No dia 1 de julho de 2026, a Sony anunciou que vai parar de produzir discos de jogos em janeiro de 2028. Assim se fecha um capítulo com décadas: desde a primeira PlayStation, em 1994, que os jogos vinham num disco que se metia na consola. O anúncio caiu como uma bomba na comunidade de jogadores mas, quando se olha para os números, percebe-se que a Sony não decidiu isto no vácuo. A pergunta que fica é simples: quantas pessoas ainda compram, de facto, jogos em disco?
Aqui está a parte curiosa. Uma sondagem de junho de 2026 mostrou que mais de metade dos jogadores diz preferir os discos físicos. O problema é que a carteira conta outra história. As vendas de jogos físicos encolhem ano após ano, e o fosso entre o que as pessoas dizem e o que compram é enorme.

Nos Estados Unidos, o retrato é quase brutal: em 2025, as vendas de jogos físicos novos caíram 11% e renderam 1,5 mil milhões de dólares, o valor mais baixo desde que há registos, e o décimo sétimo ano seguido de queda. Como o total gasto em jogos foi de 52,4 mil milhões, o físico representa hoje uns meros 2,9% de tudo o que se gasta. Menos de três em cada cem euros.
Se há sítio onde o disco resiste mais, é a Europa, e vale a pena olhar para os nossos números. Em 2023, a divisão europeia era de 85% digital para 15% físico. No ano seguinte, o rumo acelerou: venderam-se cerca de 188 milhões de jogos de consola e PC, dos quais mais de 131 milhões em digital (uma subida de 15%) e apenas 56 milhões em físico, uma queda de 22% de um ano para o outro.
Por país, a fotografia é ainda mais clara. Na Alemanha, 70% das compras já eram digitais em 2025; no Reino Unido, o digital rondava os 90% já em 2022. E a própria Sony revelou que, no seu último ano fiscal, 78% dos jogos vendidos para PS5 e PS4 foram descarregados, chegando aos 85% no trimestre até março de 2026. O disco tornou-se, para a Sony, uma fatia pequena de um negócio gigante.
Antes de dares o físico como morto, há um senão que conta muito. Quando se olha só para os jogos vendidos nos dois formatos e não para os digitais que nem sequer têm versão em disco, como muitos indies, DLC e catálogo antigo, o físico resiste bem melhor na Europa. Os jogos novos da Nintendo chegam a vender 80% em disco por cá, e blockbusters de um jogador, como o Astro Bot, foram cerca de 60% físicos na Europa. Ou seja, para os grandes jogos que se jogam sozinho, muita gente continua a preferir a caixa na prateleira. É o mar de conteúdo digital-only que faz a estatística geral parecer mais esmagadora do que é.
A matemática é impiedosa. Fabricar e distribuir discos custa dinheiro para uma fatia cada vez menor de clientes. E há um pormenor extra: a consola precisa de um leitor de discos, que também custa e encarece o aparelho. Tirar o leitor ajuda a baixar o preço e tudo aponta para uma futura PlayStation 6 só digital e mais barata. A Sony até nem foi a única: no mesmo dia, a Microsoft apresentou um programa para passar jogos de disco para digital, sinal de que a próxima Xbox segue o mesmo caminho.

Fica o reparo que move os fãs, e não é só nostalgia nem coleção. Quando “compras” um jogo digital, não passas a ser dono dele recebes uma licença de utilização, que a empresa pode revogar se os direitos mudarem. Já aconteceu com filmes e jogos. Um disco é teu para sempre; um download é teu enquanto deixarem. E talvez seja essa, mais do que o cheiro da caixa nova, a verdadeira perda.
Fonte: Zero Zero






