Resumo
O Governo da província de Nampula, em Moçambique, reconheceu que a crise de abastecimento de água em Nampula persistirá por vários anos, apesar dos avanços no projeto da Barragem de Macuje. A escassez de água é uma das maiores fragilidades sociais e económicas da região, afetando milhares de residentes diariamente. A futura Barragem de Macuje, financiada pelo Banco Mundial, é vista como uma solução estrutural crucial, mas os processos de construção avançam lentamente. Apenas 44,9% da população tem acesso regular a água potável, resultando em longas caminhadas, custos adicionais e riscos para a saúde pública. Apesar dos esforços, incluindo a construção de novas fontes de água, a questão central permanece: serão estas intervenções suficientes para suprir a crescente procura por água?
O Governo da província de Nampula, no norte de Moçambique, reconheceu recentemente, durante a sexta sessão ordinária do Conselho Provincial de Segurança Alimentar e Nutricional, que a crise de abastecimento de água que afecta a cidade de Nampula persistirá por vários anos, apesar dos avanços registados no projecto da Barragem de Macuje, considerada a principal solução estrutural para garantir o fornecimento sustentável de água à população. A declaração, feita pelo Secretário de Estado, Plácido Pereira, confirma aquilo que milhares de residentes vivem diariamente: a escassez de água continua a ser uma das maiores fragilidades sociais e económicas da província.
A admissão pública de que a solução definitiva ainda está distante representa um exercício de realismo por parte das autoridades. E também expõe a profundidade de um problema que há décadas acompanha o crescimento urbano de Nampula e que, apesar das sucessivas promessas governamentais, permanece sem uma resposta capaz de acompanhar a expansão demográfica e as necessidades da população. A futura Barragem de Macuje, financiada pelo Banco Mundial e projectada para armazenar cerca de 88 milhões de metros cúbicos de água, surge como uma obra de enorme relevância estratégica. A expectativa de beneficiar aproximadamente um milhão de pessoas demonstra a dimensão do seu impacto potencial. Porém, a realidade é que, enquanto os estudos ambientais, os processos de reassentamento e as fases de construção avançam lentamente, os cidadãos continuam a enfrentar diariamente limitações severas no acesso a um recurso essencial para a vida, a água.
Os dados apresentados pelos Serviços Provinciais das Actividades Económicas revelam a gravidade do cenário. Com uma cobertura de água e saneamento de apenas 44,9%, mais da metade da população de Nampula permanece sem acesso regular à água potável. Este indicador não representa apenas uma estatística administrativa; traduz-se em longas caminhadas para obtenção de água, em custos acrescidos para famílias vulneráveis, em riscos para a saúde pública e em obstáculos ao desenvolvimento económico e social.
Por outro lado, seria injusto ignorar os esforços que vêm sendo realizados. A construção de 459 novas fontes de água e a reabilitação de outras 373 ao longo do último ano demonstram que existe uma tentativa de mitigar os efeitos imediatos da crise. Da mesma forma, a aposta na abertura de furos nas zonas rurais, a implementação de sistemas de abastecimento urbanos e a expansão da barragem de Nacala evidenciam uma estratégia que procura combinar soluções de curto e médio prazo. No entanto, a questão central permanece: serão estas intervenções suficientes para responder à velocidade com que cresce a procura por água? A experiência acumulada ao longo dos anos sugere que as soluções pontuais, embora importantes, tendem a ser rapidamente absorvidas pela crescente pressão populacional e pela degradação das infra-estruturas existentes.
Mais preocupante ainda é o facto de a situação de Nampula não constituir uma excepção no contexto nacional. O défice de acesso à água potável atravessa praticamente todas as regiões de Moçambique, assumindo diferentes contornos conforme as especificidades locais. Na região metropolitana de Maputo, apesar da proximidade ao principal sistema de abastecimento do Rio Umbeluzi, persistem cortes frequentes e limitações na expansão da rede. Nas províncias de Tete, Zambézia e Sofala milhares de pessoas continuam vulneráveis a doenças de origem hídrica devido à insuficiente cobertura dos serviços. Em Cabo Delgado, o conflito armado e os movimentos de deslocação populacional agravaram um cenário que já era marcado por uma das mais baixas taxas de acesso à água e saneamento do país.
Estes desafios revelam que a crise hídrica não pode ser analisada apenas sob a perspectiva da escassez da água. O problema está igualmente associado à limitada capacidade de armazenamento nacional, até ao ano de 2025 O país possuía uma capacidade de armazenamento de água estimada em apenas 30% do escoamento médio anual, o que o torna extremamente vulnerável a secas e cheias.
Neste contexto, as metas governamentais é de elevar o acesso à água potável dos actuais níveis próximos dos 60% para cerca de 68% até 2029.






