Resumo
O conflito no Médio Oriente está a ter um impacto significativo na economia global, com o Banco Mundial a prever que o crescimento económico mundial em 2026 seja de apenas 2,5%, o nível mais baixo desde a pandemia da COVID-19. A escalada das tensões na região está a causar preços mais altos da energia, inflação crescente, custos de financiamento mais elevados e perturbações no comércio internacional, afetando quase todas as regiões do mundo. O relatório alerta que as economias em desenvolvimento estão a enfrentar uma desaceleração, com um crescimento esperado de 3,6% em 2026, contra os 4,4% registados em 2025. Além disso, a crise energética está a pressionar os preços do petróleo e dos fertilizantes, o que pode aumentar a inflação e representar riscos adicionais para países importadores líquidos desses produtos, como vários Estados africanos.
A instituição financeira internacional alerta que a combinação entre preços mais elevados da energia, inflação crescente, custos de financiamento mais elevados e perturbações no comércio internacional está a afectar praticamente todas as regiões do mundo.
De acordo com o relatório, cerca de dois terços das economias mundiais viram as suas perspectivas de crescimento serem revistas em baixa relativamente às projecções divulgadas no início do ano. Embora a economia global possa recuperar para 2,8% em 2027, esse desempenho continuará abaixo da média observada durante a década de 2010.
Países Em Desenvolvimento Voltam A Enfrentar Uma Década Perdida
Uma das conclusões mais preocupantes do relatório refere-se aos países em desenvolvimento.
Segundo o Banco Mundial, o crescimento destas economias deverá desacelerar para 3,6% em 2026, contra 4,4% registados em 2025. Embora seja esperada uma recuperação para 4,2% em 2027, a instituição alerta que muitos países continuam sem conseguir reduzir a distância que os separa das economias mais avançadas.
O relatório conclui que, até 2028, os países em desenvolvimento — excluindo China e Índia — terão acumulado praticamente uma década sem progressos significativos na convergência dos rendimentos per capita em relação às economias desenvolvidas.
O Presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, reconhece que os países em desenvolvimento enfrentaram sucessivos choques ao longo da última década, desde a pandemia às crises geopolíticas, passando pela inflação e pelo aumento dos encargos da dívida.
Petróleo E Fertilizantes Tornam-Se Novos Focos De Pressão
O principal canal de transmissão da crise para a economia mundial continua a ser a energia.
Segundo o Banco Mundial, o encerramento do Estreito de Ormuz provocou fortes perturbações nos mercados energéticos internacionais. O relatório prevê que o petróleo Brent registe um preço médio de US$ 94 por barril em 2026, cerca de 36% acima da média observada em 2025, assumindo que as perturbações mais severas sejam ultrapassadas durante o mês de Julho.
A situação é agravada pela subida dos preços dos fertilizantes, uma consequência indirecta das perturbações energéticas, que poderá repercutir-se nos preços dos alimentos e aumentar as pressões inflacionistas em diversas regiões do mundo.
Para países importadores líquidos de combustíveis e fertilizantes, como muitos Estados africanos, estas tendências representam riscos adicionais para a segurança alimentar, estabilidade macroeconómica e equilíbrio das contas externas.
Inflação Volta A Ganhar Força
Depois de vários anos de desaceleração gradual, a inflação mundial poderá voltar a acelerar.
O Banco Mundial estima que a inflação global atinja 4% em 2026, acima dos 3,3% registados em 2025.
A evolução poderá obrigar vários bancos centrais a manter políticas monetárias restritivas durante mais tempo, prolongando custos elevados de financiamento para governos, empresas e famílias.
Para economias altamente endividadas, esta combinação entre crescimento mais fraco e custos financeiros mais elevados representa um desafio particularmente complexo.
Cenário Adverso Pode Levar Crescimento Mundial Para Apenas 1,3%
Apesar das previsões já serem relativamente pessimistas, o Banco Mundial alerta para riscos ainda mais severos.
Segundo o relatório, caso as perturbações energéticas se agravem e sejam acompanhadas por episódios de stress financeiro internacional, o crescimento económico mundial poderá cair para apenas 1,3% em 2026. Simultaneamente, a inflação global poderá subir para 4,4%.
Um cenário desta natureza aproximaria a economia mundial de uma situação de estagnação económica combinada com inflação elevada, uma combinação particularmente difícil de gerir para os decisores políticos.
África Subsaariana Entre As Regiões Mais Vulneráveis
O relatório identifica a África Subsaariana como uma das regiões particularmente expostas aos efeitos indirectos da crise.
Segundo o Banco Mundial, os principais impactos deverão ocorrer através da inflação, sobretudo nos preços dos alimentos, impulsionados pelo aumento dos custos dos fertilizantes e pela subida dos preços energéticos.
Para economias como Moçambique, a evolução dos preços internacionais do petróleo, dos fertilizantes e dos alimentos continuará a ser determinante para a trajectória da inflação, dos custos de produção agrícola e da capacidade de recuperação económica.
Banco Mundial Prepara Até US$ 100 Mil Milhões De Apoio
Perante a deterioração das perspectivas económicas, o Banco Mundial anunciou um pacote de resposta financeira de grande dimensão.
A instituição disponibiliza imediatamente entre US$ 50 mil milhões e US$ 60 mil milhões através de instrumentos já existentes, incluindo cerca de US$ 25 mil milhões de financiamento previamente estruturado.
Os recursos destinam-se a apoiar redes de protecção social, reforçar a capacidade fiscal dos governos e disponibilizar liquidez a empresas e produtores agrícolas afectados pelos efeitos da crise.
Caso o conflito e as suas consequências económicas persistam, o Banco Mundial afirma estar preparado para aumentar o apoio para um montante entre US$ 80 mil milhões e US$ 100 mil milhões ao longo dos próximos 15 meses.
Crise Reforça Necessidade De Reformas
Apesar do cenário adverso, o Banco Mundial considera que a actual conjuntura também oferece uma oportunidade para acelerar reformas estruturais.
O economista-chefe adjunto da instituição, Ayhan Kose, defende que os países devem aproveitar este momento para fortalecer os seus quadros de políticas públicas, investir em infra-estruturas, melhorar o ambiente de negócios e mobilizar capital privado para criar emprego e estimular o crescimento económico.
A mensagem central do relatório é clara: o conflito no Médio Oriente poderá transformar-se num choque económico global com efeitos comparáveis aos mais severos episódios da última década. A forma como governos, bancos centrais e instituições multilaterais responderem a este desafio será determinante para evitar que a actual desaceleração evolua para uma crise económica mais profunda e prolongada.
Fonte: O Económico
Descubra mais de Revista Tempo
Inscrever-se para receber as últimas mensagens enviadas para o seu e-mail.


