Questões-Chave
Moçambique passou a dispor de uma nova obra dedicada à análise do ambiente de negócios nacional, numa fase em que o País procura transformar os recursos naturais, os grandes investimentos e a localização estratégica dos seus corredores em oportunidades mais amplas para o sector privado.
Intitulada “Ecossistema Empresarial em Moçambique — Um Instrumento Necessário para a Gestão de Negócios”, a publicação é da autoria do analista económico e especialista em desenvolvimento empresarial Bill Afonso.
O lançamento oficial realizou-se a 28 de Julho, no Centro Cultural Português, em Maputo, reunindo empresários, profissionais do sector financeiro, académicos, consultores e estudantes. A agenda pública do evento apresentou a obra como uma reflexão sobre o crescimento sustentável das empresas no mercado moçambicano, abordando matérias como transformação digital, ética corporativa, compliance, inovação e articulação entre o Estado, sector privado e academia.
Mais do que sistematizar conceitos gerais de gestão, o livro procura construir uma leitura empresarial assente nas particularidades económicas, sociais e institucionais de Moçambique.
Bill Afonso sustenta que os gestores nacionais necessitam de instrumentos que permitam compreender as relações entre empresas, instituições públicas, sistema financeiro, universidades, grandes projectos, pequenas e médias empresas e mercados regionais.
“Não podemos continuar a depender exclusivamente de modelos desenvolvidos no exterior para realidades diferentes da nossa economia”, afirmou o autor durante a cerimónia.
Conhecimento Empresarial Produzido A Partir Da Realidade do País
A publicação parte do diagnóstico de que uma parcela significativa da literatura utilizada nas universidades, programas de formação e empresas moçambicanas foi concebida a partir de experiências de economias com níveis diferentes de industrialização, estrutura financeira, maturidade institucional e desenvolvimento empresarial.
A utilização de referências internacionais continua a ser indispensável. Porém, o autor defende que esses modelos devem ser interpretados e adaptados às condições concretas do País, onde grande parte das empresas opera com capital limitado, estruturas administrativas reduzidas, elevada informalidade e dificuldades de acesso a financiamento, tecnologia e mercados.
Américo Ubisse, especialista em desenvolvimento empresarial e apresentador da obra, considerou que o livro combina investigação com a experiência prática acumulada pelo autor nos sectores financeiro, bancário, empresarial e académico.
“Esta obra não representa apenas teoria. Representa também a conciliação entre investigação e a experiência prática acumulada pelo autor”, declarou.
A relevância da proposta reside na tentativa de converter experiências dispersas do ambiente empresarial moçambicano num corpo de conhecimento mais estruturado.
A literatura empresarial pode desempenhar uma função semelhante à de outras infra-estruturas de suporte ao investimento: estabelecer conceitos comuns, organizar experiências, registar erros recorrentes e permitir que novos empresários aprendam com trajectórias anteriores, em vez de começarem permanentemente do ponto inicial.
Três Partes Ligam Criação, Crescimento E Responsabilidade Empresarial
A obra está organizada em três grandes componentes.
A primeira analisa a criação, estruturação e definição do posicionamento estratégico das empresas. Aborda a necessidade de compreender o mercado, estabelecer objectivos, desenvolver vantagens competitivas e construir uma estrutura organizacional compatível com a dimensão e as perspectivas do negócio.
A segunda parte concentra-se no crescimento sustentável, financiamento, gestão financeira e geração de valor. A abordagem procura mostrar que o aumento das vendas não significa necessariamente desenvolvimento empresarial quando não é acompanhado por liquidez, controlo de custos, capacidade de investimento e gestão adequada do risco.
A terceira parte trata da ética empresarial, compliance, responsabilidade social, governação corporativa e internacionalização.
Esta organização reflecte uma preocupação central: muitas empresas nascem como resposta a uma oportunidade imediata, mas permanecem dependentes da figura do fundador, sem processos definidos, separação entre património pessoal e empresarial, sistemas de controlo ou mecanismos de sucessão.
Maria Bata, escritora e consultora editorial, resumiu este dilema através de duas perguntas: “As empresas estão a nascer. Mas será que estão a crescer? Será que estão a desenvolver-se?”
A distinção é relevante. Uma empresa pode manter-se activa durante vários anos sem acumular capital, desenvolver competências, melhorar a produtividade ou alcançar capacidade para competir em contratos de maior dimensão.
Megaprojectos Criam Procura, Mas Não Garantem Desenvolvimento Empresarial
O livro é lançado num período em que Moçambique antecipa novos investimentos nos sectores do gás natural, mineração, energia, agricultura, logística e infra-estruturas.
Para Bill Afonso, estas oportunidades poderão produzir prosperidade apenas se o tecido empresarial nacional estiver preparado para participar nas cadeias de fornecimento.
“As oportunidades só produzirão prosperidade sustentável se forem acompanhadas por empresários preparados, gestores competentes, instituições fortes e uma cultura empresarial baseada na ética, estratégia, inovação e boa governação”, defendeu.
A presença de um grande projecto aumenta a procura por alimentação, transporte, construção, manutenção, alojamento, segurança, tecnologias de informação, serviços financeiros, equipamentos e formação. Porém, a existência dessa procura não assegura automaticamente que os contratos sejam conquistados por empresas nacionais.
Os fornecedores precisam de demonstrar qualidade, regularidade, capacidade financeira, segurança no trabalho, certificações, transparência contabilística e cumprimento de prazos. Em determinados sectores, são igualmente exigidos padrões ambientais, sociais, fiscais e de integridade.
A Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2025–2044 reconhece esta necessidade ao defender a integração de produtores e empresas nas cadeias de valor, o processamento local dos recursos e o aumento do valor acrescentado nacional. O documento oficial coloca a industrialização, os corredores de desenvolvimento e a modernização do quadro regulatório entre os instrumentos necessários para ampliar a participação doméstica na economia.
O livro acrescenta a esta agenda uma dimensão interna: mesmo quando o ambiente de negócios melhora, cada empresa necessita de organização suficiente para aproveitar a oportunidade.
Competências Continuam Distantes Das Necessidades Do Mercado
Entre os intervenientes na cerimónia, a educação empresarial foi apresentada como uma das maiores limitações do ecossistema nacional.
João Carlos Gomes, consultor empresarial, considerou que o principal estrangulamento está relacionado com o conhecimento e a formação. Na sua leitura, o sistema educativo ainda não introduz suficientemente cedo competências ligadas ao empreendedorismo, gestão, risco e criação de valor.
“O principal gargalo tem a ver com conhecimento e educação. Desde cedo ainda não ensinamos suficientemente como empreender”, afirmou.
Esta leitura converge com o diagnóstico do Banco Mundial e da Corporação Financeira Internacional sobre o sector privado moçambicano. O estudo identificou uma diferença entre as competências disponibilizadas pelo sistema de formação e as necessidades das empresas nos sectores do gás, mineração, construção e serviços especializados.
O diagnóstico recomenda centros de formação articulados com os megaprojectos, maior participação das empresas na definição dos programas e iniciativas específicas para preparar pequenas e médias empresas integradas nas cadeias de fornecimento.
A formação empresarial não se limita ao domínio técnico necessário para produzir um bem ou prestar um serviço. Inclui contabilidade, negociação, elaboração de propostas, gestão de contratos, liderança, marketing, tecnologias digitais, tributação, recursos humanos e planeamento financeiro.
Um empresário pode conhecer profundamente o produto que comercializa e, simultaneamente, enfrentar dificuldades para calcular custos, definir preços, gerir o fundo de maneio ou preparar demonstrações financeiras exigidas por uma instituição de crédito.
Governação Torna-se Uma Condição De Entrada Nos Grandes Contratos
Sofar Muzima, profissional do sector bancário, considerou que muitas empresas locais continuam insuficientemente preparadas para integrar as cadeias de fornecimento dos grandes investimentos.
“Grande parte das empresas locais ainda não está preparada para integrar este ecossistema de forma pragmática, rápida e assertiva”, observou, acrescentando que uma parcela do tecido empresarial permanece orientada para a sobrevivência, enquanto outras economias da região adoptam horizontes de crescimento mais longos.
A governação corporativa assume, neste contexto, uma função económica concreta.
Não se trata apenas da existência de conselhos de administração em empresas de grande dimensão. Para uma PME, governação também significa definir quem toma decisões, separar funções, registar operações, estabelecer limites de autorização, controlar conflitos de interesse e criar mecanismos de prestação de contas.
Uma empresa com contas pouco claras pode perder acesso ao crédito. Uma organização excessivamente dependente do proprietário pode não conseguir executar contratos complexos. A ausência de procedimentos documentados pode dificultar auditorias, certificações e parcerias com investidores.
É por esta razão que ética e compliance, temas por vezes tratados como exigências formais, surgem no livro como componentes da competitividade.
Num ambiente em que multinacionais, bancos e instituições financeiras avaliam riscos legais, reputacionais e fiscais, a integridade empresarial deixa de constituir apenas um valor moral. Passa a influenciar a capacidade de obter financiamento, estabelecer parcerias e participar em concursos.
Financiamento Depende Também Da Qualidade Da Empresa
O acesso ao financiamento é frequentemente apresentado como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento das PME. Contudo, a relação entre bancos e empresas também é condicionada pela qualidade da informação disponível.
Instituições financeiras necessitam de conhecer as receitas, despesas, activos, dívidas, histórico de pagamentos e perspectivas do negócio. Sem registos contabilísticos fiáveis, torna-se difícil diferenciar uma empresa viável de uma operação com riscos elevados.
A obra procura aproximar as duas dimensões: por um lado, a necessidade de produtos financeiros adaptados às PME; por outro, a responsabilidade das empresas de melhorarem a gestão e apresentarem informação capaz de sustentar uma decisão de crédito.
Esta discussão ganha relevância num momento em que parceiros de desenvolvimento e instituições financeiras ampliam programas destinados ao sector privado. A estratégia actual do Banco Mundial para Moçambique procura mobilizar capital privado, fortalecer cadeias de valor e gerar 800 mil empregos novos ou melhorados em sectores como agronegócio e turismo. O Banco refere ainda apoio a cerca de dez mil micro, pequenas e médias empresas através do projecto de ligações económicas e diversificação.
A existência de fundos, garantias ou linhas de crédito, contudo, não elimina a necessidade de empresas com projectos bancáveis, governação adequada e capacidade para administrar os recursos recebidos.
Internacionalização Exige Mais Do Que Abertura Dos Mercados
A integração regional e a Zona de Comércio Livre Continental Africana são apresentadas no livro como oportunidades para as empresas moçambicanas alcançarem mercados maiores.
Mas a redução das barreiras comerciais não transforma automaticamente uma empresa local em exportadora.
A internacionalização exige escala, produtividade, qualidade certificada, conhecimento das normas, logística, financiamento comercial e capacidade para competir em preço e regularidade.
Uma empresa que enfrenta dificuldades para abastecer continuamente o mercado doméstico poderá não conseguir cumprir contratos regionais. Da mesma forma, a proximidade de um corredor logístico não é suficiente quando os custos internos de produção permanecem elevados.
A contribuição do livro está em deslocar parte da discussão da oportunidade externa para a preparação interna. O acesso ao mercado constitui apenas uma das condições; a empresa precisa de construir competências para permanecer nesse mercado.
Livro Pode Aproximar Academia E Empresa
Uma das expectativas manifestadas durante o lançamento é que a obra se transforme numa referência académica para estudantes de gestão, economia, marketing, empreendedorismo e administração.
O seu valor formativo poderá resultar da combinação entre conceitos e exemplos próximos da realidade empresarial nacional.
Quando a formação utiliza exclusivamente casos de grandes corporações estrangeiras, o estudante pode dominar modelos sofisticados, mas ter dificuldade em aplicá-los a uma pequena empresa moçambicana, com recursos limitados, contabilidade básica e elevada exposição a alterações cambiais, fiscais e logísticas.
A literatura local pode aproximar a universidade dos problemas efectivamente enfrentados pelas empresas: informalidade, sucessão familiar, acesso ao crédito, contratação pública, fornecimento aos megaprojectos, governação e internacionalização.
Esta aproximação também pode beneficiar a investigação. Empresas e universidades poderão utilizar a obra como ponto de partida para estudos de caso, recolha de dados, avaliação de políticas e desenvolvimento de instrumentos específicos de gestão.
Conhecimento Só Ganha Escala Quando Se Transforma Em Prática
Ecossistema Empresarial em Moçambique posiciona-se entre a literatura académica, o manual de gestão e a reflexão sobre o desenvolvimento do sector privado.
A obra apresenta estratégia, ética, inovação, sustentabilidade e governação como elementos interdependentes. Uma empresa dificilmente será sustentável quando a estratégia ignora os riscos, a inovação não responde ao mercado ou a governação não assegura controlo e responsabilização.
O livro poderá ampliar a sua contribuição caso seja utilizado em universidades, associações empresariais, incubadoras, instituições financeiras e programas de formação de fornecedores.
A sua relevância também dependerá da capacidade de suscitar uma discussão mais exigente sobre o empresariado nacional. Não basta defender mais empresas moçambicanas nas cadeias de valor; é necessário identificar que competências devem possuir, que padrões precisam de cumprir e que reformas institucionais poderão reduzir os custos de fazer negócios.
Moçambique dispõe de recursos, megaprojectos e uma posição geográfica capaz de ligar economias do interior aos mercados internacionais. A transformação dessas vantagens em desenvolvimento exigirá empresas capazes de converter oportunidades temporárias em capital, conhecimento, emprego e capacidade produtiva.
É nessa transição — da existência de oportunidades para a construção de empresas preparadas — que Bill Afonso procura inscrever a sua obra.
Fonte: O Económico




