Resumo
O projeto hidroelétrico de Mphanda Nkuwa, no rio Zambeze em Moçambique, volta a ser discutido como uma oportunidade de crescimento económico, gerando 1.500 megawatts de eletricidade e um investimento de 6,4 mil milhões de dólares. No entanto, surgem preocupações sobre os impactos sociais e ambientais, com possíveis deslocações de mais de 1.400 famílias e até 39 mil pessoas em risco, afetando comunidades que dependem da agricultura, pesca e mineração artesanal. O projeto, liderado por empresas francesas, japonesas e moçambicanas, revive debates sobre quem realmente beneficia do desenvolvimento, lembrando os problemas não resolvidos do passado, como os impactos do projeto de Cahora Bassa. As comunidades locais questionam se os benefícios económicos chegarão efetivamente a quem mais sofrerá os impactos do projeto.
Apresentado como uma solução estratégica para reforçar a produção de energia limpa e impulsionar a economia nacional, o projecto hidroeléctrico de Mphanda Nkuwa regressa à agenda envolto em promessas de progresso e preocupações relacionadas com os seus impactos sociais e ambientais. Previsto para o rio Zambeze, na província de Tete, o empreendimento promete gerar 1.500 megawatts de electricidade, consolidando o papel de Moçambique como exportador de energia na África Austral, além de mobilizar um investimento estimado em 6,4 mil milhões de dólares.
À primeira vista, trata-se de uma oportunidade histórica para impulsionar o crescimento económico nacional. Contudo, uma análise mais aprofundada revela que o debate em torno de Mphanda Nkuwa vai muito além da produção de energia. A questão central continua a ser a mesma que acompanha muitos megaprojectos em Moçambique: quem realmente beneficia do desenvolvimento?
O projecto, previsto para o rio Zambeze, cerca de 60 quilómetros a jusante da barragem de Cahora Bassa, ressurge após mais de duas décadas marcadas por adiamentos, mudanças de investidores e dificuldades de implementação. Ao longo dos anos, passaram pela iniciativa instituições e investidores internacionais de diferentes origens, incluindo o Banco Mundial, empresas brasileiras e chinesas. Agora, o projecto é liderado por um consórcio que integra as empresas francesas EDF-Electricité de France e TotalEnergies, a japonesa Sumitomo Corporation, além da Electricidade de Moçambique (EDM) e da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB). Contudo, o centro do debate não reside apenas na dimensão financeira do projecto ou na sua capacidade de produção energética, mas sobretudo nos impactos que poderá ter sobre as comunidades que vivem ao longo do rio Zambeze.
Segundo um relatório publicado em 2025 pelas organizações Justiça Ambiental (JA!) e CCFD-Terre Solidaire, a futura albufeira poderá inundar cerca de 100 quilómetros quadrados e provocar a deslocação directa de mais de 1.400 famílias, o equivalente a mais de 8.000 pessoas. Porém, os próprios autores alertam que os impactos podem ser significativamente maiores. Avaliações preliminares apontam para cerca de 39 mil pessoas em risco de deslocação e aproximadamente 350 mil habitantes potencialmente afectados pelas alterações ambientais e socioeconómicas ao longo do rio.
A maioria das populações que vivem nas margens do Zambeze depende da agricultura familiar, da pesca artesanal, da criação de gado e, em alguns casos, da mineração artesanal de ouro. O rio não é apenas uma fonte de água; é a base da sobrevivência de milhares de pessoas.
É precisamente aqui que surgem as maiores preocupações. A experiência de Cahora Bassa continua viva na memória colectiva das comunidades locais. Muitas famílias que foram reassentadas durante a construção daquela barragem perderam acesso a terras férteis, aos recursos do rio e aos seus modos tradicionais de subsistência. Décadas depois, vários desses problemas permanecem sem solução completa.
No entanto, quando as comunidades ouvem falar de uma nova barragem, não enxergam apenas uma infra-estrutura energética. Elas recordam promessas antigas de desenvolvimento que, para muitos, nunca chegaram a concretizar-se.
No final, permanece uma questão: os benefícios econômicos do projecto Mphanda Nkuwa chegarão efectivamente às comunidades que vivem nas margens do Zambeze ou, mais uma vez, ficarão distantes daqueles que suportarão os maiores impactos do projecto?






