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LEGADO DE EVARISTO ABREU NA CONSTRUÇÃO DO TEATRO MOÇAMBICANO

Por: Virgílio Timana

O Festival Maputo Em Cena promoveu, esta terça-feira, 18 de Agosto, uma mesa-redonda dedicada à reflexão sobre a estética e os caminhos do teatro moçambicano, tendo como ponto de partida o percurso e o legado do actor e encenador Evaristo Abreu, uma das figuras com intervenção relevante na história recente das artes cénicas no país.

Realizado no Centro Cultural Franco-Moçambicano, em Maputo, o encontro reuniu diferentes perspectivas sobre as linguagens, práticas e transformações que têm marcado o teatro nacional, procurando igualmente compreender de que forma a experiência de gerações anteriores continua a influenciar os novos fazedores da arte.

Moderada por Dadivo José, a mesa-redonda contou com a participação de Alberto Mateus Magassela, Lucrécia Paco, Elliot Alex, Mária Atália Adamugy e Félix Bruno Luís Carlos, que colocaram em diálogo diferentes experiências e visões sobre a criação teatral em Moçambique.

Isabel Jorge, coordenadora do Maputo Em Cena

Para Isabel Jorge, coordenadora do Maputo Em Cena, a discussão pretendeu ir além da homenagem a Evaristo Abreu e criar um espaço de reflexão sobre o percurso do teatro moçambicano e os caminhos que poderá seguir. “Estamos a pensar a estética do teatro moçambicano, olhando para a obra do Evaristo e para a sua contribuição. Até que ponto influenciou a estética do teatro moçambicano e, quem sabe, poderá influenciar as novas gerações”, explicou.

A responsável considera que, num país marcado por diferentes culturas, línguas e formas de expressão, não será simples definir uma única estética teatral moçambicana. Para ela, as diferenças regionais e as experiências de cada grupo ajudam a construir uma linguagem própria que se manifesta no movimento, nos gestos, na palavra, no canto e nas narrativas levadas ao palco. “Se olho para os grupos de teatro da Beira, de Nampula ou de Maputo, existe uma estética. Cada grupo traz as suas especificidades e a sua forma de contar”, afirmou.

Na análise do percurso de Evaristo Abreu, Isabel Jorge destaca precisamente a capacidade do encenador de incorporar elementos da realidade moçambicana mesmo quando trabalhava sobre obras clássicas de autores estrangeiros. Segundo a coordenadora do festival, o trabalho de Abreu reunia a palavra, o movimento, o canto, a ancestralidade e diferentes elementos da cultura e das vivências nacionais. A adaptação de obras internacionais permitia-lhe introduzir uma identidade própria, aproximando os textos das experiências do público moçambicano. “Nas suas obras nós nos vemos como personagens, na nossa forma de estar, de ser, de falar, de cantar, de usar a língua e tudo isso”, observou.

Essa influência, acrescenta, não terá desaparecido com a morte do encenador. Pelo contrário, poderá ser encontrada em trabalhos de artistas da nova geração que, directa ou indirectamente, tiveram contacto com a sua forma de fazer e pensar o teatro.

Isabel Jorge reconhece-se, ela própria, como parte dessa cadeia de influência e aponta outros artistas que também receberam essa herança e hoje trabalham com novos criadores. “De uma forma ou de outra, o Evaristo acaba influenciando as novas gerações. Talvez de uma forma diferente de estar no palco, mas é possível sentir essa marca”, afirmou.

A responsável sublinha, contudo, que a influência de Abreu também foi marcado por referências anteriores, entre elas o grupo Mutumbela Gogo, numa cadeia de transmissão artística que atravessa diferentes gerações do teatro moçambicano.

Evaristo Abreu levou igualmente o teatro moçambicano para diferentes palcos internacionais ao longo da sua carreira, primeiro através do Mutumbela Gogo e, posteriormente, com o grupo M’béu. O seu percurso incluiu festivais, digressões e intercâmbios em países de África, Europa e América do Sul, entre os quais Portugal, França, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Uganda, Brasil e Zimbabwe.

Este percurso internacional permitiu-lhe ampliar a experiência artística, estabelecer contactos com criadores de diferentes países e conhecer outras linguagens e contextos teatrais, ao mesmo tempo que levou a criação teatral moçambicana para além das suas fronteiras.

Nascido em Maputo, a 5 de Outubro de 1966, Evaristo Abreu iniciou a sua carreira no teatro em 1985, tendo trabalhado como actor no TEJOCO, Txova Xita Duma e Mutumbela Gogo. Em 1989 fundou o grupo de teatro Mbeu, onde assumiu funções de encenador. Entre 1998 e 2005 esteve ligado ao Festival Internacional de Teatro D’Agosto e participou em diversos projectos que utilizaram o teatro como instrumento de intervenção e transformação social.

A sua formação cruzou as artes e as ciências sociais. Abreu era mestre em Artes Dramáticas pela Witwatersrand University, em Joanesburgo, e bacharel em Sociologia pela Universidade Eduardo Mondlane.

Em 2006 integrou a Visão Mundial, onde coordenou o departamento de mobilização comunitária através do teatro. Ao longo da sua carreira colaborou igualmente com instituições públicas, incluindo o Ministério da Cultura e Turismo, tendo participado em comissões organizadoras do Festival Nacional da Cultura. Evaristo Abreu morreu a 23 de Setembro de 2025, aos 58 anos, na sequência de complicações relacionadas com cancro.

Ao colocar o seu percurso no centro da discussão, o Maputo Em Cena procura transformar a homenagem numa oportunidade de reflexão. O legado de Abreu surge, assim, não apenas como memória de uma geração, mas como ponto de partida para questionar o presente, identificar as características do teatro produzido no país e discutir os caminhos que poderão ser seguidos pelas novas gerações.

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