InícioRevistaDesportoDIEGO SIMEONE CONSTRÓI UM LEGADO NO ATLÉTICO DE MADRID

DIEGO SIMEONE CONSTRÓI UM LEGADO NO ATLÉTICO DE MADRID

Por: Gentil Abel

No futebol, a troca frequente de treinadores é vista como solução para qualquer momento menos positivo, o Atlético de Madrid decidiu seguir um caminho diferente. Em vez de mudar constantemente o comando técnico, o clube espanhol apostou na estabilidade e na continuidade de um projecto liderado por Diego Simeone. Passados quase 15 anos, os resultados mostram que esta decisão foi uma das mais acertadas do club.

Desde que assumiu o comando da equipa, em Dezembro de 2011, Simeone renovou o contrato por seis ocasiões. A primeira renovação aconteceu em Março de 2013, prolongando o vínculo até 2017. Dois anos depois, em Março de 2015, voltou a renovar até 2020, embora esse acordo tenha sido posteriormente ajustado. Em Setembro de 2017 assinou um novo contrato, seguindo-se outra renovação em Fevereiro de 2019, que garantiu a sua permanência até ao final da temporada de 2021/2022. Em Julho de 2021 prolongou novamente a ligação ao clube até Junho de 2024 e, em Novembro de 2023, assinou o actual contrato, válido até 30 de Junho de 2027.

À primeira vista, tantas renovações podem parecer um acto de confiança excessiva. Contudo, basta olhar para aquilo que Simeone construiu para perceber que o Atlético de Madrid não renovou contratos por tradição ou sentimentalismo, mas porque encontrou um treinador capaz de transformar a identidade do clube.

Quando o técnico argentino chegou a Madrid, a realidade era bem diferente da actual. O Atlético atravessava um dos períodos mais difíceis da sua história. A equipa ocupava a décima posição da La Liga, estava distante dos lugares de acesso às competições europeias e poucos dias antes tinha sido eliminada da Taça do Rei pelo Albacete, um clube que disputava a terceira divisão espanhola. A instabilidade era uma marca constante, tanto dentro como fora de campo, ao ponto de o clube ser conhecido em Espanha pela alcunha de "El Pupas", uma referência à sua incapacidade de vencer nos momentos decisivos e à constante mudança de treinadores.

Foi neste cenário que Simeone iniciou um trabalho que alterou profundamente o rumo do Atlético de Madrid. Em poucos anos, a equipa deixou de lutar apenas por lugares europeus para competir regularmente com gigantes como o Real Madrid e o Barcelona. O clube ganhou uma identidade competitiva, passou a disputar títulos com frequência e consolidou-se entre as principais equipas do futebol europeu.

Os resultados desportivos sustentam essa transformação. Sob o comando de Simeone, o Atlético conquistou oito títulos, incluindo duas edições da La Liga, duas da Liga Europa, duas Supertaças Europeias, uma Taça do Rei e uma Supertaça de Espanha. Além disso, chegou a duas finais da Liga dos Campeões, feito que reforçou o estatuto internacional do clube, apesar de não ter conseguido conquistar o troféu.

Mais do que os títulos, impressiona a consistência alcançada ao longo dos anos. O Atlético tornou-se presença praticamente permanente na Liga dos Campeões, garantindo receitas milionárias que fortaleceram as finanças da instituição. Esta estabilidade financeira permitiu ao clube investir na modernização das suas infra-estruturas, construir um novo estádio, aumentar a sua projecção internacional e atrair investidores, consolidando um crescimento que dificilmente seria alcançado sem resultados desportivos consistentes.

É precisamente por isso que Diego Simeone continua a ser o treinador mais longevo entre os principais clubes europeus. Enquanto muitas equipas optam por mudar de treinador perante os primeiros sinais de dificuldade, o Atlético compreendeu que um projecto vencedor exige tempo, estabilidade e confiança. A continuidade permitiu consolidar uma filosofia de jogo, criar uma cultura competitiva e transformar uma equipa historicamente instável numa referência do futebol europeu.

Contundo, o sucesso alcançado também ajuda a explicar por que razão Simeone continua a ser um dos treinadores mais bem remunerados do mundo. O seu salário não resulta apenas dos títulos conquistados, mas do impacto estrutural que teve no crescimento do clube. Poucos treinadores conseguiram alterar de forma tão profunda a dimensão desportiva, financeira e institucional de uma equipa.

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