Irene Filipe Boane, de 28 anos, começou na profissão de sapateira e engraxate aos 19. Resolveu abraçar uma profissão pouco habitual para uma mulher, como muitos viram a escolha. A decisão veio após a conversa em família quando assumiu a loja do pai para conseguir o sustento e dar continuidade os seus estudos.
Consertar com perfeição
No início, teve vários desafios de aceitação no mercado. Muitos clientes recusavam seus trabalhos. Ela mesma lembra teve de estragar vários sapatos até aprender a consertar com perfeição. E hoje, diz ter um sonho.
“O meu sonho é de expandir mais essa atividade de sapataria, principalmente para as mulheres. As mulheres têm tido muito complexo em relação a essa atividade porque é raro ver mulheres nessa área fazendo essa atividade. Então, o meu maior sonho é criar, pelo menos em cada avenida da cidade de Maputo, ter lá sempre uma mulher a engraxar os sapatos. Até agora, somos três. Uma fica no Palácio dos Casamentos e a outra no Jardim Tunduru comigo. E, futuramente, já passar a fabricar sapatos, sandálias também, com a minha marca Irene Nem.”
Influenciada pelo pai, Irene Filipe Boane aprendeu que a pontualidade é importante para a confiança com os clientes. Ela, neste momento, aguarda a defesa para o curso de Agropecuária pela Universidade Pedagógica de Maputo, mas diz que mesmo concluindo o curso não irá abandonar a sapataria.
Sonho de um Pai
Seu pai e mentor, Filipe Fenias Boane, diz que no início a sociedade não via com bons olhos a iniciativa de convidar a filha para ser sapateira.
“O que me motivou é porque eu não tinha recurso para lhe dar mais dinheiro para poder entrar em outras escolas. Ela sempre dizia: ‘pai, eu peço que me dê alguns valores para fazer um negócio, arranja me emprego’. Eu disse: olha, arranjar emprego não é fácil, mas o que eu tenho é emprego de engraxar sapatos. Então, foi muito difícil. Quase quatro meses a pedir, a pensar que, se calhar, eu podia estar a mudar, arranjar um valor para que ele iniciasse um negócio da preferência dela. Mas eu disse: olha, minha filha, vamos engraxar sapatos.”
Diante dos sonhos, Irene tende a inovar para ter mais clientes na sapataria. Ela juntou se as redes sociais através da referência IRENE concerto IC, e diz ser uma ferramenta indispensável.
“É onde eu faço a publicidade dos meus trabalhos, faço lançamento de fotos. As pessoas vão vendo sempre o que eu faço, o que eu tenho como novidade. Tenho tido muitos clientes que estão lá na Matola, uma vez que eles não conseguem sempre estar aqui na cidade de Maputo, o que eles fazem? Eles trazem um plástico de sapatos de toda semana. Então, eles têm que limpar o sapato segunda, terça, quarta, quinta, sexta. Também já tive uma cliente que já saiu de Xai-xai porque viu uma reportagem minha. Então veio para aqui para experimentar e gostou, graças a Deus.”
Contextos e aspirações
Este ano, o tema do Dia Internacional da Juventude “Contextos Diferentes, Aspirações Comuns” dedica atenção especial aos jovens que vivem em Países Menos Avançados e reconhece os esforços dos jovens que continuam a demonstrar resiliência, liderança e inovação no avanço do desenvolvimento sustentável em suas comunidades.
Celso Ferreira formou-se em Contabilidade e Auditoria com experiência em análise financeira, operações contabilísticas e controlo interno. Mas sua história pessoal com a miopia, que atinge grande parte das pessoas o inspirou a abrir o próprio negócio utilizando os conhecimentos que já tinha de gerenciamento.
Ele conta como nasceu a ideia de criação de armações de óculos integradas no projeto Zambezi Eyewear, uma iniciativa focada no desenvolvimento Eyewear sustentável utilizando matérias-primas locais.
Criar óculos e empregos jovens
“Eu sofro de vista. Sou míope como quase 40% da população tem problemas de visão. Então, tinha três óculos de marcas diferentes. Achava o máximo ter três marcas de óculos diferentes. Então, ao tirar uma foto, veio-me uma ideia na mente, a questionar. Por que não fazes os teus próprios? Então, dali nasceu o bichinho de investigar como é que poderia fazer isso. Como é que poderia criar óculos em Moçambique com matéria-prima local. E foi assim que surgiu a ideia.”
Concretizada a ideia, Ferreira tem sonhos por alcançar. Ver o projeto além da fronteira de Moçambique, gerar emprego para mais jovens no ciclo da cadeia de valores, assim como treiná-los para serem independentes.
“Poder capacitar, formar cada vez mais pessoas e especializar as pessoas nesta área. Ver o nosso produto chegar a todo o mundo, precisamente aqueles países que Moçambique já tem acordos, onde existem já isenções de tarifas alfandegárias, já existem acordos bilaterais. Então, o nosso sonho é ver que o nosso produto consiga “furar” esses mercados. África do Sul, Angola, Portugal, Brasil, França, efetivamente, Moçambique.”
Sob lema Contextos Diferentes, Aspirações Comuns, a efeméride oferece uma plataforma para que governos, organizações de juventude, entidades das Nações Unidas, sociedade civil, meio acadêmico e outras partes interessadas promovam o diálogo, fortaleçam parcerias e destaquem iniciativas lideradas por jovens que contribuam para sociedades mais inclusivas, pacíficas e sustentáveis.
* Ouri Pota é o correspondente da ONU News em Maputo.
Fonte: ONU




