Será o AND? A mentalidade competitiva? Ou têm mais peso as questões económicas e sociais, a história e a geografia? Seja como for, como podemos explicar o sucesso da Espanha para além do futebol, onde as seleções masculina e feminina são campeãs do mundo e lideram o ranking da FIFA? David Moscoso é doutor em sociologia e autor de mais de uma centena de publicações sobre o fenómeno desportivo em revistas especializadas e editoras académicas. Defende que o êxito desportivo só é sustentável a longo prazo se o modelo proteger também o “desporto base” — isto é, as categorias inferiores, e não apenas os investimentos na alta competição e nas figuras mediáticas.
Como se explicam os sucessos desportivos de Espanha nas últimas décadas, não só no futebol, mas também no basquetebol, no ténis, no golfe, no andebol, no ciclismo, no motociclismo e até no badminton? A lista é muito longa.
Os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, foram o terreno fértil para todos os sucessos que o desporto espanhol tem vivido desde então. Isso porque a legislação mudou e passou a dar ênfase à competição, ao desporto organizado e regulamentado. Ou seja, foi dado menos peso ao desporto de base e ao desporto orientado para outros fins que não fossem a competição. A partir daí, entre 1990 e 2010, a curva do número de praticantes de desporto em Espanha não se alterou. Ou seja, ao longo de 20 anos, o desporto popular não cresceu. Em contrapartida, os sucessos desportivos representaram anos gloriosos para o desporto espanhol, com Rafael Nadal, a seleção espanhola de futebol, o ciclismo, o andebol e outros desportos, como bem referiu. E isso deve-se ao facto de ter sido implementado um modelo centrado no desporto de elite, na alta competição. Foram criados muitos centros de alto rendimento em todo o país, como o de remo em La Cartuja, em Sevilha, o de canoagem na Galiza e nas Astúrias, ou o de esqui na Serra Nevada, que se situa a 2 500 m de altitude. E, claro, tudo isto tem dado os seus frutos.
Antes de Barcelona 92, a Espanha saía de uma ditadura. Com a chegada da democracia, as coisas começaram a mudar e as pessoas começaram a praticar desporto com mais liberdade...
Claro. Não se trata apenas de mais liberdade, mas sim do facto de esse direito estar consagrado na própria Constituição espanhola de 1978, o que não acontecia anteriormente. Durante os 40 anos de ditadura em Espanha, tal como também aconteceu em Portugal, o desporto era um domínio reservado às classes sociais mais altas. A existência de instalações e equipamentos desportivos adequados para a competição, etc., estava limitada a certas classes sociais, não era para toda a gente. A exceção eram os campos de futebol e poucas outras instalações; quase não havia infraestruturas nem espaços desportivos. O que acontece é que a Constituição de 78 parte do princípio de que o desporto é um direito ao qual todas as pessoas devem ter acesso em igualdade de condições, independentemente da sua idade, classe social, raça ou religião. Além disso, após a Transição, a educação física tornou-se uma disciplina obrigatória no sistema educativo espanhol, o que levou à construção de instalações desportivas escolares, equipamentos desportivos, etc. E isso criou, evidentemente, um terreno fértil. Mas também começaram a surgir as instalações desportivas municipais...
Os pavilhões que existem em todos os municípios, é isso?
Sim. Também foi importante a Carta Europeia do Desporto, de 1975, que promoveu o desporto e realizou campanhas de «desporto para todos», embora a Espanha só tenha aderido à então Comunidade Económica Europeia em 1986. Todos esses elementos criam um terreno fértil que faz com que, quando se realizam os Jogos Olímpicos de Barcelona, se manifeste o sucesso dessa mudança de modelo desportivo. Mas os anos gloriosos do desporto espanhol são os da primeira década do século XXI.
No início, nas décadas de 70 e 80, houve investimento público. Mas foi a partir dos Jogos Olímpicos de Barcelona que o investimento privado também entrou em cena, com o programa ADO [Associação Desportos Olímpicos, criado em 1987] e o apoio de outros patrocinadores, não é verdade?
Os equipamentos desportivos de muitos estabelecimentos de ensino em Espanha estão obsoletos, datam dos anos 80. Além disso, faltam equipamentos para disciplinas que não existiam naquela altura, mas que agora existem — por exemplo, atualmente há uma grande procura por paredes de escalada. A escalada tornou-se mais conhecida a partir dos Jogos Olímpicos de Tóquio [2021] e a medalha de ouro de Alberto Ginés; houve uma explosão da popularidade deste desporto e, desde então, tem havido pedidos para a instalação de paredes de escalada nas escolas. Mas há muitos outros desportos em que se verificou um aumento exponencial da procura, e o investimento privado teve um efeito multiplicador no aumento do número de medalhas. Os patrocínios privados e as diversas medidas públicas que têm vindo a ser implementadas para o mecenato no desporto tiveram um impacto inquestionável no alto rendimento. Mas o ponto de viragem ocorreu quando o financiamento público se centrou na alta competição e, sobretudo, com o impacto do financiamento privado nos últimos 15 anos. Uma das fontes de financiamento mais importantes é a La Liga [primeira divisão de futebol profissional masculino em Espanha], porque 5% das suas receitas, cerca de 18 000 milhões de euros por ano, têm de ser destinados às outras federações desportivas nacionais. No caso do desporto feminino, o programa «Universo Mujer» da Iberdrola teve um efeito inquestionável, pois está a permitir que clubes desportivos, federações desportivas e desportistas femininas de alta competição disponham dos recursos necessários para contratar psicólogos, treinadores e dedicar-se exclusivamente ao desporto. E a La Liga tem de destinar fundos também ao desporto feminino; esta é, talvez, uma das fontes mais poderosas de que a Espanha dispõe neste momento para o financiamento do desporto federado no seu conjunto.
Será que isso explica também que o sucesso seja recorrente a vários níveis: individual e coletivo, seleções e clubes, juniores e veteranos, homens e mulheres?
Não, isso explica apenas uma parte: o desporto mais consolidado, o de alto rendimento. O programa ADO permitiu que os desportistas recebessem um salário. É uma bolsa de pouco valor, mas pode ser satisfatória para uma pessoa de 18 anos: cerca de 1 500 ou 1 700 euros por mês. Mas, além disso, paga-te o alojamento. Por exemplo, a Blume, em Madrid, é uma residência para desportistas de alto rendimento. Pagam-te o alojamento, a alimentação e, além disso, a tua equipa paga-te outros serviços.
Com alojamento incluído, não é nada mau como salário...
Cobre o treino, as deslocações, as ajudas de custo e outras despesas. Existe uma responsabilidade solidária, assumida em parte pelo setor público e em parte pelo privado. Acho que estamos ao mesmo nível de outros países. É preciso melhorar, mas as coisas estão a ser feitas razoavelmente bem.
Interessa-me a comparação com outros países, em particular Portugal, mas também a França ou a Itália, que são países vizinhos ou de dimensão semelhante à da Espanha. Mas, antes disso, gostaria de compreender que impacto têm fatores como o clima, a geografia ou o estilo de vida no desempenho desportivo.
Não saberia classificá-lo em função de fatores climatológicos ou orográficos. O que posso dizer é que existe uma geografia do desporto ou, digamos, do conjunto de recursos para a prática do desporto. Há regiões e províncias, como Madrid, Barcelona ou Sevilha, que dispõem de imensos recursos e de uma concentração de centros de alto rendimento, instalações, equipamentos, sedes de federações... tudo isso torna mais fácil progredir no alto rendimento de algumas disciplinas.
Mas há outras comunidades autónomas, como o País Basco ou a Galiza, onde também há mar e montanha. E é preciso ter acesso ao mar para praticar vela, e sem montanhas é difícil ser um bom ciclista...
Sim, claro.
Pode dizer-se, então, que é uma sorte viver na Península Ibérica? Portugal também tem mar e montanhas...
Sim, é verdade, mas seria preciso percorrer a geografia de todos os países... Eu dediquei-me ao desporto de alto rendimento. Fui alpinista, escalei montanhas de 8 000 metros. Treinava em muitos países da Europa e em todos havia montanhas: em França, em Itália, na Suíça... Não nos confundamos na análise, porque creio que em todos os países europeus existem condições geográficas relativamente semelhantes. Na Suíça não há mar e, no entanto, foram campeões mundiais em algumas regatas...
Sim, a Suíça ganhou duas vezes a Taça América, a competição de vela mais prestigiada. Mas, neste caso, o que conta é o dinheiro, certo?
Exatamente, é aí que o dinheiro entra em jogo. Por isso, creio que se trata de uma combinação de muitos fatores. O financiamento económico tem uma importância inquestionável, mas as políticas desportivas também são importantes. Sem políticas desportivas, não há desporto regulamentado nem sucessos desportivos. Ou seja, pode haver sucessos pontuais e extraordinários, mas não um sucesso consistente em qualquer categoria a nível mundial.
Ou seja, sucessos esporádicos.
Exatamente. Acho que a Espanha tem muitos trunfos. Dispõe de infraestruturas, equipamentos e um nível de financiamento razoável em comparação com épocas anteriores. Conta com o empenho e o envolvimento do setor privado. Há uma boa captação de jovens e crianças que alcançam o sucesso desportivo. E, claro, tem mar de sobra para as atividades marítimas. Além disso, temos estâncias de esqui que nos permitem ter atletas como María José Rienda, que foi várias vezes campeã [venceu seis provas da Taça do Mundo de esqui alpino na primeira década do século]. Temos um conjunto muito importante de circuitos de automobilismo e motociclismo, e alguns dos melhores pilotos do automobilismo e do motociclismo mundial. Não é por acaso nem por sorte. É claro que há também longas trajetórias de equipas campeãs que souberam transmitir o seu património, que é a experiência. Souberam transmitir a sua bagagem aos clubes e desportistas que vieram a seguir, não é verdade? Luis de la Fuente é um bom exemplo. Esteve sempre presente, no seio da federação, e dedicou toda a sua experiência à nova seleção espanhola de futebol.
No seu caso, foi um trabalho passo a passo, a partir da base, orgânico. Um crescimento desde a base até à seleção A, ou sénior.
Sim, exatamente. De qualquer forma, o desporto de alto rendimento exige um enorme esforço. Nos Jogos Olímpicos, investe-se imenso dinheiro para poucas medalhas.
Falámos de modalidades em que a Espanha se destaca, mas o quadro de medalhas olímpico estagnou ou até regrediu. Passou-se de 23 medalhas em Barcelona 92 para apenas 18 em Paris 24. O que se passa com os Jogos Olímpicos em Espanha?
Essa é uma das críticas que tenho à política desportiva espanhola. Num artigo que publiquei no El País [«Do pódio ao banco de suplentes»], analiso quantas licenças federativas e quanto dinheiro vários países europeus investem para obter um determinado número de medalhas. Nessa análise, a Espanha investe muito mais do que outros países na conquista de medalhas. Investe muito dinheiro.
As medalhas saem-lhe mais caras do que a outros países?
Exatamente. E digo que esse dinheiro sai muito caro porque estão a investir tanto dinheiro na alta competição que se estão a esquecer da base.
O que quer dizer quando fala da «base»?
Refiro-me ao desporto de base, ou seja, às categorias de sub-12 e sub-14. Ao desporto para todos, à promoção do desporto de base por parte das federações, que têm um filtro cada vez maior, condicionado, além disso, pelas políticas desportivas. Para que haja financiamento, as administrações exigem saber quantas medalhas as modalidades têm ou podem vir a ter. Faz-se uma estimativa dos sucessos que podem alcançar e as federações começam a excluir, sistematicamente, todas as pessoas que não se destacam. Estão a estreitar cada vez mais a base e, se a base se estreita cada vez mais, a possibilidade de sucesso também se estreita. Essa é a minha hipótese.
Referiu anteriormente Alberto Ginés, uma figura da escalada. A sua vitória olímpica desencadeou um grande aumento do número de federados na modalidade em Espanha. Qual é o papel de figuras como Ginés, ou, na sua época, de Severiano Ballesteros no golfe, na promoção do desporto?
As figuras não são todas iguais. Não se pode comparar tenistas espanhóis, como Rafa Nadal ou Carlos Alcaraz, com Alberto Ginés ou Severiano Ballesteros. São situações diferentes. O desporto está sujeito à realidade social, tal como outras esferas da vida. O caso da escalada com Alberto Ginés foi um efeito viral, um efeito disruptivo da incorporação da escalada nos Jogos Olímpicos de Tóquio. O «break dance» teve o efeito contrário: houve uma atleta australiana que foi alvo de troça porque a opinião pública não tinha compreendido essa dança. Em contrapartida, a escalada está associada a valores pós-modernos e teve uma viralidade tremenda, não tanto por Alberto Ginés enquanto pessoa ou pela sua personalidade, mas pelo efeito disruptivo do desporto naquele momento nos Jogos Olímpicos. Além disso, no caso da Espanha, a medalha de ouro foi conquistada pelo desportista que representava o país...
Imagino que, atualmente, seja fácil encontrar uma parede de escalada em qualquer cidade espanhola.
Depois da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio na escalada, todas as escolas e todas as câmaras municipais queriam ter um rocódromo. E é verdade que a escalada está a crescer imenso. Mas não tem nada a ver com o efeito de Rafa Nadal, por exemplo, no qual não se verifica tanto um efeito de viralidade, mas sim um efeito de modelo social ideal de sucesso. Ou seja, uma pessoa que não só promove um desporto, mas que projeta um modelo de perfil social. Pessoas que demonstram empenho, responsabilidade, perseverança, sucesso contínuo e luta contra as lesões desportivas. São aspetos que são valorizados positivamente no imaginário coletivo. E essa ideia de perfil social procura-se reproduzir posteriormente nas instituições, criando uma certa escola.
Existe uma mentalidade vencedora que se transmite entre diferentes gerações? É algo comum a todos os desportistas espanhóis, ou estamos perante um mito?
Coexistem várias mentalidades. O desporto cresceu extraordinariamente em Espanha entre 2015 e 2026. Por que razão o desporto cresceu tanto? Porque há uma parte da sociedade que aderiu à melhoria da saúde e do bem-estar. Numa sociedade em que predomina a falta de exercício físico, onde temos um estilo de vida sedentário, isso coexiste agora, no âmbito regulamentado, com uma mentalidade competitiva. Ou seja, aqui implantou-se claramente a ideia de que, se não fores o primeiro, não és ninguém. É uma mentalidade importada dos Estados Unidos: ou és o primeiro ou...
Ou és um ‘loser’, um perdedor.
Exatamente, ou então não és ninguém. Isto foi implantado no desporto regulamentado espanhol. As pessoas dão tudo por tudo, querem ser as primeiras. E fazem-no, claro, com todos os meios que têm à sua disposição para o conseguir.
Será possível retirar daqui alguma lição para Portugal, um país de menor dimensão e com menos recursos financeiros? Que lições podem aprender os portugueses com os sucessos desportivos dos espanhóis?
Eu diria que não se deve abandonar o desporto de base. É o ponto de partida de qualquer sucesso no desporto. Em segundo lugar, deve haver um aumento da educação física no sistema educativo público. Em Espanha, o número de horas de educação física aumentou para promover essa adesão à prática desportiva. É também necessário fortalecer as federações desportivas e, acima de tudo, formá-las e capacitá-las para que consigam financiamento do setor privado. Ou seja, as federações em Espanha são entidades privadas, mas têm competências públicas delegadas. É necessário dotá-las de ferramentas de angariação de fundos para que possam melhorar o seu desempenho. Além disso, o setor público tem de abrir as portas ao patrocínio privado. Por último, o desporto tem de ter visibilidade suficiente nos meios de comunicação social para conseguir um efeito multiplicador em toda a sociedade e para que os patrocinadores vejam que os seus desportistas e as equipas que financiam estão presentes na opinião pública.
Todo o sistema tem de estar bem lubrificado, certo? Se um desportista sentir o reconhecimento dos seus colegas, tem mais motivos para continuar na modalidade e tentar ganhar mais dinheiro. Imagino que seja um círculo virtuoso.
Exatamente.
Como se situa a Espanha em relação à França, que é um país com muito mais medalhas olímpicas? A França também tem condições geográficas e climáticas extraordinárias e, além disso, uma grande diversidade de pessoas em resultado da imigração.
Os franceses aprenderam a lição muito antes, porque as políticas desportivas em França se renovaram bastante desde muito cedo. Desde os anos 70, a França deu um salto qualitativo no desporto, e muitas das recomendações que lhe transmiti para o caso de Portugal começaram a ser implementadas por eles há 40 ou 50 anos. O que é preciso fazer é alinhar-se com as políticas que estão a ser implementadas em França. Os desportistas não surgem por acaso: são criados, construídos e concebidos a partir da estrutura do alto rendimento. O que é necessário é ter uma boa base de recrutamento de desportistas na infância e na juventude e, a partir daí, que haja um fluxo do setor privado, das políticas públicas, das instalações adequadas, dos centros de alto rendimento, etc.
Para terminar, gostaria que resumisse os fatores que explicam o sucesso de Espanha no mundial de Futebol.
O sistema educativo permitiu a difusão da prática desportiva. As federações desportivas modernizaram-se nos últimos anos e tornaram-se quase empresas que sabem gerir bem os recursos e angariar financiamento externo. As finanças públicas espanholas, através de políticas de patrocínio, permitiram que o setor privado aumentasse o seu investimento no desporto de alto rendimento, e os meios de comunicação espanhóis deram grande visibilidade aos sucessos desportivos dos nossos atletas e equipas. Isso permitiu um efeito viral, mas também um efeito demonstrativo e multiplicador, em todo o sistema desportivo, perante a opinião pública. Todos esses fatores contribuem para que os sucessos da Espanha sejam hoje o que são. São reconhecidos e têm alcance mundial.
Bem, todos esses fatores... e o Luis de la Fuente.
E o Luis de la Fuente, claro. Nessa cadeia, os treinadores são fundamentais, porque são eles que permitem articular as características dos membros das equipas para que alcancem o sucesso.
Fonte: CNN Portugal






