InícioRevistaDesportoFUTEBOL AFRICANO E A PERSISTÊNCIA DA CRENÇA NA BRUXARIA

FUTEBOL AFRICANO E A PERSISTÊNCIA DA CRENÇA NA BRUXARIA

Resumo

Nana Kwaku Bonsam, feiticeiro do Gana, afirmou ter lançado um feitiço sobre Harry Kane no Mundial de 2026 para impedir o capitão inglês de marcar contra os ganeses. A influência da bruxaria no desporto é debatida, sendo uma crença cultural e religiosa em muitas sociedades africanas, mas sem evidência científica de impacto real. Episódios de bruxaria no futebol africano persistem, apesar da falta de comprovação. A psicologia desportiva sugere que a convicção e o medo podem afetar o desempenho dos atletas, mas o verdadeiro poder da bruxaria pode residir na mente humana. Tradição e superstição coexistem em muitas dimensões da vida africana, mantendo a bruxaria como parte do imaginário coletivo, influenciando a interpretação das vitórias e derrotas no desporto.

Por: Virgílio Timana

Sempre que uma selecção africana participa numa grande competição, a bruxaria volta a entrar em campo. Desta vez, o protagonista foi Nana Kwaku Bonsam, o mais mediático feiticeiro do Gana, que afirmou ter lançado um feitiço sobre Harry Kane para impedir o capitão inglês de marcar frente aos ganeses, no Mundial de 2026. Kane terminou o jogo em branco e falhou uma ocasião clara de golo, alimentando, como seria de esperar, as especulações.

Mas a questão que verdadeiramente importa não é se Harry Kane foi vítima de um feitiço. A questão é outra: a bruxaria influencia realmente no desporto?

A resposta depende da perspectiva. Como fenómeno cultural e religioso, a resposta é claramente afirmativa. A crença em forças espirituais faz parte da história de muitas sociedades africanas e continua presente em comunidades onde curandeiros, adivinhos e líderes espirituais desempenham um papel relevante na vida social.

Outra questão, bem diferente, é saber se essas práticas possuem capacidade comprovada para provocar lesões, alterar resultados ou influenciar o desempenho de um atleta. Até hoje, não existe qualquer evidência científica que sustente essa conclusão.

Apesar disso, o futebol africano continua repleto de episódios que alimentam esta narrativa. Em 2016, a Federação Ruandesa de Futebol proibiu oficialmente qualquer prática de bruxaria nos seus campeonatos. Na Nigéria, antigos internacionais como Peter Odemwingie e Taribo West reconheceram que muitos jogadores recorrem a amuletos e acreditam na magia. Em 2025, o seleccionador Eric Chelle chegou mesmo a acusar um jogador da República Democrática do Congo de recorrer ao "vudu" durante uma decisão por grandes penalidades.

O próprio Nana Kwaku Bonsam já tinha ganho notoriedade em 2014, ao afirmar que tinha enfeitiçado Cristiano Ronaldo antes do jogo entre Portugal e o Gana. No entanto, o capitão português marcou um dos golos da vitória por 2-1 e foi eleito o melhor em campo. O episódio acabou por mostrar que as declarações do feiticeiro não encontraram correspondência no que aconteceu dentro das quatro linhas.

Talvez o verdadeiro poder da bruxaria não esteja no sobrenatural, mas na mente humana. A psicologia desportiva demonstra que a convicção, o medo e a sugestão podem afectar o rendimento de qualquer atleta. Um jogador convencido de que está amaldiçoado pode perder confiança, hesitar ou competir sob maior pressão. O efeito, nesse caso, nasce da crença e não da magia.

É precisamente por isso que estes episódios persistem. No futebol, como em muitas dimensões da vida africana, tradição e superstição caminham frequentemente lado a lado. Para uns, trata-se de uma herança cultural; para outros, de uma manifestação espiritual; para a ciência, continuam a faltar provas.

Independentemente da resposta, uma realidade permanece inquestionável: a bruxaria continua a ocupar um espaço importante no imaginário colectivo africano. Talvez não determine quem vence um jogo de futebol, mas continua, sem dúvida, a influenciar a forma como muitos interpretam as vitórias, as derrotas e o imprevisível comportamento da bola.

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