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Estas irmãs querem estudar fora e a mãe não pode pagar. A solução está no lixo que todos fazemos em Portugal

Todos os dias, às nove da noite, Ariela e Alice descem as escadas do prédio onde vivem, em Vila do Conde, de saco na mão. Percorrem o condomínio porta a porta para recolher as garrafas que os vizinhos lhes deixam à entrada de casa. Esvaziam os sacos, deixam outros para a recolha do dia seguinte e regressam. Ao fim de semana, o percurso estende-se a restaurantes de Vila do Conde, Porto, Gaia e Póvoa de Varzim que, entretanto, passaram também a guardar-lhes garrafas e latas. 

Para a maioria das pessoas, aquelas embalagens acabam no ecoponto. Para Ariela e Alice, fazem parte de uma conta que conhecem de cor: devolver 120 mil embalagens através do sistema VOLTA, o modelo de depósito e reembolso que restitui 10 cêntimos por cada garrafa ou lata elegível. É esse o número que calcularam ser necessário para reunir o dinheiro suficiente para financiar os dois intercâmbios com que sonham há vários anos. Alice quer conhecer a Coreia do Sul. Ariela escolheu os Estados Unidos.

A ideia, no entanto, começou muito antes da primeira garrafa ser colocada num saco. Nasceu à mesa de casa, durante uma conversa em que a mãe, Karina, decidiu explicar às filhas que, apesar de conhecer o sonho de ambas, não tinha capacidade financeira para suportar os dois programas.

A paixão de Alice pela Coreia do Sul começou muito antes de ouvir falar em intercâmbios. Primeiro através dos doramas, depois do K-pop. Aos poucos, nasceu a curiosidade por conhecer um país que até então existia apenas através de um ecrã. Quando Karina começou a ver anúncios de escolas que organizavam programas de intercâmbio para a Coreia do Sul a partir dos 10 anos, decidiu lançar uma pergunta à filha.

"Perguntei-lhe se teria coragem de fazer um intercâmbio de três semanas, sozinha, na Coreia. Disse-me logo que sim. Expliquei-lhe que talvez aquele fosse o melhor caminho para conhecer o país e ela começou a pesquisar tudo sobre isso", conta à CNN Portugal.

A resposta trouxe consigo uma conversa inevitável. Cada intercâmbio custava cerca de seis mil euros. Ariela também queria fazer um programa semelhante, mas nos Estados Unidos. No total, seriam perto de 12 mil euros.

"Eu disse-lhes: 'Infelizmente, a mãe não tem como pagar 12 mil euros. Sou eu sozinha para cuidar das três, para gerir todas as nossas economias e todas as despesas'", lembra.

Apesar de não querer esconder às filhas as limitações financeiras da família, Karina também não queria que a conversa fosse entendida como o fim do sonho.

"Também lhes disse: 'Nós vamos encontrar uma solução para chegar lá'. Sempre lhes ensinei que sonhar grande ou sonhar pequeno dá o mesmo trabalho e elas acreditam muito nisso", afirma.

A solução acabou por surgir da filha mais nova.

As duas irmãs já tinham o hábito de guardar as garrafas usadas em casa para as devolver nas máquinas do sistema VOLTA. Sempre que viam uma embalagem abandonada na rua, também a apanhavam.

"Eu dizia-lhes que, além de estarem a juntar dinheiro para alguma coisa que quisessem, também estavam a ajudar o planeta", conta.

A partir daí, o que até então era apenas uma pequena poupança transformou-se, de um dia para o outro, num projeto com uma meta definida: devolver 120 mil embalagens até junho de 2027.

Depois de decidirem que as garrafas seriam a forma de financiar os dois intercâmbios, faltava perceber como chegariam às 120 mil embalagens. A resposta começou dentro do próprio condomínio.

"A única forma que eu encontrei de ajudar foi imprimir os papéis para elas não terem de escrever tudo à mão", conta Karina. 

A mãe preparou vários panfletos para que as filhas distribuíssem um por cada apartamento, juntamente com um pequeno saco. Quem quisesse apoiar o projeto só tinha de guardar as embalagens identificadas com o símbolo VOLTA e colocá-las no saco até às nove da noite. A essa hora, Ariela e Alice passariam para as recolher.

A resposta surgiu logo no primeiro dia. "O vizinho da porta ao lado foi o primeiro a deixar uma garrafa. A Alice chorou quando a viu. E, até hoje, é ele quem nunca falha. Todos os dias deixa garrafas para elas."

Karina acredita que aquele primeiro gesto teve um significado muito maior do que o valor da embalagem. Foi o momento em que as filhas perceberam que não estavam sozinhas e que havia pessoas dispostas a ajudá-las a transformar a ideia em realidade.

Desde então, a recolha tornou-se um ritual diário. Todos os dias, à mesma hora, as duas irmãs descem as escadas do prédio, percorrem o condomínio, esvaziam os sacos deixados pelos vizinhos e substituem-nos por outros para a recolha seguinte. Entretanto, além das garrafas, começaram também a aparecer pequenas mensagens de incentivo escritas pelos moradores.

O projeto, porém, rapidamente ultrapassou as paredes do condomínio. Primeiro foi um restaurante de uma amiga da mãe que começou a guardar-lhes garrafas e latas. Depois juntou-se outro. E mais outro. Hoje são vários os estabelecimentos entre Vila do Conde, Porto, Gaia e Póvoa de Varzim que reservam embalagens para que Ariela e Alice as recolham ao fim de semana.

"Todas as semanas aparecem novos restaurantes a querer ajudar. Eu passo por lá ao sábado ou ao domingo para ir buscar aquilo que foram guardando", explica a mãe.

Foi precisamente numa dessas recolhas que as duas irmãs viveram o momento mais marcante desde que o desafio começou. "Num restaurante conseguimos mais de 500 garrafas. Só as embalagens do sistema VOLTA deram mais de 30 euros. Elas sentiram-se no céu. Diziam que estavam ricas porque havia sacos por todo o lado", conta Karina, entre risos.

A família definiu como objetivo recolher, em média, 300 embalagens por dia. Ao 13.º dia do projeto já tinham ultrapassado as 1.600, um resultado que lhes deu confiança para acreditar que a meta, apesar de ambiciosa, pode ser alcançada.

Entretanto, Karina percebeu que o projeto podia ter um impacto maior do que simplesmente juntar dinheiro na vida da filha mais nova. Alice sonha um dia estudar em Harvard e sabe que universidades como essa valorizam não apenas o percurso académico, mas também o envolvimento em iniciativas próprias e projetos com impacto na comunidade. Foi por isso que a mãe decidiu criar uma página nas redes sociais para documentar todo o percurso.

"Pensei que fazia sentido registar. Tenho a certeza de que isto também vai contribuir para a carreira académica que ela quer construir", explica.

Ao longo da conversa, Karina volta várias vezes ao mesmo ponto: mais importante do que o resultado final é aquilo que as filhas estão a aprender: "O que me dá mais orgulho é vê-las tão novas e já com esta vontade de fazer acontecer. Elas não têm vergonha de apanhar uma garrafa ou uma lata da rua, de parar, de a recolher e de a ir trocar. Muitas adolescentes teriam vergonha, mas elas não têm."

É precisamente essa ausência de vergonha que, na opinião da mãe, faz toda a diferença. "Elas perceberam que, se querem muito uma coisa, têm de correr atrás dela", considera.

À medida que a história começou a ser partilhada nas redes sociais, também aumentou o número de pessoas interessadas em ajudar. O projeto soma já milhares de seguidores no Instagram e no TikTok e, diariamente, chegam mensagens de pessoas que oferecem garrafas, indicam restaurantes dispostos a guardá-las ou perguntam onde podem entregá-las.

Desde o início que Karina esperava que a ideia das filhas pudesse inspirar outras pessoas, mas admite que não imaginava a rapidez com que o projeto cresceria. À CNN Portugal, conta que começou a receber mensagens de pessoas que decidiram reciclar mais, envolver os filhos ou até avançar com projetos que tinham deixado pelo caminho.

"Eu acredito muito na história que elas estão a construir e no impacto que pode ter. Temos recebido mensagens de pessoas que decidiram correr atrás de um intercâmbio, de uma faculdade ou de um sonho que tinham deixado de lado depois de verem duas meninas tão novas fazer isto", afirma.

Houve até quem sugerisse criar uma campanha de angariação de fundos para acelerar o caminho até aos intercâmbios, mas a mãe recusou essa possibilidade. Explica que, desde o primeiro dia, fez questão de que o dinheiro resultasse exclusivamente da reciclagem das embalagens.

"Uma seguidora de Inglaterra sugeriu criar uma vaquinha para quem quisesse ajudar de outros países. Eu disse que não queria doações em dinheiro. Queria mesmo que o valor viesse da troca das garrafas", conta.

A única exceção que aceita é para quem vive em países onde não é possível entregar diretamente as embalagens às duas irmãs. Ainda assim, pede que o gesto continue ligado à reciclagem: "O que eu disse foi: troquem as garrafas aí, enviem apenas o valor correspondente e digam quantas garrafas reciclaram. O importante é que essas garrafas sejam realmente recicladas. Quero que elas cheguem às 120 mil através da reciclagem e não do dinheiro."

Quando Alice lançou a ideia de juntar garrafas para pagar o intercâmbio na Coreia do Sul, o plano era fazê-lo sozinha. Ariela, no entanto, não demorou a decidir que queria fazer parte do desafio.

"Ela abraçou a irmã e disse que também queria participar. Também sonha fazer um intercâmbio de inglês, mas nos Estados Unidos. Disse logo que ia ajudar", conta a mãe. 

Hoje, as tarefas dividem-se de forma quase automática. Nos dias em que Ariela tem treinos de jiu-jítsu, Alice faz a recolha sozinha. Nos restantes, percorrem juntas o condomínio, recolhem os sacos deixados pelos vizinhos e levam as embalagens para os pontos de devolução. O objetivo é comum e, garante a mãe, nunca houve discussão sobre a forma de o alcançar.

"Elas são muito justas uma com a outra. Mesmo quando uma não consegue ir buscar as garrafas, as duas fazem questão de levar tudo para a troca", refere.

A experiência, diz a mãe, acabou por lhes ensinar muito mais do que imaginava. "Eu sempre fui muito realista com elas em relação às limitações que temos por eu ser mãe sozinha. A Ariela fala muito nisso. Diz que correr atrás dos sonhos e procurar oportunidades é a única forma de conseguirmos alcançar aquilo que queremos."

A própria Ariela resume aquilo que sente ter aprendido desde que começaram este desafio: "As coisas não caem do céu. É muito importante aprender a batalhar e não ter vergonha de fazer aquilo que for preciso para realizar um sonho."

Já Alice prefere deixar uma mensagem para quem acompanha o projeto: "As pessoas deviam sonhar e acreditar. Não só as crianças, também os adultos. Devem correr atrás dos próprios sonhos e não se limitar."

Ainda faltam mais de 118 mil garrafas para chegar ao objetivo traçado até junho de 2027, mas, quando esse dia chegar, a família já sabe como quer assinalá-lo.

"Vamos fazer uma grande comemoração", garante a mãe, que conta que as filhas já celebraram os primeiros 10 mil seguidores no TikTok com um bolo.

 

Fonte: TVI

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