“A partir daí, quando se entra numa nova fase, que é a fase que, do ponto de vista da designação, a fase da democracia multipartidária, etc., entramos já muito feridos, com muitas desconfianças. Portanto, todo o processo de paz não trouxe confiança entre os atores e a gestão deste período, desde 1994 até 2024, foi sempre uma gestão de conflitualidade permanente.”, disse o académico.
Acrescenta que “isso não permite, de facto, que haja um casamento entre aquilo que era libertar o homem e a terra e os interesses dos grupos que estavam interessados naturalmente em ganhar espaço na agenda da governação política.”, explica.
Lourenço do Rosário levanta o questionamento sobre os interesses reais dos actores políticos envolvidos no Diálogo Nacional Inclusivo.
“Quando se parte do princípio que nós temos que parar e vamos recomeçar a discussão para irmos numa determinada direcção de pacificação, a designação é de algo inclusivo, de reconciliação, é uma designação muito optimista. Mas como é que nós podemos chegar a um acordo que inclua a pacificação, a reconciliação, etc., quando ainda não mapeamos os nossos próprios interesses? Ainda não vimos neste diálogo um discurso de autoanálise, de autoavaliação dos erros que cada grupo foi cometendo.”, questiona.
O académico questiona ainda que “estamos a discutir o que queremos fazer, mas em cima de quê, o que queremos corrigir, para depois se materializar exactamente nas questões muito concretas, reforma do Estado, revisão das leis, etc. Isso só pode ser feito quando cada grupo assume que alguma coisa correu mal para se chegar ao fundo.”
Do Rosário diz que o tempo é demasiado curto para que as próximas eleições beneficiem do produto do Diálogo Nacional Inclusivo.
“Nós em 2025 anos paramos e criamos mecanismos para conversar. Mas a máquina do tempo está a andar. Estamos em 2026, já perto de 2027, e 2028 temos o calendário eleitoral. O que está a acontecer? Como é que nós vamos modificar em tempo útil para que o calendário eleitoral autárquico e depois o geral possa beneficiar deste diálogo?”, questiona mais uma vez.
Mais do que isso, Do Rosário entende que devem ser chamados outros actores, além de partidos políticos, para que a essência do diálogo seja salvaguardada.
“A essência do diálogo é corretíssima, nós precisávamos. Mas estes actores que estão não podem ser eles depois de tomar a decisão final. Deviam ser outras instâncias para eles aplicarem.”, alerta.
O académico criticou alguns cenários apresentados na matriz das audiências do diálogo e apontou como soluções reformas constitucionais e económicas.
Fonte: O País





