuma relação e do ponto de vista pastoral, muito menos. 

A igreja portuguesa não vê com agrado este tipo de instituição? 

Penso que a Igreja não verá com agrado aquilo que gera divisão e sectarismo. E não é específico de Lisboa, Porto, Londres, Madrid, Nova Iorque, Roma. Não é uma questão de diocese. Mas aquilo que coloca em causa um dom de Deus à sua Igreja que é a unidade gera, como já referi, uma enorme ferida e isso tem reflexo do ponto de vista de relações institucionais.

Estas missas nem sempre foram autorizadas pelos Papas. Os responsáveis da Igreja em Portugal nunca tentaram impedir estas missas?

Claro que não. Vivemos numa sociedade livre, plural e democrática.

Mas se vai contra as ordens de Roma…

Os fiéis sabem qual é o posicionamento da Fraternidade face à relação com a igreja, com o Papa e com todos os bispos que em comunhão com o Papa. Isso é público e notório. A Igreja tem sido clara e tem havido uma enorme vontade de refazer a comunhão. Houve inúmeros gestos de boa vontade, nomeadamente do Papa Bento XVI e do Papa Francisco, mas não levaram à integração plena da fraternidade na igreja católica.

E agora estão à beira da rutura.

Se se consumar, a consagração de bispos é de facto um ponto grave. Temos de ser claros e a Fraternidade tem de estar consciente disso. 

Há bocado falou no facto de haver movimentos completamente legítimos ou fiéis que também são mais adeptos da tradição. A Igreja lida bem com esta divisão, mesmo em Portugal, entre os mais tradicionalistas e os mais progressistas?

Não discutindo os conceitos, a Igreja é como uma família; às vezes temos filhos que são assim, outros que são assado, e temos de tentar chegar à unidade e vida de família. É sempre fácil? Não, mas é possível. 

Essa dificuldade de união não se tende a agravar caso se assista a um cisma na próxima semana? 

Estamos num Mundial de futebol e numa equipa há quem jogue à defesa, há quem jogue a avançado, há quem jogue no meio-campo, há quem jogue na ala esquerda, há quem jogue na ala direita. Mas dentro das quatro linhas de jogo. Fora das quatro linhas de jogo, não é possível jogar. E a Igreja é um campo de jogo muito grande, há muitas posições onde é possível jogar. Mas se eu quiser correr para o lado - não vou dizer qual - para lá da linha, posso correr, mas já não estou a jogar o jogo daquela equipa.

 

Fonte: TVI

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