A desforra da meias-finais de 2022 não foi bem uma desforra. Se Marrocos preparou, durante quatro anos, uma resposta aos gauleses após aquela tardia eliminação no Mundial, o tempo parece não ter apagado o ascendente gaulês, caso houvesse dúvidas.
Foi um duelo quase familiar, tais são as ligações entre as duas seleções. Seis dos 26 jogadores marroquinos nasceram em França, três foram titulares. É o viveiro deste Mundial... 99 jogadores vieram ao Mundo através daquele país europeu.
E, naturalmente, a França garantiu o bilhete para a próxima fase, onde encontrará necessariamente um vizinho – ou Espanha, ou Bélgica. Kylian Mbappé engrandeceu a sua lenda em Mundiais. Marcou, assistiu, apesar de falhar um penálti e ainda ter saído lesionado. 20 golos em 20 jogos em Mundiais e o melhor marcador em fases a eliminar. A luta férrea com Lionel Messi continua.
A primeira parte foi pintada a vermelho, branco e azul. Os franceses foram superiores a Marrocos tanto em termos de chances de golo, como de posse. Ainda que a equipa de Mohamed Ouahbi trocasse a bola no seu meio-campo com relativa facilidade, com o jovem Bouaddi a orquestrar, era sempre vigiada de perto pelos franceses.
Porém, logo aos cinco minutos, surgiu aquela que seria uma das figuras iniciais do encontro: Yassine Bounou. O guardião marroquino travou a primeira investida de Mbappé e a ressaca de Upamecano. E ganhou confiança.
Bem precisou dela. Pois no duelo frente a frente com o capitão francês, foi o 'leão-do-atlas' que ganhou. Após uma falta indiscutível de Noussair Mazraoui sobre o avançado do Real Madrid, Mbappé mostrou que é humano e denunciou bastante o lado para onde ia bater. Bounou agarrou a bola.
Mas ainda fez uma estirada mais vistosa. Aos 36m, negou um golo certo a Desiré Doué após uma rara perda de bola de Bouaddi. E ainda desviou ligeiramente uma bomba de Digne para o travessão. E Marrocos... não conseguia incomodar Maignan, que não fez uma única defesa em 45 minutos.
Sem grandes alterações no desenrolar do jogo até à hora de jogo, nem substituições, Mbappé encarregou-se de trazer entropia ao duelo. Da melhor forma – com um golaço. Aos 60m, Doué reagiu rapidamente e assistiu Mbappé na entrada da área. Perante a contenção de Diop, o avançado puxou da culatra atrás e desferiu um remate em arco para o poste mais distante. Golaço com assinatura de Kylian.
Mohamed Ouahbi ainda mexeu, mas Marrocos aumentou a vantagem sem que os africanos se recompusessem. E surgiu outro artista. Ousmane Dembélé, atleta reabilitado por Luis Enrique, pincelou um grande golo de pé direito, com outro remate em arco, que bateu Bounou. Impotente, o guardião.
Kylian ainda saiu lesionado, com queixas no pé direito. Porém, não deve gerar muita preocupação a Deschamps. Selecionador que, curiosamente, tornou-se o técnico com ais jogos em Mundiais (25). Com um golo e uma assistência para Dembélé, foi um verdadeiro domador de leões-do-atlas, a mascote (extinta) de Marrocos. O leão foi quase transformado num gatinho, tal a docilidade ofensiva dos africanos.
Recordando a lenda grega de Atlas, que empresta o nome à cordilheira característica de Marrocos, Kylian Mbappé está mais próximo de carregar o Mundo sobre os ombros... pela segunda vez na carreira.
O Mundial parece uma competição talhada para o francê, tal como a Champions era para Cristiano Ronaldo. De contestado a Madrid, para imparável nas Américas, bastou pouco mais do que um mês. Marcou, assistiu e redimiu-se de um penálti falhado. Com oito golos nesta edição, voltou a igualar Messi na tabela de melhores marcadores, mas soma mais assistências (três) do que o argentino. Ah, e tem 27 anos.
Remate em arco, com aparente facilidade, ao poste mais distante. Diop ficou em contenção... e assistiu de forma privilegiada à finalização. Este momento desbloqueou o marcador e deu justiça ao resultado.
Fonte: CNN Portugal






