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Ouro Mantém-Se Acima Dos 4.059 Dólares Entre Guerra No Médio Oriente E Expectativa Sobre Juros

Ouro Consolida Após Volatilidade Provocada Pela Fed

O ouro registou uma valorização moderada nas primeiras horas desta terça-feira, 4 de Agosto, mantendo-se acima dos 4.000 dólares por onça, enquanto os investidores aguardam novos indicadores sobre o mercado de trabalho dos Estados Unidos e acompanham os desenvolvimentos militares e diplomáticos no Médio Oriente.

Segundo a Reuters, o ouro à vista avançou 0,2%, para 4.059,81 dólares por onça, até às 02h57 GMT. A evolução sugere uma fase de consolidação, depois das oscilações verificadas nas sessões anteriores, provocadas pelas decisões da Reserva Federal dos Estados Unidos e pelas mudanças nas expectativas sobre as taxas de juro.

Na semana passada, o ouro chegou a superar temporariamente os 4.100 dólares por onça, beneficiando da fraqueza do dólar e da decisão da Reserva Federal de manter inalteradas as taxas de referência. Contudo, a possibilidade de um novo aperto monetário em Setembro continua a limitar uma valorização mais expressiva do metal. 

A trajectória do ouro encontra-se, assim, condicionada por duas forças parcialmente contraditórias: a procura por segurança perante a guerra e a possibilidade de taxas de juro mais elevadas para conter a inflação associada ao aumento dos preços da energia.

Emprego Norte-Americano Assume Papel Decisivo

Os investidores deverão acompanhar, ao longo da semana, uma sequência de indicadores que permitirá avaliar a resistência do mercado de trabalho norte-americano.

Os dados sobre vagas de emprego serão divulgados nesta terça-feira, seguindo-se, na quarta-feira, o relatório da ADP sobre o emprego no sector privado. Na sexta-feira será publicado o relatório oficial sobre o emprego não agrícola, considerado uma das referências mais importantes para as decisões da Reserva Federal.

O Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos confirma que o relatório referente ao mês de Julho será divulgado na sexta-feira, 7 de Agosto, às 08h30 de Washington. 

Um crescimento do emprego acima das expectativas poderá mostrar que a economia norte-americana continua suficientemente robusta para absorver uma nova subida das taxas de juro. Essa leitura tenderia a fortalecer o dólar e aumentar os rendimentos dos títulos do Tesouro, reduzindo a atractividade relativa do ouro.

Em sentido contrário, sinais de enfraquecimento das contratações, aumento do desemprego ou desaceleração dos salários poderão reduzir as expectativas de aperto monetário, pressionar o dólar e favorecer o metal precioso.

Ajay Kedia, director da Kedia Commodities, considerou, em declarações citadas pela Reuters, que uma deterioração do mercado de trabalho poderá enfraquecer a moeda norte-americana e abrir espaço para novos ganhos do ouro.

Probabilidade De Subida Dos Juros Limita Ganhos

Os investidores atribuíam, nesta terça-feira, uma probabilidade de aproximadamente 65% a uma subida das taxas de juro pela Reserva Federal na reunião de Setembro, de acordo com dados do mercado citados pela Reuters.

Estas probabilidades são calculadas a partir dos contratos de futuros sobre as taxas dos fundos federais. O instrumento FedWatch, do CME Group, acompanha a forma como os operadores posicionam o capital perante diferentes cenários de política monetária. 

A expectativa de uma subida das taxas constitui um obstáculo para o ouro porque o metal não paga juros nem dividendos. Quando os rendimentos das obrigações aumentam, os investidores podem obter retornos superiores através de activos financeiros remunerados, tornando mais elevado o custo de oportunidade de manter ouro.

A relação, contudo, não é automática. O comportamento do metal depende também da trajectória do dólar, das taxas de juro reais, das compras dos bancos centrais, da procura por activos de refúgio e da percepção sobre a estabilidade do sistema financeiro internacional.

Na última reunião, a Reserva Federal manteve as taxas inalteradas, mas a divisão entre os decisores e a persistência da inflação impediram o mercado de afastar uma nova subida ainda este ano.

Médio Oriente Produz Efeitos Contraditórios Sobre O Metal

A guerra entre os Estados Unidos e o Irão continua a oferecer suporte ao ouro enquanto activo de protecção contra choques geopolíticos.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que estavam em curso negociações com o Irão e classificou o momento como uma última oportunidade para Teerão aceitar um acordo destinado a terminar o conflito, que dura há cinco meses.

O Governo iraniano, contudo, negou a existência de negociações ou de reuniões programadas. A divergência entre as declarações de Washington e Teerão reduziu a confiança numa solução diplomática imediata. 

A continuidade do conflito favorece, numa primeira leitura, a procura por ouro. Em períodos de instabilidade militar, política ou financeira, investidores tendem a aumentar a exposição a activos considerados capazes de preservar valor.

Mas a mesma guerra também está a elevar os preços do petróleo, os custos do transporte marítimo e os prémios de seguro. O aumento dos custos energéticos pode transmitir-se aos preços dos bens e serviços, dificultando a redução da inflação.

Esse efeito pode levar os bancos centrais a manter ou elevar as taxas de juro, criando uma pressão negativa sobre o ouro. O conflito produz, deste modo, um duplo impacto: fortalece a procura defensiva pelo metal, mas aumenta simultaneamente a probabilidade de uma política monetária mais restritiva.

Dólar E Taxas Reais Continuam No Centro Da Avaliação

A análise do mercado do ouro exige uma distinção entre taxas de juro nominais e taxas de juro reais.

As taxas reais correspondem, de forma simplificada, ao rendimento nominal dos activos financeiros depois de descontada a inflação esperada. Quando as taxas reais sobem, o custo de manter ouro tende igualmente a aumentar. Quando caem, o metal torna-se relativamente mais atractivo.

Uma subida das taxas nominais não implica necessariamente uma queda do ouro. Caso a inflação aumente mais rapidamente do que os juros, as taxas reais podem permanecer baixas ou negativas, preservando a procura pelo metal como reserva de valor.

O dólar representa outra variável central. Como o ouro é negociado internacionalmente na moeda norte-americana, uma valorização do dólar torna o metal mais caro para investidores que utilizam outras moedas. Um dólar mais fraco produz normalmente o efeito inverso.

A divulgação dos dados do emprego será, por isso, analisada não apenas pelo seu impacto sobre as decisões da Reserva Federal, mas também pela reacção que provocar no dólar e nos títulos do Tesouro.

Fed Mantém Resposta Condicionada Pela Inflação

O presidente da Reserva Federal de Nova Iorque, John Williams, afirmou continuar optimista quanto a uma redução gradual das pressões inflacionistas.

O responsável advertiu, contudo, que o banco central não hesitará em aumentar as taxas caso a inflação não evolua na direcção esperada.

A Reserva Federal continua formalmente orientada por dois objectivos: estabilidade dos preços e pleno emprego. O actual contexto torna a conciliação dessas metas mais complexa.

Uma desaceleração do emprego poderia justificar maior cautela na subida dos juros. Porém, se os preços da energia mantiverem a inflação elevada, a autoridade monetária poderá considerar necessário apertar as condições financeiras, mesmo perante sinais de menor dinamismo económico.

A Reserva Federal de Nova Iorque já havia assinalado que a inflação permanecia acima do objectivo de 2%, influenciada por tarifas sobre importações, custos energéticos associados ao conflito no Médio Oriente e forte procura ligada ao investimento em inteligência artificial. 

Citi Prevê Correcção Antes De Nova Subida

O Citi considera que o ouro poderá permanecer estagnado ou registar uma correcção durante o próximo mês, antes de iniciar uma nova fase de valorização.

De acordo com a nota do banco citada pela Reuters, o metal poderá atingir 4.500 dólares por onça no quarto trimestre de 2026 e aproximar-se de 5.000 dólares durante o primeiro semestre de 2027.

A previsão representa um cenário, e não uma garantia. A sua concretização dependerá da evolução da guerra, das decisões da Reserva Federal, da inflação, do dólar, das taxas reais e da procura por ouro físico e financeiro.

Partindo da cotação de 4.059,81 dólares registada nesta terça-feira, uma subida para 4.500 dólares corresponderia a uma valorização adicional próxima de 10,8%. A aproximação aos 5.000 dólares implicaria um ganho de aproximadamente 23,2%.

A perspectiva do Citi sugere que o banco interpreta a actual fase como uma consolidação temporária dentro de uma trajectória estruturalmente favorável ao metal. Ainda assim, o intervalo previsto admite volatilidade e possíveis quedas no curto prazo.

Outros Metais Preciosos Acompanham Movimento Positivo

A valorização não ficou limitada ao ouro. Segundo a Reuters, a prata à vista avançou 1%, para 58,74 dólares por onça, enquanto a platina subiu 1,2%, para 1.646,59 dólares. O paládio também valorizou 1,2%, para 1.279,55 dólares.

A prata combina procura financeira com uma utilização industrial significativa, sobretudo em tecnologias energéticas e electrónicas. A platina e o paládio dependem igualmente da indústria, com destaque para a produção automóvel e os sistemas de controlo de emissões.

O avanço conjunto dos metais pode reflectir alguma melhoria do sentimento dos investidores, mas cada mercado responde a condições próprias de oferta, procura industrial, inventários e capacidade de produção.

Mercado Procura Direcção Entre Segurança E Rendibilidade

O comportamento moderado do ouro nesta terça-feira indica que os investidores ainda não definiram uma direcção clara.

A insegurança no Médio Oriente continua a sustentar a procura por protecção, mas a possibilidade de uma subida das taxas de juro norte-americanas impede uma expansão mais firme das posições no metal.

Os dados do emprego deverão ajudar a resolver parte desta incerteza. Uma desaceleração expressiva poderá reduzir as expectativas de aperto monetário e favorecer o ouro. Um mercado de trabalho resistente poderá consolidar a probabilidade de subida dos juros, fortalecer o dólar e limitar os ganhos.

Até à divulgação do relatório de sexta-feira, o ouro deverá permanecer especialmente sensível a três elementos: declarações da Reserva Federal, sinais diplomáticos ou militares no Médio Oriente e alterações nas expectativas dos investidores sobre a reunião de Setembro.

Fonte: O Económico

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