Os mercados energéticos globais enfrentam uma nova fonte de pressão num contexto já marcado por disrupções significativas: o provável regresso do fenómeno climático El Niño, que poderá intensificar tensões entre oferta e procura nos próximos meses.De acordo com a Reuters, os principais serviços meteorológicos apontam para o estabelecimento de um El Niño forte já a partir do próximo mês, com impactos relevantes sobre padrões de temperatura e precipitação à escala global.Este desenvolvimento ocorre num momento particularmente sensível, em que os fluxos energéticos globais continuam afectados pelo bloqueio do Estreito de Ormuz e por danos em infra-estruturas energéticas no Médio Oriente.O El Niño caracteriza-se pelo aquecimento anómalo das águas do Pacífico, fenómeno que tende a provocar ondas de calor intensas em várias regiões, especialmente na Ásia.Dados recentes indicam que as temperaturas da superfície do oceano já atingiram níveis historicamente elevados, com modelos climáticos a apontarem para uma intensificação do fenómeno nos próximos meses.Segundo a Organização Meteorológica Mundial, existe “elevada confiança no início do El Niño, seguido de uma intensificação adicional”, sinalizando um período prolongado de impactos climáticos.A Ásia deverá estar no centro dos efeitos económicos do fenómeno, dada a sua elevada exposição a ondas de calor e o peso significativo no consumo global de energia.A região representa cerca de 53% da procura mundial de electricidade, sendo altamente dependente do carvão para geração energética — cerca de 70% na Índia e mais de 50% na China.Com temperaturas mais elevadas, a procura por sistemas de refrigeração deverá aumentar substancialmente, impulsionando o consumo de energia e, consequentemente, a procura por carvão e gás natural.O impacto do El Niño não ocorre isoladamente. A conjugação com factores geopolíticos — nomeadamente o conflito no Médio Oriente — cria um cenário de pressão acumulada sobre os mercados energéticos.A disrupção de fluxos de petróleo e gás, combinada com um aumento da procura energética induzido por factores climáticos, poderá amplificar a volatilidade dos preços e agravar os riscos de escassez em determinados mercados.Esta interacção entre clima e geopolítica reforça a complexidade do actual ambiente energético, onde múltiplos choques actuam simultaneamente sobre o sistema.Um dos efeitos mais imediatos do El Niño poderá ser o reforço do papel do carvão, particularmente na Ásia.Apesar de uma tendência recente de redução das exportações — com a Indonésia a registar uma queda de cerca de 7% nas vendas para a região em 2026 — a expectativa é de uma recuperação da procura, impulsionada pelo aumento do consumo eléctrico.Este movimento evidencia uma tensão estrutural entre a transição energética e as necessidades imediatas de segurança energética, sobretudo em contextos de choque.O actual momento coloca os mercados energéticos numa fase de elevada sensibilidade, onde factores climáticos e geopolíticos convergem para criar um ambiente de incerteza e volatilidade.A evolução do El Niño, em paralelo com os desenvolvimentos no Médio Oriente, será determinante para a trajectória dos preços da energia e para o equilíbrio entre oferta e procura nos próximos meses.Num sistema já pressionado, a margem para absorver novos choques é limitada — e o risco de disrupções adicionais permanece elevado.
Fonte: O Económico



