InícioRevistaEconomiaPetróleo Recupera 1% Após Queda de 7%, Mas Ormuz Mantém Prémio Geopolítico

Petróleo Recupera 1% Após Queda de 7%, Mas Ormuz Mantém Prémio Geopolítico

Mercado Corrige Aposta Prematura Numa Desescalada

Os preços do petróleo recuperaram cerca de 1% nas primeiras horas desta terça-feira, 4 de Agosto, depois da forte queda registada na sessão anterior, quando o mercado interpretou declarações da Casa Branca como um possível sinal de aproximação diplomática entre os Estados Unidos e o Irão.

Os contratos de referência do Brent subiram 1,12 dólares, ou 1,3%, para 84,89 dólares por barril, depois de terem perdido 7% na segunda-feira e atingido o nível mais baixo das últimas três semanas. O West Texas Intermediate avançou 77 cêntimos, ou 1%, para 81,11 dólares, após uma queda superior a 5%. (Reuters)

A descida anterior foi desencadeada pelas declarações do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segundo as quais Washington teria suspendido novos ataques contra o Irão enquanto decorriam contactos destinados a terminar o conflito e resolver a disputa sobre o controlo e a circulação no Estreito de Ormuz.

A narrativa de desanuviamento perdeu consistência quando o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmail Baghaei, afirmou que não estavam em curso negociações directas com os Estados Unidos, nem existiam reuniões programadas entre os dois países. Teerão reconheceu apenas contactos separados com Omã relacionados com a navegação marítima. (Reuters)

Para os analistas do ING citados pela Reuters, a dimensão da queda de segunda-feira terá sido excessiva perante a incerteza ainda existente. A experiência recente mostra que sinais iniciais de diálogo podem alterar rapidamente os preços, sem que representem necessariamente um acordo político capaz de restabelecer a segurança das rotas energéticas.

Ormuz Continua No Centro Da Formação Dos Preços

A principal divergência entre Washington e Teerão concentra-se no estatuto do Estreito de Ormuz. Os Estados Unidos sustentam que um memorando de entendimento alcançado em Junho obrigaria o Irão a permitir a livre circulação marítima. As autoridades iranianas defendem, por sua vez, que o documento preserva a sua autoridade sobre a passagem.

A importância de Ormuz ultrapassa a disputa política entre os dois países. O estreito liga os maiores produtores do Golfo Pérsico aos mercados internacionais e constitui uma das infra-estruturas mais sensíveis do sistema energético mundial.

Dados da Administração de Informação sobre Energia dos Estados Unidos indicam que, no primeiro semestre de 2025, cerca de 20,9 milhões de barris de petróleo e produtos petrolíferos atravessaram diariamente o estreito. A Agência Internacional de Energia estima, adicionalmente, que mais de 110 mil milhões de metros cúbicos de gás natural liquefeito passaram por Ormuz em 2025, representando perto de um quinto do comércio mundial de GNL. (EIA EUA)

A exposição é particularmente relevante para a Ásia, destino de aproximadamente 80% do petróleo e dos derivados transportados através desta passagem. Países como China, Índia, Japão e Coreia do Sul encontram-se entre os mercados mais dependentes dos carregamentos provenientes do Golfo.

No caso do gás natural liquefeito, a margem de substituição é ainda menor. Grande parte das exportações do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos utiliza Ormuz, sem rotas terrestres ou marítimas alternativas capazes de absorver rapidamente os mesmos volumes. (IEA)

Fluxos Aumentam Sem Representar Normalização

Analistas do Barclays estimaram que as exportações líquidas de petróleo e produtos refinados através de Ormuz atingiram uma média de 4,2 milhões de barris por dia na semana terminada a 31 de Julho, acima dos 3,2 milhões de barris diários registados na semana anterior.

O aumento mostra que os carregamentos continuam a atravessar o estreito, mas os volumes permanecem condicionados pela ameaça de incidentes, detenções de navios e decisões de armadores que reduzem ou adiam operações em zonas consideradas de risco elevado.

A Agência de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido comunicou, esta terça-feira, um incidente ocorrido cerca de 20 milhas náuticas — aproximadamente 37 quilómetros — a nordeste de Al Khasab, em Omã. Um navio de carga informou, através do canal marítimo de emergência, ter sido atingido por um projéctil de origem desconhecida. (Arab News PK)

Embora ainda não tenham sido divulgados detalhes completos sobre danos ou eventuais vítimas, a ocorrência evidencia que a circulação marítima continua sujeita a ameaças físicas. Para os operadores, cada incidente altera avaliações de risco, custos de seguro, disponibilidade de tripulações e condições de financiamento dos carregamentos.

A recuperação dos volumes transportados não equivale, por isso, ao regresso das condições anteriores ao conflito. Uma normalização consistente exigiria circulação regular, ausência prolongada de ataques, redução dos prémios de seguro e maior previsibilidade quanto às regras de passagem.

Bab El-Mandeb Acrescenta Um Segundo Risco À Cadeia Energética

Ao risco no Golfo junta-se a instabilidade em Bab el-Mandeb, estreito que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e constitui a principal via marítima de acesso ao Canal de Suez.

Dados de navegação citados pela Reuters mostram que seis superpetroleiros com bandeira saudita alteraram recentemente a sua rota no Golfo de Áden, optando por contornar o Sul de África. Apenas dois navios carregados com petróleo saudita atravessaram Bab el-Mandeb no período analisado.

As ameaças dos Houthis contra embarcações associadas à Arábia Saudita não interromperam completamente os fluxos, mas aumentaram o custo de utilização da rota. Algumas empresas passaram a escolher viagens mais longas através do Cabo da Boa Esperança, evitando o Mar Vermelho e o Canal de Suez.

Esta alternativa reduz a exposição imediata aos ataques, mas acrescenta dias de navegação, consumo de combustível, custos com tripulações e menor disponibilidade global de navios. O preço dos seguros de guerra para embarcações que operam na região também aumentou, acompanhando a percepção de maior probabilidade de ataques ou bloqueios. (Reuters)

O mercado passa, deste modo, a incorporar um risco simultâneo em duas passagens estratégicas. Ormuz afecta directamente a saída de petróleo e gás do Golfo, enquanto Bab el-Mandeb condiciona a rota mais curta entre o Médio Oriente, a Ásia e a Europa.

Diplomacia E Segurança Marítima Determinam A Volatilidade

A recuperação desta terça-feira mostra que o mercado ainda não atribui elevada probabilidade a uma solução diplomática imediata. As declarações contraditórias de Washington e Teerão tornam difícil avaliar se existe um processo negocial estruturado ou apenas contactos indirectos destinados a limitar uma nova escalada militar.

Enquanto não surgirem resultados concretos, os preços continuarão susceptíveis a oscilações acentuadas provocadas por declarações políticas, ataques contra navios, alterações nas rotas dos petroleiros e variações nos volumes que atravessam os estreitos.

Uma sondagem da Reuters realizada junto de economistas e analistas reviu para 85,22 dólares por barril a previsão média do Brent para 2026, acima dos 84,50 dólares estimados no mês anterior. A revisão reflecte a expectativa de que as perturbações no Médio Oriente e no Mar Vermelho continuem a limitar a disponibilidade efectiva da oferta, mesmo quando a produção física mundial se mantém elevada. (Reuters)

A trajectória do petróleo deverá, assim, permanecer dividida entre dois movimentos. As expectativas de diálogo e de aumento da oferta podem reduzir temporariamente os preços, enquanto os riscos marítimos, os custos logísticos e a possibilidade de novos confrontos impedem uma eliminação duradoura do prémio geopolítico.

Neste ambiente, o indicador mais relevante deixa de ser apenas o anúncio de negociações. O mercado procurará evidências de circulação sustentada em Ormuz e Bab el-Mandeb, redução dos desvios pelo Sul de África, diminuição dos prémios de seguro e maior coerência entre as posições diplomáticas das partes envolvidas.

Fonte: O Económico

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